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16 de novembro de 2011 por marimessias

Ponto Entrevista: Raquel Brust

Quando decidimos falar sobre formas mais sinceras e diretas de aproximar a arte do nosso cotidiano, na hora lembramos da Raquel Brust. Formada em Jornalismo pela PUCRS, ela é uma artista multimídia que trabalha com foto, vídeo e instalações. E eu garanto que tu já viu alguma obra dela, mesmo que não saiba.

Um bom exemplo disso é Giganto, um projeto de intervenções urbanas com fotografias hiperdimensionadas. Expostos pelas ruas do país, elas rompem padrões de comportamento pré-estabelecidos, tanto com a arte, como com o meio urbano e até entre as próprias pessoas.

Então bora lá, entrar nesse mundo imenso e muito bonito da Raquel.

A verdadeira casa da arte é o próprio artista, a plataforma é só um meio de externar sua essência.

PE – Lá nos anos 1970, o grupo de artistas 3NÓS3, em sua Operação X-Galeria, lacrou as portas de várias galerias e colou a frase: “o que está dentro fica, o que está fora se expande”. Qual a relevância dessa afirmação nos dias de hoje? A rua é a verdadeira casa da arte?

RB - Acredito que o irreverente grupo alertava sobre uma inovadora maneira de usar a arte: a intervenção urbana como uma reação ao mundo. Eles utilizavam o ambiente público como ferramenta para um trabalho criativo e crítico. Na minha interpretação, a frase fala sobre essa arte menos burocrática e efervescente feita nas ruas. O “fora” agrega a consciência da comunidade e sua participação ativa no cenário, fazendo com que a obra se amplie. Já nas galerias, o ambiente controlado e asséptico continuava o mesmo, preso a uma fórmula ultrapassada que precisava ser renovada.

Acredito também que a rua e a galeria são espaços distintos. O artista  apresentará trabalhos que se encaixem na dinâmica do local, na criação da obra o ambiente expositivo já faz, de certa forma, parte de sua concepção.  A verdadeira casa da arte é o próprio artista, a plataforma é só um meio de externar sua essência. Na renovação dos formatos acontecem as transformações. As novas mídias fornecem ao artista inúmeras ferramentas de expressão, e novas categorias são criadas. A intervenção urbana é só mais um braço de uma ampla mudança, que continua acontecendo, de desmistificação da arte.

No início a arte urbana tinha um caráter muito mais transgressor, com idéias e pensamentos políticos. Eram protestos, atitudes e apropriação numa época em que havia tensão e a arte serviu de grito poético de protesto. Não posso deixar de pensar que essa frase serve também para criticar o mercado da arte. Enquanto a arte das ruas é feita para ser compartilhada, o que está dentro das galerias seria somente mais uma moeda, uma mercadoria, produzida para ser negociada.

A questão do fluxo entre a arte de rua e as galerias de arte é uma questão muito atual porque estamos vivenciando um momento de liberdade e diálogo entre esses dois meios. Acredito que o trânsito pode e deve ser livre e dinâmico, basta estar adaptado ao espaço expositivo. Atualmente vejo muitos artistas que gostam de trabalhar em ambas plataformas, realizam trabalhos para dentro das galerias, assim com mantêm um trabalho vivo na rua. Vejo a arte contemporânea muito relacionada com o ambiente em que é exibida, e cada vez mais desprendida de formatos.

As fronteiras estão bastante diluídas, no meu trabalho por exemplo, eu quase não identifico os limites entre áreas como comunicação social, antropologia visual, instalação, performance, mídias sociais, poéticas visuais, site specific, fotografia, vídeo, digital, analógico, etc. Vivemos em mundo de múltiplos espaços; a arte também faz parte disso, e isso só amplia o dialogo com o público e a compreensão da obra.

PE – Existe diferença nas percepções e reflexões do publico de rua e do público de galerias?

