Arte
19 de dezembro de 2012 por Vinicius Perez

Quadrinhos em 2012

2012 foi um bom ano para quadrinhos. Foi um ano desgraçado que fez muito calor e isso só pode ter colaborado para o amargor desses nobres profissionais que ficam horas curvados desenhando. Num canastrão clima de retrospectiva, pedimos que alguns cartunistas que lemos em 2012 falassem dos seus favoritos do ano. A gente tinha muita gente massa pra falar que acabou não rolando e muita gente massa que merecia ser citada mas ficou de fora também. Acho que é um bom sinal.

Os favoritos do Arnaldo

Arnaldo Branco, que lançou seu segundo livro e emplacou a série Rock’n'Roll em 2012, falou sobre O Pintinho:

Eu podia falar também do Bruno Maron, outro favorito da casa, mas o Pintinho da Alexandra, além de ser igualmente genial, cabe mais no meu mantra Foda-se o desenho, a ideia é que importa. É verdade que nenhum dos dois são exatamente uma revelação de 2012, mas acredito que foi neste ano que a Alexandra fez mais gols, foi a Messi do quadrinho (ela não emoldura seus desenhos de paint em quadrinhos, mas você entendeu).

Deixa eu insistir no lance do desenho, que foi uma lição que a internet deu para os veículos impressos. O traço econômico dela (aquele olhinho de ponto, aquele chinelo de dois rabiscos) opera no subconsciente e você já sai rindo antes de ler, e na sequencia o texto (digitado, que maravilha) termina o serviço. Talvez seja meu trauma de velho, do tempo que um diretor de arte podia vetar sua contratação para a página de quadrinhos dos cadernos de cultura, mas mesmo assim: que bom que o sucesso online de gente graficamente prejudicada tenha aberto espaços na velha mídia.

Nem sei identificar minha situação favorita na tira, se as visitas à Clínica Gérson de Psicanálise ou a participação do abortinho, mas creio que o que mais gosto é que ela me faz rever minhas simpatias. Tenho essa outra mania de velho, a tendência a esquerda, e algumas das piadas em cima dessas novas certezas (veganismo, bike, grafite, ateísmo) me lembram que tudo pode ser democraticamente ridículo. Alexandra seleção.

Os favoritos do Coimbra

             

Já o Ricardo Coimbra, responsável pelas doses de realidade do Vida e Obra de Mim Mesmo, fez a justiça e escolheu o já citado Bruno Maron e sua dinâmica de bruto como um dos seus favoritos.

Venho acompanhando o Bruno Maron na internet há pelo menos 2 anos, portanto testemunhei uma parte do trajeto que trouxe o trabalho dele ao que é hoje. Temas áridos, anti-desenho e uma verborragia quase parnasiana. A combinação de elementos que mudou minha cabeça e me mostrou que o humor gráfico podia ser bem mais atrevido do que eu imaginava.

Além disso, Coimbra também citou o “Wilson”, do Daniel Clowes, que saiu aqui no Brasil em 2012 pela Quadrinhos da Companhia.

Eu já pagava muito pau pro Daniel Clowes por coisas como ‘Uma luva de veludo moldada em ferro’, ‘Ghostworld’ e ‘Mister Wonderful’. Quando achei que o cara não pudesse mais se superar, leio “Wilson”, que saiu esse ano por aqui. Basicamente a história de um solitário que anda por aí com seu cachorro abordando estranhos para falar de tudo o que ele acha ridículo na raça humana. Poderia parar por aí, mas a coisa vai além: Wilson tem uma história de vida tão ou mais patética que a das pessoas que ridiculariza. “Wilson”, como a maioria das boas histórias, é, ao mesmo tempo, cômica, triste e sombria.

Os favoritos do Maron

Citado em todos favoritos até agora, Bruno Maron, dono do Dinâmica de Bruto, também escolheu O Pintinho como um dos grandes de 2012.

Eu nunca vi um humor como o da Alexandra Moraes: ela consegue fazer uma mistura das referências mais xexelentas até a epítome da erudição barroca, entremeando com uma ironia que arrebentou de vez meu aparelho cognitivo. As novas relações de autoridade-obediência estão sendo trabalhadas ali com uma veracidade comovente. Coisa de gênio mesmo.

