Comportamento Ponto e Vírgula
05 de julho de 2012 por Desirée Marantes

Formas de Poder e o Resgate da “Classe C”

Lembram do meu post sobre o caderninho do Alê? Hoje ele nos presenteia novamente com um belíssimo artigo sobre o brilho da Classe C.

Então vamos lá, formas de poder e o resgate da classe C por Ale Oyamada.

Tudo o que é explícito é obviamente muito mais fácil de ser percebido do que o abstrato. A frase chega a soar estúpida de tão óbvia. No entanto, quando se trata de formas de manutenção do poder de grupos dominantes sobre grupos dominados, essa ideia tão óbvia é um alerta importante.

É muito fácil enxergar que existe um grupo dominante e outro dominado ao se deparar com um condomínio ou um empreendimento luxuosíssimo exatamente ao lado de uma favela, ao ver um mendigo pedindo esmola no farol em meio a SUVs e carros esportivos, e tantas outras centenas de exemplos a que já nos acostumamos. Os produtos materiais da desigualdade, por serem explícitos, demandam um mínimo ínfimo de consciência para serem percebidos. Mesmo quem foi privado dos meios mais fundamentais de desenvolvimento, como a alfabetização, consegue perceber com extrema clareza que há alguns que podem muito mais do que ele.

Se praticamente todos conseguem perceber a existência de dominantes e dominados no universo explícito, quando se trata do abstrato, é impressionante como se reduz estonteantemente a parcela daqueles que ainda conseguem enxergar. É justamente nas formas imateriais que a dominação ganha proporções assustadoras porque nem mesmo os dominantes percebem que estão exercendo formas de poder e assim as reproduzem continuamente.

Cultura é um elemento primordial de uma sociedade e é imaterial. Não é à toa que seja justamente a cultura uma das formas mais absolutas de manutenção de dominantes sobre dominados. Cultura é algo incrivelmente rico em diversidade, ela se manifesta das mais incontáveis formas, sempre em mutação espontânea e constante. É natural da cultura que ela seja diversa. Determinar quais elementos da cultura têm valor e quais não têm, isso é uma construção do homem, e mais importante, uma ferramenta de poder na medida em que deslegitima a voz de grupos sociais completos simplesmente por não compartilharem das formas apontadas como valorosas.

Se cultura é um território gigantesco, há dentro dele uma área bastante delimitada e restrita que contém a “cultura de valor”. Não é nenhuma coincidência que ela corresponda majoritariamente aos códigos culturais da chamada “classe A”. O discurso corrente que explica tal situação baseia-se numa idéia de evolução. A explicação é simples: a “classe A” frequenta melhores escolas, melhores ambientes, assim se desenvolve melhor, portanto, suas produções culturais são mais elevadas. Já a chamada “classe C” segue o caminho inverso, portanto, suas produções são de valor cultural inferior.

Não duvido que de fato exista evolução, mas duvido que essa correspondência de “cultura de valor” e cultura da “classe A” se explique exclusivamente por tal argumento. Há outra explicação que se mantém oculta: se a “cultura de valor” corresponde majoritariamente aos códigos culturais da “classe A” é porque foi exatamente esta quem determinou o que é ou não valor na cultura, já que a concentração de renda lhes deu desde o princípio o poder necessário para impor tais determinações.

Mais aguda que a distribuição desigual de renda é a distribuição desigual de reconhecimento. Auto-estima e renda certamente têm relação, mas não são necessariamente dependentes. Por pior que seja a condição financeira de uma pessoa, sua auto-estima consegue manter-se quando ela sente que sua voz é reconhecida, tem valor. Se retirar a renda de um grupo é tirar-lhe poder por diminuir suas possibilidades de ação no mundo, retirar o reconhecimento do que falam é a última etapa de uma dominação completa.

Quando alguém da “classe A” desconsidera as produções culturais da “classe C”, isso é muito mais do que uma simples constatação do que é mais ou menos evoluído, isso é um exercício de poder, é retirar da “classe C” a possibilidade de reconhecimento de sua cultura ao tratar o diferente como inferior, tosco, brega… A natureza simplesmente é, ela é verbo e substantivo só, não é brega nem cool, não é superior nem inferior, não é tosca nem elaborada, os adjetivos são construções do homem que dão poder a quem está na posição privilegiada de colocá-los nas coisas.

Participo de um projeto que a princípio dá aulas de redação para pessoas que não tiveram como escapar da defasada educação pública do país e desejam escrever melhor. No entanto, logo no primeiro encontro deixamos bem claro que a língua, como a cultura, é extremamente mutante e diversa, que jeito certo ou errado de falar são determinações arbitrárias decididas por quem detém o poder. Reforçamos então que escrever bem está muito menos ligado a escrever dentro da norma padrão, e muito mais ligado e pensar/sentir bem e expressar bem o pensamento/sentimento, e todas as modalidades da língua, não só a considerada culta, podem ser usadas para tanto. Seguir a norma padrão é simplesmente uma forma de furar a barreira da divisão de classes e conseguir se mimetizar pela língua no meio dos “classe A”.

