Comportamento Ponto e Vírgula
08 de março de 2013 por marimessias

Dia Internacional da Mulher

Se tem uma coisa que parece que já virou tradição no dia 8 de março nas minhas redes sociais, são comportamentos bizarros.

Pude traçar três grandes correntes: de um lado tem a galera que eu convencionei chamar “Amor de Chocolate”, que vê o Dia Internacional da Mulher como uma maneira de enaltecer a sensualidade e afins. Do outro tem aquela galera que eu convencionei chamar de “Até tenho um amigo gay”, que diz que esse dia é só mais um dia como qualquer outro.

E no meião é sempre possível notar mulheres se debatendo de constrangimento e/ou falta de paciência.

Parece imaginável que, como pessoas normais que somos, achemos melhor falar de conquistas e coisas boas do que de dados horríveis, como o de que mais de 88 mil casos de agressão contra a mulher foram relatados em 2012 (ou que as denúncias aumentaram 600%).

Por outro lado, assim como no Dia do Orgulho LGBT nosso papel não deve ser apenas comemorar conquistas (pessoais e universais), mas também cobrar mudanças. No dia 8 de março temos muito para pensar e desejar. Ou não?

Foi no meio desse turbilhão de dúvidas, afirmações e questionamentos que decidimos pedir para seis mulheres incríveis dizerem se acham que o dia 8 de março ainda faz sentido e, caso ainda faça, por qual motivo.

Bora aprender, então:

Para mim, o 8 de Março é não só o dia das mulheres, mas é um dia de luta das e para as mulheres. E quem são as mulheres? Certamente, não somos todas a mesma – branca, magra, cabelos longos e levemente cacheados, com luzes, filhos a tira colo, emprego bem sucedido, casa sempre limpa e lingerie sexy por baixo de uma roupa da moda – como tentam nos fazer crer as propagandas que homenageiam nosso dia.

Somos muitas, de muitos lugares, realidades, trajetórias, crenças. Somos pluralidade e diversidade. Mas todas temos uma marca, um carimbo imaginário e cultural que diz “mulher”, e que, ao invés de ser valorizado, foi e continua sendo motivo de exclusão, de violência, de assédio, de chacota, de submissão. E é no 8 de Março que devemos gritar mais alto o quanto toda essa discriminação é inadmissível. Especialmente em tempos tão sombrios, em que e os direitos humanos no Brasil estão ameaçados pela preponderância da religião sobre o Estado laico.

Maíra Kubík Mano é jornalista, doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp, professora do Bacharelado em Gênero e Diversidade da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e está terminando sua tese de Doutorado sobre os discursos das mulheres na política institucional.

 

O Dia 8 de Março é importante pelo simples motivo de que a mulher ainda é oprimida. O dia em que formos realmente iguais, poderemos transformar o dia em uma comemoração, mas, por enquanto, ainda é um dia para abrir os olhos da galera que prefere não saber, por exemplo, que sete de cada dez mulheres serão agredidas ao longo da vida – este é um dado da ONU – e que essas mulheres não estão longe. A violência acontece no seu prédio. Na sua rua. Pode ser que aconteça na sua família, com a sua sobrinha, sua vizinha, sua colega de trabalho, sua chefe, a chefe de sua chefe, uma juíza, enfim. Violência contra a mulher não escolhe classe social. E a violência acontece porque ainda vivemos sob uma ideologia patriarcal, onde a mulher está abaixo do homem. 2013, sabe, chega disso. Sim, conquistamos muitas coisas, mas ainda não chegamos nem perto de realmente reestruturar o funcionamento da sociedade para que seja igualitária e justa.

Clara Averbuck é escritora e acaba de lançar o livro Cidade Grande No Escuro.

 

Essa é uma data extremamente relevante não apenas para as mulheres mas também para toda a sociedade. É uma oportunidade para refletirmos sobre diversos acontecimentos históricos que, parafraseando a escritora Toni Morrison, precisam ser esquecidos (superados) para que se possa seguir adiante, mas também constantemente lembrados de forma a impedir a repetição e exigir a reparação das injustiças sofridas no passado. A luta por justiça é uma luta que depende diretamente desse trabalho de memória e que demanda reflexão, individual e coletiva.