E do mesmo modo que o Coimbra escolheu Maron como seu favorito, Maron também citou Coimbra nos melhores do ano (mas eles não sabiam das sugestões um do outro e a rodinha da punheta não foi proposital).

 O trabalho do Ricardo Coimbra é uma válvula de escape pra suportar a bundamolização vigente na nossa sociedade. O texto leva o deboche às últimas consequências quando trata das próteses identitárias de qualidade duvidosa que ganharam voz nos últimos tempos. O pacote é fechado com desenhos de pessoas moralmente degradadas em 50 tons de cinza. É um dos meus mestres da atualidade. 

Os favoritos do Ryot

                                 

O Ricardo Tokumoto, dono do Ryotiras, conseguiu lançar seu livro através de financiamento coletivo em 2012 e foi um dos mais empolgados em suas sugestões: seu e-mail não se limitou aos quadrinhos e falou também de documentários e exposições.

Sempre gosto de destacar as publicações d’A BOLHA EDITORA. Acho que A CELEBRAÇÃO, do Rui Tenreiro, saiu ano passado… então deixo a dica de uma publicação mais recente: O BABACA de Gary Panter. Por incrível que pareça, foi a primeira vez que um trabalho do Gary Panter é publicado no Brasil. Pra quem não conhece, ele é um dos grandes quadrinistas do underground americano. Eu gosto muito dessa linha de trabalho, uma coisa bem punk e crua.

Eventos do ano: Quantacon, Gibicon, Multiverso Comicon, Pandacon e o debate com Sidney Gusman, Paulo Ramos e Eduardo Nasi sobre o mercado de quadrinhos no Brasil. Alguns programas de tv ligados ao tema e que merecem citação: MALDITOS CARTUNISTAS e TOSCO TV ambos exibidos pelo Canal Brasil. E enfim, foi um ano de muitos projetos de crowdfunding, pelo catarse, dando certo. Acho isso muito interessante para a cena de quadrinhos no país.

Os favoritos do Felipe

Felipe Portugal, menino prodígio e sex symbol da página Dadaísmo Em Quadrinhos, escolheu o “Monstros” da Beleléu como o livro de 2012. 

É uma alegoria de ilustrações de monstrengos que tem seu cotidiano e seus problemas interiores. São tipo a gente com chifres. O livro é um trabalho bem misto de vários ilustradores, dos mais simples até os mais elaborados, e tudo isso é acompanhado de uns textos do Stêvz. É uma dinamica interessante.

Os favoritos do Lucas

Já o Lucas Maciel, o parceiro no amor e no crime do Felipe no Dadaísmo em Quadrinhos, escolheu a relançamento do Garagem Hermética do Moebius (que faleceu em 2012) como favorito do ano.

Em 2012, uma das coisas mais legais que teve foi o relançamento da Garagem Hermética, do Moebius; pela Editora Nemo. Diferente da publicação da Editora Globo na década de 90, essa versão é toda em preto e branco, como foi publicada originalmente na revista Métal Hurlant, e em um único volume.

Ela foi escrita sem nenhum roteiro, Moebius tentava amarrar a história de onde ela havia parado de uma maneira espontânea, o resultado é quase uma bíblia dos quadrinhos, são muitas histórias, estilos de desenho e referências externas em uma só obra, o traço muda à cada página quase, as arquiteturas de cada lugar são diferentes umas das outras, a história se abre pra infinitas possibilidades certa hora depois toma um curso linear, então se abre de novo, sempre assim. – eu acho isso o máximo.

Pra vocês terem uma ideia, não tem muito bem como definir ou resumir uma obra onde um oficial de uma espaçonave é enfeitiçado, caminha em um intestino gigante, cai no velho oeste, e lá ouve alguém falar “Esponel ganak dit ow powoo?!!”

E qual o teu favorito de 2012?

3 comentários para Quadrinhos em 2012

  1. Josefino Magrini disse:

    Eu gosto muito de um blog underground e boca suja chamado Ofensivo por Natureza.

  2. Beatriz Lopes disse:

    Pinocchio, Winshluss.

  3. Pingback: A Alma em Quatro Quadrinhos | Senda de Sophia

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