Portanto, os encontros são espaços em que a voz de todos os participantes é reconhecida e todos são estimulados a produzir alguma forma de expressão pessoal. É realmente impressionante como a auto-estima deles é transformada pelo simples ajuste de que não precisam seguir as referências culturais da “classe A” porque o que realmente importa é produzir sua própria cultura.

Participando de pesquisas com “classe C”, acho sempre muito positivo constatar que ela parece caminhar para a construção de um universo próprio de aspiração cultural ao invés de idolatrar necessariamente os códigos culturais que a “classe A” valoriza. Não que seja assim de uma forma geral, mas parece existir esse movimento. O próprio sucesso de “Avenida Brasil” soa como uma manifestação dessa transformação. Se antes as novelas retratavam a vida dos ricos porque era a “classe A” quem detinham os elementos de aspiração popular, hoje são os códigos da “classe C” que parecem ter mais força.

Reconhecer todas as formas de manifestação cultural como legítimas pode contribuir, em última instância, para uma readequação das formas de poder entre dominantes e dominados, uma importante conquista num país marcado pela desigualdade social.

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15 comentários para Formas de Poder e o Resgate da “Classe C”

  1. João Paulo disse:

    Acho que o texto colaborou muito pra elucidar o debate, já que em função do momento que estamos vivendo nunca se falou tanto sobre transformação social, econômica e em consequência os novos códigos culturais.
    Mas tenho minhas dúvidas sobre o quanto isso será efetivo e pleno. A ascensão da classe C é um assunto que veio atrelado a uma série de coisas maiores, da identidade do nosso país, sendo assim é normal que esteja carregado de entusiasmo, exagero ou pré-conceitos. Até que ponto vai se abrir espaço pra cultura emergir como natureza? Será que essa discussão não á apenas temporária e fomentada pelo aumento de renda da “nova classe média”?

  2. Alexandre Oyamada disse:

    Oi, João! Bacana seu comentário. Fica aí a pergunta mesmo. Ainda que possa ser temporária em forma de exposição na mídia, ou quando a “nova classe média” não tiver mais tanto poder de compra, essa preocupação de não desconsiderar a priori a cultura que ficou fora da “cultura de valor” é eterna pra quem se preocupa com questões de caráter social e vem desde muito lá de atrás. Bacana, João.

  3. Alexandre Oyamada disse:

    *lá de trás…

  4. rony rodrigues disse:

    Acredito que a maior arma contra a cultura natural é a divisão da sociedade em classes. Dividir uma sociedade em distintos grupos de acordo com a seu poder econômico é a síntese de um mundo que não nos olha nos olhos e sim nos trocados que tiramos do bolso.

  5. Alexandre Oyamada disse:

    Bravo! [2]

  6. Mauro disse:

    Gostaria de ver o que de tão bom esse grupo de pessoas que não seguem a norma culta da lingua escreveu e produziu.. :) E também acho que essa vontade ver uma sociedade menos dividida entre os que possuem mais e os que possuem menos é algo que tem a ver também com os valores humanos. Na verdade, o ideal é ver uma sociedade em que as pessoas estejam mais bem resolvidas como um todo. Eu estou ok. Vc está ok. Quando as pessoas se olharem dessa forma , tudo fica mais tranquilo e de boa. Mas acho que na verdade vai levar somente mais alguns milênios ( e põe milênio nisso). Simplesmente porque o nosso lado animal é muito predominante. Carregamos exatamente como qualquer outro ser do reino animal aquela hierarquia e aquela coisa bem primitiva da sobrevivência. Quem pode mais leva mais. Exatamente como na selva ou qualquer outro habitat. Li outro dia uma pesquisa sobre o cérebro, seu uso e os vários compartimentos. É impressionante como aquela parcela mais antiga e mais rudimentar do cérebro, a primeira que se formou, a mais tosca mesmo, ainda é a que prevalece e mais determina nosso comportamento. Se não me engano, o nome desse sistema é complexo reptiliano. Pelo nome, já viu tudo , não é. Não é bacana saber isso. Mas isso é o que somos. :(

    • Acaz disse:

      Bravo Mauro! E que belo texto!

