Educação
19 de outubro de 2012 por Carla Mayumi

Uma das magias da Green School

Eu e a professora Mona, da segunda série

Passei uma semana em uma escola chamada Green School que fica em Bali, na Indonesia. Vim até aqui em uma busca por novos modelos de educação, que depois de uma jornada por 12 escolas, em parceria com mais três amigos, vai virar um livro. A ideia deste livro nasceu de um sonho e tem um propósito claro nas nossas cabeças: inspirar quem está, como a gente, em busca de novas respostas – e talvez novas perguntas – sobre educação.

Depois de 5 dias na Green School entrevistando toda a comunidade que faz parte do ambiente escolar (o diretor, os coordenadores pedagógicos, pais, alunos e professores), posso dizer que esta não é apenas uma escola viva, mas uma experiência educacional em pleno movimento. Ela vem passando por mudanças desde que começou sua trajetória em 2008. Além de ensinar os alunos a aprender fazendo, também aprende ao se transformar. De uma forma geral, percebo que a escola, essa entidade viva que muda ao perceber o que poderia ser melhor, parece muito consciente de seus movimentos.

Quando perguntei ao diretor da escola, Andy, qual seu sonho para a Green School, me emocionei ao escutar um sonho que alguns poderiam até achar pouco ambicioso para a escola que recebeu o prêmio de “Greenest School in the World” (Escola Mais Verde do Mundo) e que atrai pessoas do mundo inteiro que se mudam para Bali só para ter seus filhos estudando aqui – quem pode pagar os U$ 1,000/mês que a escola cobra. O sonho não é conquistar o mundo, mudar o sistema educacional do planeta ou espalhar suas ideias pelos cinco continentes. Andrew me respondeu simplesmente “eu quero fazer com que isso aqui fique cada vez melhor e melhor” (better and better, disse-me ele).

A magia do espaço feito de bambu
A magia do bambu

É muito difícil definir a “fórmula” da Green School.  E aí está parte de sua beleza – indefinível, cheia de segredos que se relevam aos poucos, muito aos poucos, como as estruturas de bambu que a cercam. São tantas experiências, tantos espaços, tanto movimento que parece difícil entender como esse organismo funciona.

Uma das coisas que percebi nas conversas é que aqui existe uma convivência muito pacífica da estrutura com a liberdade. Alguns dos grandes pensadores/fazedores de educação que eu admiro, como o A. S. Neill e o Rudolf Steiner, baseiam muito de seus pensamentos e práticas nessa questão.

Bamboo Freedom ?
Estrutura com liberdade

Ouvi relatos de alunos falando que “os professores fazem o que quiserem” – esta é a percepção deles. Assim como professores falando que “os alunos escolhem as disciplinas que querem estudar”. As aulas na high school, nosso ensino médio, pela primeira vez esse anos são modulares. Ou seja, cada aluno escolhe de um leque enorme as 7 matérias que vai querer estudar pelas próximas 5 semanas. Uau! Uma liberdade controlada que dá a sensação, para o aluno, de que ele está construindo seu conhecimento. Os alunos falam maravilhados da experiência, e têm um professor que escolhem como seu mentor que possui a responsabilidade de orientá-lo para que faça as melhores escolhas dependendo do que ele quer aprender. Tão simples e ao mesmo tempo tão complexo: como saber o que você quer aprender se você não tiver uma ideia do que quer na vida?

Me deu um click quando aprendi que por trás dessa liberdade existem algumas garantias de que as coisas vão acontecer. A liberdade é absolutamente verdadeira, mas conta com algumas estruturas de pensamento e ferramentas de trabalho que oferecem segurança para que tudo não fique aberto ou democrático demais. Os professores se referem a essa combinação de forma positiva. A Mona, nossa professora em um artigo anterior  nos disse: “seria mais difícil se fosse completamente aberto, que alguém falasse: você pode fazer qualquer coisa que quiser.”

As palavras “livre” e “liberdade” foram faladas por quase todo mundo muitas e muitas vezes. O ambiente aberto faz com que alguns dos alunos e professores apontem para as paredes de bambu quando falam estas palavras. Pensando em tudo isso e lembrando do cenário da Green School penso que aí está parte da fórmula mágica. John Hardy, quando teve a visão da escola, encontrou aqui em Bali o material que dá o corpo para essa mentalidade: o bambu. Um material local, claro e iluminado, perfeito para criar a estética que traduz perfeitamente a ética da escola. Quando eu perguntava para as crianças menores do que elas mais gostavam, sendo muito menos racionais e mais intuitivas, me respondiam de pronto que o bambu e a atmosfera aberta eram a coisa mais legal da escola. Para mim, uma pessoa adulta e com as referências que vêm do mundo de concreto, urbano e corporativo, a sensação física que se tem estando na Green School é de que os buracos e passagens de luz e ar das estruturas de bambu criam espaço para a liberdade que se precisa sem que a estrutura aprisione.

Falando em estrutura, termino lembrando de uma frase que ganha cada vez mais sentido para mim, do Peter Senge, que diz: “structures of which we are unaware hold us prisoners.”  (tentando traduzir seria algo assim: “as estruturas que não percebemos nos aprisionam”)

Para quem nunca viu, vale uma olhadinha no vídeo do John Hardy onde ele relata a visão de seu sonho.

TED – John Hardy

O projeto do livro, sem fins lucrativos e com distribuição gratuita, está no Catarse.

E temos um blog que vai sendo alimentado enquanto nossa jornada acontece.

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