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05 de setembro de 2012 por marimessias

Ponto Entrevista: César Schirmer Dos Santos

Do minuto que acordamos ao minuto que vamos dormir, nossa maneira de existir influencia o mundo no qual vivemos. Ao menos é nisso que acreditam os ativistas, que escolhem racionalizar o que fazem, consomem e falam para tentar promover mudanças e impacto social.

A idéia que permeia isso tudo é a busca por liberdade (seja livre arbítrio, liberdade de crença, de consumo, de expressão, de associação, enfim). No final, liberdade (e limitações) parecem perpassar toda a nossa vida.

E quem melhor para falar sobre isso que um filósofo?

Seguindo com nossa Semana Ativista, entrevistamos o foda do César Schirmer dos Santos. O César é doutor em filosofia pela UFRGS, professor da UFSM e estuda o quanto da nossa individualidade dependente dos ambientes físicos e sociais.

Abaixo ele nos diz como todos nós podemos usar nossa liberdade (e nossas limitações) para viver conforme acreditamos.

O pensamento sobre como criar mais liberdade, o qual já é fruto de alguma inextinguível liberdade, precisa ser a base a partir da qual construímos a nós mesmos, de maneira cada vez mais sofisticada e criativa.

PE: Quais as grandes liberdades humanas?

CSS: Uma coisa interessante é que não há algo assim como uma lista pronta e fechada das liberdades humanas, por um bom motivo: o que nós somos depende de nós mesmos. Pra colocar a coisa de uma maneira mais bonita, nossa essência vem depois da nossa existência, isto é a gente se inventa. (A ideia é de Sartre, é claro.)

Sendo assim, não há uma lista de liberdades a serem contadas, mas há princípios muito importantes pra que a gente se invente da melhor maneira possível, isto é realizando o máximo das nossas capacidades já conhecidas, e descobrindo novas capacidades. (Esses princípios podem ser contados, mas eles não são liberdades. Eles são máquinas geradoras de liberdades.)

Em primeiro lugar, é fundamental que cada um tenha a oportunidade de desenvolver seus talentos e habilidades técnicos, isto é artísticos, esportivos ou mesmo industriais. Alguém que tem jeito pra alguma coisa mas não tem os meios de levá-los adiante está sendo privado de uma capacidade, e assim está privado da liberdade de fazer algo que faria de maneira especial, beneficiando a si e aos outros. Isto nos leva ao segundo princípio.

A vida em sociedade gera várias facilidades, como transporte, educação, alimentos. É preciso que aqueles que têm menos meios de se auto-aperfeiçoarem estejam no início da fila de distribuição dessas facilidades, e aqueles que têm mais meios fiquem para trás nesta distribuição, pois do contrário haveria injustiça, já que ter um talento não é ter um mérito, de modo que todos merecem, de maneira igual, a oportunidade de realizarem seus talentos.

Seguindo esses princípios, temos mais chances de possibilitar tanto a realização das próprias capacidades quanto a criação de novas possibilidades, e essas duas coisas levam a mais liberdade conquistada e aberta.

PE: Por qual motivo nos sentimos impelidos a sempre pensar e buscar liberdade?

CSS: Porque somos esses seres que não têm escolha, a não ser escolher seja o que for. Pra falar bonito outra vez, estamos condenados à liberdade. (Outra ideia de Sartre). O que leva os mais prudentes e esclarecidos de nós a buscar a melhor realização desse destino. Até onde vejo, o melhor caminho é batalhar para que cada um aceite sem medo o que é, e tente descobrir tudo o que pode criar, criando novos meios de criar, e – é claro – esclarecendo os outros quanto a esse belo destino e a essas incríveis possibilidades.

PE: Historicamente já existiu um momento da liberdade humana?

CSS: Eu imagino que já houveram inúmeros momentos de liberdade humana, a maior parte desses momentos tendo sido anônimos e desconhecidos. É claro que em parte também vivemos na servidão, isto é na tristeza e na ignorância. Mas cabe a nós a luta, momento a momento, por alegria e por esclarecimento. Assim, o importante não é se houve tais momentos, mas sim o que fazemos, aqui e agora, para que eles sejam mais frequentes e mais sofisticados (por serem o fruto de outros momentos anteriores de alegria e de entendimento).

Cabe a nós a luta, momento a momento, por alegria e por esclarecimento.

PE: A liberdade é uma coisa intrínsecamente boa ou pode ser danosa?

CSS: A liberdade é intrinsecamente boa. Somente o medo e a ignorância podem levar à opinião contrária.

PE: Qual a importância de se pensar sobre a liberdade?

CSS: Este pensamento é fundamental, pois não podemos nunca esquecer que somos o que escolhemos ser, de modo que uma pessoa é privada de algo muito precioso quanto nem mesmo vem a saber que uma possibilidade estava aberta. É preciso esclarecer os jovens que eles podem desfrutar a vida sexual com prazer, amor, carinho e respeito, sabendo que isso nada tem a ver com procriação. É preciso dizer aos pobres que eles têm o direito de ser os artesãos, artistas, atletas ou pensadores que têm os talentos para ser, pois estão sendo roubados de algo que lhes pertence (ou melhor, que por causa do roubo não lhes pertence…) quando nem mesmo lhes é dito que eles não estão condenados a partilhar a miséria com os explorados. O pensamento sobre como criar mais liberdade, o qual já é fruto de alguma inextinguível liberdade, precisa ser a base a partir da qual construímos a nós mesmos, de maneira cada vez mais sofisticada e criativa.

3 comentários para Ponto Entrevista: César Schirmer Dos Santos

  1. Ótima entrevista, parabéns!

  2. João Paulo disse:

    Daquelas entrevistas que deveriam ser postadas num Domingo.
    As pessoas precisam disso pra acreditar que mais uma semana ainda que cansativa pode ser inspiradora.

  3. Gustavo disse:

    é preciso lembrar que a humanidade supera a sociedade, e o Estado é sempre menor que o Humano. Primeiro vem o Homem, depois a sociedade, depois o Estado. Se essa ordem for alterada, temos uma prisão.

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