Comportamento Tecnologia
05 de setembro de 2011 por Vinicius Perez

Me Here Now

por Phuong-Cac Nguyen

Se sabemos conscientemente ou não, estamos vivendo numa crise existencial coletiva. Enquanto continuamos perambulando nas estradas da Internet sob comando dos nossos alter egos individuais, nossas realidades têm ficado mais e mais emaranhadas em versões virtuais de nós mesmos. Mesmo quando não estamos conectados — informação, dados e interações pingando intravenosamente no nosso sistema de pensamentos — nossos gadgets são facilitadores desse vício de viver através desse outro “nós.” É uma obsesão em viver online, mesmo quando estamos offline, interrompendo uma conversa para fazer um tweet ou vivendo através das lentes do Instagram para exibir instantaneamente onde estamos (e onde nossos seguidores não estão). Nossas mentes não estão aqui no momento. Então, onde estamos?

Mas a maré está mudando. Estamos começando a perceber que perdemos a vista de nós mesmos, tanto no senso metafórico quanto literal. Como podemos nos sintonizar com o que está acontecendo em frente aos nossos olhos? O sinal maior em apoio desse movimento são as novas possibilidades dos recursos de location-aware, uma tecnologia do tipo ame-ou-odeie cuja popularidade tem perpetuado nos últimos anos com nossa necessidade constante de estar em todos lugares e falar isso para todo mundo, de uma só vez.

Groupon Now

ME HERE NOW, como chamamos essa onda, inclui aplicativos que nos pressionam para reconhecer completamente nossos arredores. Podemos pensar nesses apps como os novos óculos 3-D. Ao invés de nos estimular para viver num universo paralelo, esses programas nos dizem exatamente o que perdemos se não participarmos imediatamente. Claro, o segredo é que precisamos confiar neles como novos aliados.

O que o pai do existencialismo, Kierkegaard, pensaria se estivesse ainda vivo hoje, quando enfrentado com esse paradóxo pesado e fascinante?

Até termos lentes de contato biônicas que nos ajudem a processar nossos arredores, temos apps que nos mandam de boa vontade essas informações essenciais. Esses tipos de programas location aware nos permitem ser pessoas que tudo vêem e tudo sabem, como se fôssemos onipresentes. Foursquare, hoje com mais de 10 milhões de usuários, foi o pioneiro em popularizar esse comportamento.

Evoluindo nesse desejo de descobrir novos lugares, o Trover é uma ferramenta baseada essencialmente em imagens para ajudar os usuários a encontrarem arte de rua, ou qualquer coisa interessante ao seu redor. Um outro app do momento é o FoodSpotting, que usa fotos dos participantes para mostrar os melhores pratos dos restaurantes da região.

A chave é pegar vantagem do momento e incentivar o impulso. As promoções do novo Groupon Now aparecem no seu aparelho mobile a qualquer hora que você está na vizinhaça de um comerciante participante.

(esquerda à direita: Trover, Situationist, Colors)

É uma coisa esquisita a se pensar: estamos tão acostumados a não ter mais que estar presente fisicamente para fazer amizades, o que sempre foi uma lei básica das relações humanas, que hoje essa interação não-presencial e não-íntima problematiza o argumento de qualquer existencialista. Então, claro que nossas relações estão se fragmentando e muitas vezes ficando mais superficiais. O novo location aware tem o propósito de fazer os encontros entre pessoas alguma coisa mais real — ainda que com um filtro intermediário que confirma que não estamos voltando para o jeito old-school de se relacionar.

Sonar é um dos mais interesantes apps desse tipo, mostrando quais conexões você tem com qualquer estranho perto de você, como mostrar amigos em comum no Facebook ou interesses similares. A ideia, obviamente, é que você se aproxime de pessoas que você percebe que na verdade não são tão estranhas assim.

Sonar

Ask Around permite aos usuários participar de conversas real-time acontecendo ao seu redor. Pense na situação de um trem parado, como exemplo, onde um passageiro de um vagão pergunta para alguém do vagão da frente por que o trem não está andando. Mas afora os pesadelos de transporte diário, o app pode ser útil para atualizações instantâneas sobre qualquer assunto, como uma espécie do twitter local. E se você está em um evento com outros amigos, pode usar o Colors para que todos compartilhem de um álbum público das fotos que todos estão tirando naquele lugar, naquele momento.

Com tantas formas de se conectar digitalmente antes de um encontro no real-life, temos perdido nosso prazer pela espontaneidade. Nada melhor do que contato humano para nos sentirmos vivos. Situationist tenta resgatar esse elemento de surpresa ao permitir que usuários criem situações — pense em um flash mob instantâneo, sob seu controle — que convidam outras pessoas a agir e interagir se estiverem perto de você. Entretanto, a ideia é ainda nova, e ficamos na expectativa de que teremos apps mais maduros e sofisticados como este num futuro próximo.

Central Park por Bluebrain

Vemos por onde o location aware já tem andado: programas que entregam praticidade e até brincadeiras no dia-a-dia. Uma boa conclusão para tudo isso é que o mundo muda quando você muda de lugar. O grande potencial do location aware está em entregar experiências offline que não poderíamos ter antes dessa virtualidade existir.

Um exemplo interessante são os apps/albuns da banda Bluebrain, que só podem ser ouvidos em determinados lugares, como por exemplo o National Mall, parque de Washington, D.C. nos EUA. Enquanto os ouvintes caminham, a música muda, com direito a faixas secretas em locais fora do circuito normal de passeio. Quando que viver no aqui-agora foi tão divertido?

A crise existencial on e offline ainda não está resolvida. Mas por enquanto, tudo que precisamos é um push notification para nos lembrar de ficarmos alertas.

Phuong-Cac Nguyen é do núcleo de Trends da Box1824.

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