Ponto Entrevista
15 de agosto de 2011 por marimessias

Ponto Entrevista: Felipe Milanez

Uma das coisas que une todos nós aqui do Ponto é que sempre queremos entender e saber mais. E, para entender e saber mais, nada melhor que perguntar para alguém que seja capaz de acabar com nossas dúvidas e nos ensinar coisas que sequer imaginávamos.

Nessa vibe começamos a primeira entrevista do Ponto Eletrônico, tentando entender o que está acontecendo no Norte do país, saber mais sobre o novo Código Florestal e descobrir como podemos ajudar a acabar com assassinatos como o da Irmã Dorothy e do Zé Cláudio e Dona Maria.

Para isso, falamos com o Felipe Milanez, que é jornalista, advogado, fotógrafo e mestre em ciência política pela Universidade de Toulouse. Mas é mais que isso, o Felipe é um conhecedor e admirador dos povos indígenas brasileiros. Já editou a Brasil Indígena, da Funai, a National Geographic Brasil e escreve pra a Rolling Stone, o Terra e a Vice (em português e em inglês). Sem se deixar intimidar, o Felipe segue ajudando a dar voz pra quem não é ouvido.

A população brasileira precisa conscientizar-se de que ela é a responsável por cuidar do patrimônio forestal nacional.

PE – O problema das nossas florestas está na lei atual ou na falta de fiscalização dela?

FM - A lei protege as florestas, e a lei atual, para as florestas (consequentemente, para nós mesmos), é melhor do que a previsão de mudança que se anuncia com o projeto do código florestal. O problema, principalmente na Amazônia, é aplicar a lei. O Ibama é um órgão cada vez mais presente, com operações fortes, constantes, que estão reprimindo os crimes ambientais. Mas a repressão não funciona apenas com o poder de polícia. A Justiça tem uma parcela imensa, ainda maior, na péssima aplicação da lei. Um estudo do Imazon mostrou que metade dos juizes do Pará nem sequer conhecem a legislação ambiental. Nesse caso, mesmo que o Ibama reprima, de acordo com a lei, o infrator pode conseguir burlar a lei com uma interpretação ampla de juízes – como em casos em que a Justiça libera bens apreendidos, como tratores, moto serras e caminhões que são usaods nos crimes.

Nem a lei, nem a fiscalização vão conseguir dar conta de segurar a pressão sobre a floresta, que a própria sociedade impõe. O problema das florestas é a sociedade que explora e não sabe utiliza-las de uma forma manejada, sustentável. Nesse caso, o problema está em São Paulo, no Rio Grande do Sul, nas cidades costeiras do nordeste, onde se utilizam madeira illegal da Amazônia, consomem-se produtos ilegais, como soja e gado produzidos em áreas de desmatamento. A população brasileira precisa conscientizar-se de que ela é a responsável por cuidar do patrimônio forestal nacional.

PE – O que tu acha que pode mudar (de fato) com o novo código florestal?

FM - O novo Código Florestal vai anistiar desmatadores, pessoas que cometeram crimes contra o meio ambiente, vão receber uma anistia. Por que? Por que não pagam suas dívidas com a sociedade? O novo código também abre diversas brechas na legislação que vai permitir que se desmate ainda mais. É uma proposta inconcebível com o atual conhecimento científico das possibildiades de produção e preservação. Ele deveria ter sido pensado por cientistas, pois regula áreas onde a ciência tem muito a contribuir, como a biologia, agronomia, geografia. Mas não: foi pensado por grandes detentores de terra que querem ganhar mais dinheiro à custas do patrimônio público (a floresta).

Felipe com Maria e Zé Cláudio

PE – Qual era a importância da figura do Zé Cláudio e Maria? As autoridades tinham conhecimento das ameaças sofridas por eles?

FM - Zé Cláudio e Maria eram grandes defensores da floresta. Como Zé Cláudio me disse uma vez: “eu sou o verdadeiro ambientalista, porque eu vivo na floresta, e não vendo ela de jeito nenhum.” Eles lutavam para que o assentamento onde viviam, o Praia Alta Piranheira, funcionasse como deveria, com o extrativismo florestal. Combatiam os madeireiros ilegais, que serravam castanheiras, também denunciavam a atividade de carvão illegal, onde se utiliza a floresta para faezr carvão vegetal que é usado na siderurgia. E defendiam os outros assentados contra fazendeiros que roubavam terra pública para plantar pasto – nesse caso, o suspeito de ter sido o mandante das mortes, segundo a polícia, é José Rodrigues Moreira, um fazendeiro.

Zé Cláudio e Maria são exemplos de luta, de vida, que devem incentivar as pessoas a terem consciência do mundo onde estão.

A polícia,e a sociedade, sabiam que eles eram ameaçados.

PE - Para os povos indígenas e nativos da região, quais mudanças tu acredita que sejam mais urgentes?

FM - Os índios precisam ser respeitados pela sociedade brasileira. Ser levados a sério em suas reivindicações. Terem seus direitos garantidos. E o estado brasileiro tem se eximido, principlamente nos casos de invasão de áreas indígenas (muitas terras indígenas estão invadidas), na demarcação dessas terras, e que suas vontades sejam respeitadas frente aos grandes projetos, como as hidrelétricas. Mas o Brasil tem passado por cima dos direitos indígenas. O governo, atropelado. A sociedade brasileira, através da mídia, reproduzindo preconceitos, racismo e intolerância contra os índios.

PE - E, por fim, de que maneira os problemas florestais nos afetam, como moradores de cidades? E o que nós, que não estamos lá, podemos fazer a esse respeito?

FM - Mudanças climáticas, disturbios climáticos, eventos extremos, como secas, chuvas intensas, são alguns efeitos sentidos nas grandes cidades – e que podem, inclusive, até mesmo inviabilizar a vida em grandes aglomerações. Imagina como sera São Paulo se algum ano passarmos 3 meses de seca?

Mas são os moradores das cidades que impactam e destroem a floresta, consumindo os produtos que são feitos da destruição da floresta. Carne, soja, madeira, destroem a Amazônia. É preciso ver a origem. Até mesmo a boneca Barbie, o greenpeace demonstrou, destroi as floresta na Asia. É preciso aprender a consumir de forma responsável.

Pra saber mais, vale muito seguir o Felipe Milanez no twitter e assistir, abaixo, o vídeo da apresentação dele noTEDxAmazônia, falando sobre o genocídio de indíos brasileiros.

3 comentários para Ponto Entrevista: Felipe Milanez

  1. Pingback: Ponto Entrevista: Felipe Milanez (via Ponto Eletrônico) | Beto Bertagna a 24 quadros

  2. Cris Grosselli disse:

    Pessoal, incrível a entrevista! Parabéns. Bjo

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>