Nada a Ver Tops
12 de junho de 2012 por marimessias

Carta a um jovem bailarino de 13 anos

These are private words addressed to you in public
T.S. Eliot

Enzo Frizzo Paulino Batlarejo, 13 anos, mora em São Paulo. Como qualquer garoto de sua idade, gosta de usar computador, entrar nas redes sociais e se dedica às atividades extracurriculares que sua condição de classe média lhe permite. No caso de Enzo, o balé clássico.

Quando seu tradicional colégio católico descobriu, a vida de Enzo virou um inferno. Foi chamado de “gay” e “viado”, surrado e até “proibido” de usar o banheiro masculino.

Sua mãe, que era professora na instituição, procurou a coordenação. Segundo ela, ouviu que ele deveria se acostumar, porque, afinal, dançava balé. “Eu me sentia a escória. E eu não sou gay”, disse o menino em entrevista a Felipe Oda, de “O Estado de S.Paulo”.

A história é idêntica ao que vivi no colégio carioca em que estudava enquanto dançava clássico. Fui personagem de matérias em “O Globo” e “Jornal do Brasil” nos anos 1990 por isso, mas jornal algum registrou o que minha vida escolar virou depois que meus colegas leram na imprensa que eu calçava sapatilhas.

Como eu, Enzo descobriu que o preconceito é um revólver disparado por um cego. A torpe aversão a gays faz as pessoas repudiarem até quem pratica algo que não identificam como sendo “viril”. Aos olhos do preconceituoso, nem a realidade interessa: mais interessante é o prazer em agredir o que ele quer longe de si.

Enfim, ser hétero não salvou Enzo de sofrer, como não salvou a mim. Ainda tive um professor de física que, ao me ver chorar na classe, disse-me: “Você acha que eles algum dia vão parar? Você quis fazer isso. Agora aguente.”

Ele e sua pedagogia medíocre pretendiam que eu desistisse. Só que ali entendi que o mundo pode ser hostil com quem quebra sua monotonia e até a Justiça que deveria defender os mais fracos se omite – no caso, a supervisão da escola. Nessas horas, é preciso perseverança para continuar. Lamentavelmente, respeito às vezes ainda se torna um esporte de contato.

São palavras confidenciais que envio a você em público, Enzo. Só deixei o balé quando percebi que não tinha talento: sem crise, sem traumas, satisfeito por ter aproveitado o que queria. Que você aproveite tudo, Enzo. E lembre-se: tudo o que as pessoas disserem falará mais delas e de seus problemas do que de você. Logo, não perca tempo ouvindo. Não vai importar.

Continuando com nossa semana LGBT, repostamos esse lindo texto do Márvio dos Anjos, originalmente daqui.

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>