Design
25 de novembro de 2011 por Mário Guidoux

Espaço Público e Iniciativa Privada

Hoje em dia se discute muito sobre a degradação dos centros urbanos e como os investimentos imobiliários estão destruindo toda qualidade urbana das cidades.

Rockefeller Center

E se pararmos com a crítica para analisar iniciativas privadas que realmente qualificam a vida nas grandes cidades? É o que propõe o blog do Anthony Ling, um arquiteto porto alegrense radicado em São Paulo.

O post que mostrarei aqui trata exatamente de mostrar bons exemplos dessa prática.

Muito se fala que empresas privadas não têm incentivos de investir em espaços públicos, já que estes não trazem lucro para a empresa. É comum imaginar que a criação de espaços públicos é uma tarefa única do setor público, sendo impossível depender da sua provisão através da iniciativa privada.

O que não é percebido é que não é politicamente lucrativo a criação de espaços públicos de qualidade, já que um político em questão não estará defendendo nenhum grupo de interesse que lhe daria votos, mas sim criando um benefício disperso em toda a população da cidade, cuja maioria já não votaria nele de qualquer maneira ou nem fica sabendo das suas boas intenções. Mesmo sendo historicamente leniente com o espaço público (no Brasil isso se torna claro), as pessoas infelizmente ainda se voltam ao estado como provedor deste bem.

A realidade mostra que esta visão pode ser mudada, com vários projetos de espaços públicos de qualidade pelo mundo realizados com financiamento e iniciativa totalmente privada, mesmo existindo o pagamento de impostos e o dever público de oferecer estes espaços em praticamente todas as cidades onde estes projetos acontecem.

A lógica destes projetos é de que empresas não buscam apenas o lucro direto através da venda de seus produtos aos seus clientes, mas também investem em marketing: a ideia que os consumidores vão ter da empresa através da imagem social que ela passa, onde eles pagam indiretamente por ações que eles considerem moralmente ou socialmente corretas. No varejo também é comprovado de que a qualidade do ambiente influi na intenção de compra dos clientes, sendo cada vez mais valorizado por quem trabalha nesta área. Iniciativa privada também não significa apenas empresas que buscam o lucro: ONGs com objetivos sociais se sustentam de doações e patrocínios voluntários, e também são fortes contribuintes para a produção privada de espaços públicos de qualidade.

Uma crítica destes espaços é de que eles são controlados pelo incorporador, não sendo verdadeiramente públicos, ou “democráticos”. Meu contraponto é de que nenhum espaço é totalmente público ou democrático, sendo nos casos de projetos da iniciativa do estado controlados pelos representantes governamentais eleitos. Existem regras estabelecidas e o poder da polícia para controlar e regular manifestações – que são barradas quando se opõem à vontade do governo no poder, como exemplo da agressão policial durante a Marcha da Maconha deste ano em São Paulo.

Sendo assim, este blog produziu um ranking dos dez melhores projetos de espaços públicos criados através da iniciativa privada. Para ser justo com os céticos, foram escolhidos apenas projetos que estão inseridos no meio urbano, onde o preço dos terrenos é elevado. Três dos escolhidos ficam em Manhattan, uma das regiões com os terrenos mais caros do mundo, mas onde a densidade demográfica facilita a valorização deste tipo de empreendimento.

Mas um número maior de espaços públicos é realmente necessário?

Recentemente ouvi um arquiteto comentando que era óbvia a necessidade de mais espaços públicos em Porto Alegre, a cidade onde moro. Ele comentou que em dias bonitos em finais de semana não há mais área de gramado livre dada a grande quantidade de pessoas que utilizam estes espaços, justificando então a necessidade destes espaços. É de se perceber que este efeito também ocorre em maioria das grandes cidades.

O grande problema da questão é que espaços públicos estatais são oferecidos gratuitamente ao usuário e, como qualquer recurso que é oferecido gratuitamente haverá uma demanda artificialmente maior para a exploração deste, frequentemente gerando filas (representadas pelos gramados lotados). Este também é o efeito do trânsito (com engarrafamentos), do serviço público de saúde e até mesmo daquele bolo de aniversário de 18 fatias que você levou para dividir com as 50 pessoas do escritório.

Não pagamos nossos impostos que são destinados à esses projetos voluntariamente como pagamos pelos nossos demais serviços e mercadorias, tendo então uma postura muito diferente para julgar qual a melhor maneira de destinar estes recursos. Todos nós somos forçados a pagar impostos, e normalmente as pessoas apenas tentam fazer com que uma pequena parcela volte para o seu bolso, criando os grupos de interesse citados acima. Enfim, a ausência do preço impossibilita a noção verdadeira de oferta/demanda, como Hayek escreveu no seu célebre texto “The Use of Knowledge in Society”. Sendo assim, não há como sabermos com exatidão se espaços públicos oferecidos pelo estado estão mesmo faltando ou se as pessoas prefeririam que os recursos destinados a eles fossem para outras áreas de seu interesse. Caso espaços públicos fossem oferecidos privadamente, a população poderia contribuir voluntariamente com os provedores, sejam elas ONGs ou empresas, criando uma atmosfera mais realista de oferta/demanda.

 

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Um comentário para Espaço Público e Iniciativa Privada

  1. Aline Bueno disse:

    grande post! vou acompanhar o blog do Anthony :)

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