Comportamento
08 de novembro de 2012 por Desirée Marantes

A realidade esportiva que o jovem brasileiro quer para si

 

Por Alê Oyamada

Quando se fala em esportes, o Brasil é o país… Não tenho dúvidas de que as reticências você já deve ter completado instintivamente “…do futebol.” Melhor seria, no entanto, se ao invés de reticências, tivéssemos nos acostumado ao ponto final: quando se fala em esportes, o Brasil é o país. Não falo por mim, quem diz isso são os próprios jovens da sociedade brasileira. Há um descompasso profundo entre a realidade atual do esporte no Brasil e a realidade esportiva que os jovens querem viver. Se o futebol é a paixão nacional, então vivemos aquele delicado momento em que uma paixão se torna sufocante, ciumenta, tão possessiva que tudo o que queremos é nos libertar para finalmente viver a felicidade de nos reencontrar com os amigos que a paixão dominadora suprimiu. A supremacia absoluta do futebol no Brasil não condiz com o desejo latente e a busca constante dos jovens brasileiros por novos esportes além dele. Ser o país de um só esporte definitivamente não bate com a pluralidade esportiva a que os jovens aspiram. Só para citar alguns dados, 81% dos jovens brasileiros declara que gostaria de praticar algum novo esporte que nunca praticou e 83% diz concordar com a afirmação de que a mídia deveria abrir espaço para outros esportes além do futebol. Você deve se surpreender com a porcentagem de jovens que declara gostar de dança, vôlei, natação, academia, caminhada, ciclismo…
Apresentar com profundidade qualitativa e segurança estatística esse panorama e destrinchá-lo em detalhes é, ao meu ver, o principal presente que a Olympikus dá para o Brasil ao dividir com cada brasileiro a extensa pesquisa sobre o esporte no país que encomendou à BOX1824, disponível para baixar aqui.

Como membro da BOX e desse projeto em especial, tive a felicidade de participar de toda a pesquisa, viajar às mais diversas cidades, de Porto Alegre a Recife, conversando com todos os tipos de jovens que tinham uma profunda conexão com o esporte, fosse pela prática, de atletas profissionais a amadores, ou simplesmente pela paixão de vibrar com o esporte preferido, ou os preferidos. Depois de tantas entrevistas, tanto envolvimento com o tema, ficou muito claro para mim que o esporte traz tamanhas contribuições para a vida de uma pessoa que é quase uma injustiça dizer somente que esporte faz bem para a saúde, ele faz muito mais, ele é um pilar fundamental para a construção de uma vida mais plena – em diversos sentidos atribuídos à noção de plenitude. Não é toa que a inclinação ao esporte parece fazer parte da própria natureza humana. Um importante achado da pesquisa confirma essa hipótese: só não faz esporte quem ainda não encontrou o seu. É possível alguém não gostar de algumas ou várias modalidades, mas não gostar de esporte simplesmente, isso é quase anti-natural. Ocorre que alguns já encontraram seu esporte (depois de poucas ou muitas tentativas), mas outros ainda não. Portanto, é uma negligência pública restringir esporte a uma só modalidade, todos deveriam ter ao menos uma primeira experimentação da maior quantidade possível de esportes.
Felizmente, os jovens brasileiros não só desejam como buscam essa abertura. Se há uma palavra que ficou para mim ao concluir todas as entrevistas, essa palavra é democratização. Existe um evidente desejo de democratização do esporte, e ele é tão forte que se desdobra em diversos níveis, partindo da democratização de modalidades e chegando até mesmo à democratização das definições do que é ser um campeão, do que é de fato uma conquista.
Esse desejo, no entanto, esbarra de frente com as dificuldades de se praticar modalidades distintas num país em que todos os aspectos estruturais (mercado, mídia, política, valorização profissional, infra-estrutura…) estão voltados quase que exclusivamente ao futebol, restringindo incrivelmente o incentivo e o acesso a outras modalidades, principalmente entre as mulheres. Só para citar alguns exemplos, 54,5% das jovens brasileiras declara gostar de dança, mas só 11,7% diz praticar, 48,9% declara gostar de vôlei, mas só 5% diz praticar, 41,5% declara gostar de natação, mas só 2% diz praticar. Tendo em vista esse descompasso evidente entre o que os jovens brasileiros querem do cenário esportivo do país e o que é feito dele hoje, a pesquisa exerce um importante papel social ao dar força à primeira opção.

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Um comentário para A realidade esportiva que o jovem brasileiro quer para si

  1. Cleiton Führ disse:

    Conteúdo muito rico! Parabéns pela pesquisa! Certamente, se a mídia abrisse mais espaço para outros esportes, nosso Brasil seria diferente. Mas infelizmente a gana por $$ é maior. Em time que está ganhando não se meche, ou seja, porque ofertar outros esportes se o pessoal compra o futebol?

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