Arte
21 de fevereiro de 2013 por Vinicius Perez

Quatro livros brasileiros que merecem mais atenção

Alguns se divertem jogando bexigas d’água do topo de prédios, outros sentem prazer ao esvaziar pneus de bicicletas alheias. Já eu, no caso, gosto de ler pessoas falando sobre coisas que elas gostam. É uma das técnicas mais preguiçosas de jornalismo? Sim, temo que sim. Mas cada um, cada um. Assim, saí por aí e pedi para quatro, vejam bem, profissionais da literatura citarem um livro brasileiro que eles admirem e achem que mereça mais atenção.

É uma proposta ingrata: ser escritor no Brasil não é fácil, já é um trabalho penoso convencer o leitor a se interessar pelo sua obra, e eu vou lá e peço pra eles indicarem o livro de outra pessoa. Mas, enfim, acho que são as pessoas certas para perguntar, não é?  Em um contexto onde todos adoram apontar defeitos a torto e direito com o dedinho em riste, acho agradável dar uma respirada e ler alguém sendo elogiado, pra variar.

“A Estrela Sobe”, de Marques Rebelo, é um romance relativamente curto (179 páginas na minha edição) de 1939, sobre uma mulher apenas levemente superior ao meio em que vive, Leniza, e seu sonho de conseguir uma carreira de cantora de rádio. De ruim digo que o ambiente é sufocante, que os personagens têm tamanha estreiteza de alma que várias vezes tive que parar a leitura para ir ler outra coisa qualquer. O que me manteve voltando à leitura é o estilo de Rebelo, preciso e cuidadoso, dos mais perfeitos que já vi na literatura brasileira. Além disso alguns ambientes do Rio na década de 30 só foram registrados ali – Rebelo é um bom observador. A verdade é que Marques Rebelo foi um dos poucos talentos reais de romancista que o Brasil já teve.

Alexandre Soares Silva é escritor e lança o romance “A Alma da Festa” e a coletânea de textos  ”A Humanidade é uma Gorda Dançando num Banquinho” em 2013.

“A Divina Paródia”, de Álvaro Cardoso Gomes. Picaresca pynchoniana medievorrenascentista excelente e divertida que às vezes sinto (muito) ter sido um dos únicos a ler.

Daniel Pellizzari é escritor e lança “Digam a Satã que o recado foi entendido“ em 2013 e publicou gratuitamente essa coletânea online no final de 2012.

Se existe algo como linguagem do corpo/escrever o corpo, Hilda Hilst talvez seja a única pessoa que tenha conseguido fazer isso. Seu texto impõe exigências em que nada se assemelham a outros autores que já li. Ela se arrista e leva o leitor a se arriscar, abre mão das salvagardas da teoria para nos deixar com substrato cru, indigesto da filosofia e do corpo. Sem medo. O que na literatura, hoje em dia, continua sendo raro.

A verdade é que nós deveriamos ler mais Hilda no Brasil, sinceramente não entendo essa contínua resistência ao risco, a ousadia, dentro do próprio país. Inclusive, nossa escolha de começar a publicar literatura na América do Norte com ela foi pela importância, não necessariamente como brasileira, mas como escritora, independente de nacionalidade.

Rachel Gontijo é co-fundadora d’A Bolha Editora e coordenou traduções de Hilda Hilst ao inglês.

Descobri a Carmen da Silva jogada no cantinho de um sebo em Cuiabá, lá por 2008. Carmen nasceu no Rio Grande do Sul e morou no Uruguay durante um bom tempo, retornando no começo dos anos 60. Ela ajudou a introduzir o feminismo no Brasil através de uma coluna na revista Cláudia (eu sei, eu SEI) chamada “A Arte de Ser Mulher”, nome que abominava. Mas o livro, né? Sangue Sem Dono, vários alteregos da autora, gaúcha estugada, texto forte, uma voz incrível. Seis reais em um sebo sem pechinchas. Primeira escritora por quem me apaixonei. Carmen era livre e sua escrita também. Livre como hoje ainda poucas conseguem ser. Editoras, por favor, republiquem a Carmen, ela deveria poder ser lida por todos.

Clara Averbuck é escritora e relançou três primeiros livros junto com o inédito “Cidade grande no escuro” no finzinho de 2012.

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