RB - Sim, são completamente distintas. A intervenção é uma obra realizada e concebida para estar na rua, ocupando e dialogando com o ambiente em que se apresenta. O espaço é muito mais do que plataforma, é parte do significado e da natureza da ação, que fica completa com os ruídos da interpretação e com a participação do público. Sua natureza é o estranhamento, o extraordinário, a ruptura do olhar. Quase sempre efêmera e de curta duração a intervenção de rua não é palpável, se resume a um registro, a uma fotografia, uma memória de quem vivenciou o ato.

Já a arte contida nas galerias é exposta com conservantes e garantias para que este objeto possa ser adquirido. O público que visita galerias já está preparado para o que vai ver, já possui um conhecimento cultural mais afinado para interpretar a arte. Ao contrário disso, para o que está exposto na rua não existe filtro, preparo e não há seleção. É mais democrática porque é uma doação, fica aberta ao público e depende de sua conduta para continuar exposta. No conteúdo da arte de rua, envolve-se a comunidade, comunica-se com ela, e existe para ela, e portanto todo o entorno acaba fazendo parte do significado.

A câmera fotográfica é um jogo do espelhos, quando você fotografa o que você sente, você acaba vendo sua própria alma refletida nas imagens.

PE – Como e por qual motivo tu escolheu a fotografia? Tu acredita que a opção pelo uso de linguagens artísticas que não são “naturais da rua” (como no caso de Giganto, com fotografias hiperdimensionadas), o deslocamento gerado por elas nesse ambiente, exacerba a capacidade que a arte tem de nos tirar da realidade cotidiana, criar reflexões?

RB - Todo mundo gosta de se deslocar para o fantástico mundo das imagens. Escolhi fotografia porque gostava de aprisionar a memória. Gosto de recortar os momentos, congelar as emoções para vivenciá-las novamente mais tarde. Gosto de lidar com o tempo e com a imaginação, sempre gostei da magia do reflexo. A câmera fotográfica é um jogo do espelhos, quando você fotografa o que você sente, você acaba vendo sua própria alma refletida nas imagens.

Escolhi a fotografia, ou ela me escolheu na adolescência. Durante o curso de Jornalismo na PUCRS, desenvolvi e aperfeiçoei a linguagem. Neste período acompanhei o movimento crescente da street art em Porto Alegre, e esse foi o tema da minha primeira exposição intitulada “Olho do Muro”, que posteriormente foi exibido na coletiva Transfer. Levei a textura dos muros pra a galeria, agora levo as fotografia para os muros. Como já disse, não vejo fronteira entre rua e galeria e prefiro dinamizar esse fluxo, isso só alimenta meu trabalho.

O Giganto altera a paisagem e isso já é uma ruptura do cotidiano. A imagem fotográfica funciona muito bem porque gera imediatamente reflexões bem subjetivas de identificação. Quando o expectador vê um rosto, ele remete aquela imagem a si mesmo, ou a alguém que conhece, como um avô, uma tia, um vizinho. É muito atraente também ver sua própria imagem ampliada, digo isso pois nos vemos como humanos, e aquele ser gigante representa a todos. O projeto é sobre valorização do indivíduo, é uma experiência fotográfica de deslocamento da imagem, de buscar outra dimensão; é meta do projeto entender como essa imagem será interpretada.  Ativa também um outro censo de responsabilidade diante da cidade, onde nós humanos constituímos o concreto, somos parte ativa do caos.

PE – Acaba rolando uma espécie de vínculo com as histórias e as próprias pessoas que tu fotografa?

RB - Fotografo porque quero criar vínculos com a memória. Na minha busca pelo saber, encontro nas pessoas doses de sabedoria. Fotografo o rosto delas porque é a estampa de toda uma vida. Elas me comovem cada uma a sua maneira, e a cada Giganto novos laços são formados.

Eu tenho que procurar meus retratados, ficar atenta a algo que me desperte, que mostre um pouco de alma, um vinco, um olhar, um gesto, um brilho. Aproximar-se e fotografar uma pessoa, já é um ato bem íntimo que exige troca mútua; transformá-la em Giganto pode ser uma marca transformadora em sua vida. Existe muita emoção no encontro da pessoa com sua própria imagem e isso é inesquecível.