    • marimessias disse:

      Po, Mauro, o que mais existe são produções inacreditavelmente lindas de pessoas que não seguem a norma culta. Desde o modernismo tem muita gente, inclusive, mimetizando esse suposto erro em busca da beleza e fluidez. E tem também eu, tu, o Nelson Cavaquinho: http://pontoeletronico.me/2011/10/28/cinco-licoes-foda-que-aprendemos-com-o-nelson-cavaquinho/ (só pra citar três bons exemplos. hahahaha).
      Alias, tou lendo um livro chamado Theory of Love que fala bastante sobre essas e as outras partes do cérebro e os autores dizem o exato oposto disso. segundo eles, um cérebro que seja guiado pelos impulsos reptilianos (como é o caso em alguns acidentes com perda de massa, por exemplo) não é mais humano que um pedaço de carne qualquer, já que o que nos configura como humanos “não está presente nessa aglomeração arcaica de células”. é bem legal o livro, recomendo

      • Alexandre Oyamada disse:

        Ow, Mari, fiquei bem interessado nesse livro. Bacana! Li também um chamado “A Era da Empatia”, que segue bem esse caminho, de um biólogo tão importante quanto o Dawkins mostrando como a cooperação faz parte da natureza humana, já que o “gene egoísta” do Dwakins acabou sendo transformado em mais uma garantia científica de que nascemos pra competir e é isso mesmo. Não duvido que tenhamos isso, Mauro, essa propensão à competição, mas duvido que não haja nada do outro lado também, que não haja um espírito de colaboração que seja igualmente inato ao ser humano. Pensando nesse equilíbrio, acho que a mensagem do artigo é bem por aí: se em algumas situações o argumento da evolução pode ser válido (isso não é cultura de valor porque é obviamente menos “evoluído”), será que em outras ele não acaba funcionando mais como uma desculpa para justificar um julgamento que vem de uma questão de classes simplesmente? O exemplo da Mari acho muito bom pra mostrar esse contrapeso, e mesmo quando se entra em produções culturais ainda mais polêmicas, como o rap, há construções linguísticas e metáforas tão bem elaboradas quanto em produções culturais da “cultura de valor”. Bom, mas o mais legal é estarmos conversando sobre tudo isso. Bacana!

  7. Nana disse:

    Alexandre, que não sei se um dia estudou letras, tem muito mais noção de linguística e sociolinguística e como essas palavras feias se aplicam no mundo real do que qualquer professor que tive na faculdade. Grande post.

    • Alexandre Oyamada disse:

      Po, super obrigado, Nana! Só coloquei na real de uma forma mais organizada coisas que eu e muitas pessoas ao meu redor acreditamos. Legal que você então faz parte desse grande grupo!

  8. Renan Castro disse:

    Tenho um amigo no qual à algum tempo temos debatido bastante sobre esse assunto. Frequentemente ‘trocamos’ videoclipes, textos, música e materiais diversos e chegamos naquele ponto de até certa ótica encarar os Mc’s de funk propagarem algum tipo de cultura, embora que para muitos nao sejam encaradas como sendo. Foi ai que levando em conta todas a disparidade econômica existente, encontramos essa lacuna entre produções culturais adotadas como valorosas ( transformadas em convenção) e outras que possuem igual valor para quem às ‘consome’ mas que por existir uma considerada classe superior isto nao acaba sendo reconhecido. Esse post simplesmente sintetizou de forma elucidativa todos esses aspectos divagados por nós dois durante esses dias, porém com o privilégio de encarar o tema com mais organização e termos como “cultura de valor” e outros conceitos.

    Enfim acabamos percebendo que a cultura cada vez mais se aproxima de algo que é naturalmente assimilado pela sociedade, descartando a premissa de que ela precisa ser justificada como tal. De modo que esse caráter inerente a nós humanos permite que o caminho para aceitação de qualquer tipo de expressão cultural não necessite de um aval entre classes sociais. É como se ao longo da evolução a cultura fosse sempre algo de detenção dos indivíduos e denominado por nós mesmos, quando na verdade ela é quem deveria ser a dominante e consequentemente, nós os dominados – e não o contrário.

    Texto simplesmente fantástico e o envolvimento de mesmo nível nos comentários.
    Ja anotei os livros que foram citados.
    Como sempre vou clicando em todos os links, acabei parando em algo que acredito que foi o que o Mauro gostaria http://projetoredigir.com/2011/12/jornal-do-redigir-chega-a-3%C2%AA-edicao/

    • João Paulo disse:

      Legal, Renan.
      Acho que a síntese disso seria que pra ser culto, não é preciso ser erudito.

  9. Leticia disse:

    Muito legal esse texto, bem legal mesmo. Um bom exemplo de que o preconceito está enraizado na cabeça da galera são os comentários nesse vídeo: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=yQguPWP_ws4. O preconceito, que eu quis dizer, é sobre a aceitação dessas manifestações como “cultura”.

    Muitas são as opiniões de que manifestações culturais vindas de classes “dominadas” não devem ser consideradas como “cultura” e isso sim me dá vergonha alheia.

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