Comportamento Ponto e Vírgula Tecnologia
11 de janeiro de 2012 por marimessias

Unternet

O Dave Winer, da Wired, escreveu um textinho bem bonito sobre essa eterna guerra pelo controle travada entre algumas empresas e seus usuários.

Pareceria óbvio pensar que qualquer empresa em sã consciência buscaria criar um ambiente onde o usuário se sentisse confortável a ponto de interagir, desenvolver uma intimidade com seu produto. Mas a coisa está longe de ser tão simples.

As idéias de uma criação fixa e de um ambiente controlado, anteriores a internet e a maioria das coisas que conhecemos como partes fundamentais do nosso comportamento atual, ainda dominam grandes nomes de diversos segmentos. Parte do apelo está na noção de posse, mas em casos extremos como o da Apple, que controla fluxo de conteúdo de uma maneira quase medieval (proibindo, por exemplo, uma HQ inspirada em Ulisses do Joyce por ser amoral), a coisa também tem muita relação com identidade.

O que talvez falte para essas empresas é a noção de que nenhuma identidade, nem mesmo a minimamente planejada e constantemente reforçada em diversos segmentos de mídia, é imutável e alheia ao que temos de particular em nossas visões de mundo. E isso antecede a internet e a maioria das coisas que conhecemos como partes fundamentais do nosso comportamento atual.

E posso dar como um bom exemplo a teoria da Saskia Sassen que vi no PicNic do ano passado, de que as próprias cidades são hackers. Já que, como qualquer produto, um sistema urbano fechado se torna obsoleto muito rápido. E isso impediria os relacionamentos mais simbióticos, como o que temos com os lugares onde vivemos.

Para comprovar a sua idéia ela fala de como adaptamos nosso trânsito as nossas possibilidades, com bicicletas e, poderiamos acrescentar, como adaptamos nossas artes aos nossos meios através da street art ou como acabamos adaptando toda nossa vida para viver de maneira mais local e saudável.

Pro Dave, outra parte ruim desse tipo de comportamento é que ele serve como um exemplo para novas empresas, como Tumblr e Twitter (e Facebook), que tem tentado controlar a experiência de seus usuários e a maneira como seus produtos vão sendo assimilados pelas nossas vidas e o que acabam virando, partindo daí.

Mais ou menos como um sujeito que escreve um livro e quer controlar a maneira como os leitores se confrontarão com seus possíveis múltiplos significados, isso é uma guerra perdida. Como diz o Dave:

It’s the Internet vs the Un-Internet. And the Internet, it seems, always prevails.

Mas pra provar que nem tudo está perdido, muitas empresas já aceitam que pode existir um lado positivo na abertura de seus produtos (e formatos e conteúdos etc). Um belo exemplo é a hesitante Microsoft que, após inúmeros hacks maneiros para o Kinect, resolveu aceitar e aprender com o lado positivo disso tudo.

E quando o assunto é edupunk, uma postura muito legal é a da Korg, que lançou o micro-sintetizador Monotron com todos os circuitos nomeados, facilitando a recriação e alteração para os usuários menos experientes.

Outro exemplo de empresa que se alia ao consumidor, no lugar de lutar contra ele, é a Nike, com sua #makeitcount. A idéia da empresa é criar uma rede motivacional através de um conceito que parte do esporte e se estende por todas as esferas possíveis da vida.

Além disso, muitos governos locais ja se deram conta de que é contraditório lutar contra as demandas da população, e criaram projetos abertos onde as implementações são feitas por quem estiver interessado em participar, como o appsfornetherlands.nl e o appsformetrochicago.

Não que esse vínculo seja totalmente necessário, afinal, vivemos na época do Wikileaks, Anonymous, Occupys e afins. E, antes de criar um produto novo, muitos governos se beneficiariam mais se apenas abrissem os olhos para produtos indepentes que já existem (e são tantos, ein. citamos alguns na nossa retrospectiva).

Ainda vale lembrar a belíssima Knight-Mozilla News Technology Partnership,  sobre a qual já falamos aqui, que pretende buscar nos usuários mais criativos um futuro mais possível para o jornalismo.

Uff, tanta coisa legal. E pra vocês, qual o melhor exemplo desse tipo de comportamento?

2 comentários para Unternet

  1. Muito bom artigo!

    Reflexões comportamentais a respeito da internet e seus meios sociais são sempre bem-vindas.

    Rgrds.

    Breno.

    • marimessias disse:

      Que bom que gostou, Breno :D

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