O próprio Giganto também cria vínculos com a comunidade e local que convive. As pessoas ficam bem apegadas a imagem e se tornam guardiões do painel. Acho que isso acontece porque sentem a energia de todos que estão envolvido no projeto, sentem que cada etapa é realizada com dedicação e empenho.

Acredito que encontrei uma maneira de estreitar laços entre arte, público e cotidiano.  Mas esse é só um exemplo, nas instalações isso é recorrente; a maioria depende do ambiente e da reação do espectador para realmente acontecer, não são obras passivas, são ativas, são vivas, dependem do que você vai fazer com elas.

PE – Como tu acha que podemos aproximar mais as artes do nosso cotidiano e tornar mais íntima e menos formal nossa relação com elas?

RB - Acredito que precisamos ter menos medo de fazer. Pra mim, ser artista independe de ter formação acadêmica, é um estado de alma. Vejo na arte uma maneira de expor sentimentos que podem ser comuns a outras pessoas, e é isso que irá cativá-las.

O Giganto tem esse papel de aproximar o cotidiano da arte, além disso, fazer com que as pessoas se sintam parte dela.  Como o processo é colaborativo, voluntários podem agregar ao projeto; seja na colagem, na captação e principalmente no registro. A foto está ali justamente para estimular essa interação, é um incentivo para gerar novas fotografias.

No início do projeto, resolvi fazer intervenções nas janelas dos moradores dos prédios vizinhos ao Minhocão. Foi uma das ações mais cansativas pois envolveu muito tempo de abordagem e conversa. Mas foi uma das etapas mais gratificantes. Lembro de ouvir da Sandra, proprietária de uma das janela, o seguinte depoimento: “Eu fico feliz em ajudar, já que eu não sei fazer arte pelo menos estou participando”.  E outros moradores também adoravam o fato de estar fazendo algo pela cidade, pensavam em agradar as pessoas que ficam presas no engarrafamento no viaduto. Gostavam também da função, da atenção que recebiam, de conversar com a gente. Muitos queriam fotografar também,  aparecer no vídeo, questionar. Esse é o maior mérito do Giganto, interferir na rotina, criar laços, alterar a paisagem.

Colaboração é a palavra chave do projeto. Eu não faço nada sozinha, conto com a participação de muita gente, em diferentes etapas. Fico muito grata a todas as pessoas que ajudam a realizar a obra, a comunidade que os abriga e aos amigos que me ajudam, ativamente ou virtualmente. Fico muito feliz cada vez que encontro uma foto do Giganto nas mídias sociais. Eles já são livres para apropriação, mas quero que os próximos possibilitem ainda mais interações e sejam ainda mais estimulantes. No Paraty em Foco deste ano senti muito isso, como era um festival de fotógrafos era ótimo ficar observando a reação ao painel, todos que passavam pela obra fotografavam, fiquei bem lisonjeada.

Acredito que encontrei uma maneira de estreitar laços entre arte, público e cotidiano.  Mas esse é só um exemplo, nas instalações isso é recorrente; a maioria depende do ambiente e da reação do espectador para realmente acontecer, não são obras passivas, são ativas, são vivas, dependem do que você vai fazer com elas.

Recomendo muito a exposição do Olafur Eliasson que está em cartaz em São Paulo, suas instalações são bem interativas e despertam sensações bem particulares. Tem obras dele na Pinacoteca, no Sesc Pompéia e no Sesc Belenzinho; neste último você ainda pode conhecer o Giganto e inventar seu próprio diálogo; está em frente ao Sesc, e foi feito para a exposição Geração 00.

Pra saber mais vale conferir o Flickr da Raquel, a página de Facebook e o Twitter do Projeto Giganto e  ver os vídeos (lindões) abaixo.

[vimeo http://www.vimeo.com/25737871 w=828&h=466]

3 comentários para Ponto Entrevista: Raquel Brust

  1. incrível!

  2. Ligia Giatti disse:

    chorei mangá com esse primeiro vídeo!
    Rachel, teu trabalho é gigante de lindo….

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