Vivi Nickel é doutora em Letras, professora da UFSM e se dedica aos estudos de gênero há quase uma década.

 

As origens do 8 de março são um pouco confusas. A versão historicamente mais aceita é que, apesar de existir alguns anos antes, o Dia da Mulher se firmou na Rússia, durante uma greve de trabalhadoras. A tal greve, ocorrida no ano de 1917, teria sido o estopim da Revolução Socialista. E é por esse motivo que o Dia Internacional da Mulher é antes de tudo um dia de luta contra a opressão classicista e de gênero. Então, eu me pergunto: como uma data tão importante se tornou um dia para receber flores, elogios machistas, presentinhos, bombons e lingeries? Como podemos achar que o Dia Internacional da Mulher é um dia para presentear e não para refletir? A primeira resposta que tenho em mente é o termo “backlash”, usado em livro homônimo pela jornalista Susan Faludi. “Backlash” designa como se desenvolve a luta anti-feminista, que tenta torcer nossas visões para dentro e invisibilizar a luta feminista, como se ela não fosse mais necessária, não fosse importante.

E é o backlash que acontece quando ouvimos elogios tão seletivos. As mulheres que merecem ser elogiadas no Dia da Mulher são aquelas que se alinham ao status quo, que não o questionam. São mulheres que se alinham ao pensamento majoritário, são aquelas que aceitam a “jornada tripla” sem reclamar, que não se opõem à monogamia, maternidade, heterossexualidade e etc. As outras, que ousam se opor de alguma maneira ao sistema patriarcal que nos cerca, que não se dobram à ele, são sistematicamente excluídas. Nunca vi material publicitário de uma empresa sobre o dia internacional da mulher em que haja uma mulher trans, ou gorda, lésbica, ou talvez halterofilista, enfim, qualquer mulher que saia dos padrões convencionais. Para as mulheres que não se enquadram, nada de elogios, nada de rosas.

É preciso lembrar que a situação da mulher no mundo não é das melhores. Se a agenda dessa data começou com a luta de classes, hoje podemos estendê-la às mais diversas opressões que a mulher sofre no mundo: Trabalho mal remunerado, violência doméstica, grupos religiosos interferindo nas escolhas que ela faz sobre seu corpo, bullying virtual, assédio moral, assédio sexual, humilhações de diversas naturezas, exploração sexual, estupro, feminicídio e etc. E é exatamente em razão disso que o 8 de março é necessário: Porque não existe igualdade e ainda nos dão rosas em vez de respeito.

Gizelli Sousa é arquiteta e ativista do movimento feminista, ex-colaboradora do Ativismo de Sofá, hoje escreve no Maior digressão do mundo.

 

É uma boa oportunidade pra que a sociedade e, principalmente, as mulheres possam debater sobre essa imagem de feminilidade limitada e limitante que nos vendem, que retrata a realidade da mulher como decorativa e acessória. Quanto mais as diferentes mulheres apontarem o dedo pra essa relação entre a infantilização e a violência — um aparente ponto cego no debate político sobre o tema–, maior será o espaço que a discussão pode ganhar. Existe uma associação inegável entre alimentar a imagem das mulheres como “criaturinhas especiais” (diferentes dos homens, que representam a norma) e a manutenção de um clima de violência contra a mulher. Por isso, o melhor jeito de resgatar o dia da mulher para a contemporaneidade talvez seja fazer aquilo que as tecelãs brutalmente exterminadas em 8 de março estavam fazendo: reclamar seus direitos. É um dia pra pra botar a boca no trombone, para fazer ouvir o que as mulheres silenciadas têm a dizer. Nos outros 364 dias do ano, as reclamações femininas ficam, muitas vezes, relegadas a “bobagens”, “coisa de mulher”, “está naqueles dias”, “nunca está satisfeita” ou coisas do tipo. Mas o dia da mulher pode ser uma suspensão disso, um dia em que o manto se ergue e a sociedade ouve o que elas têm a dizer. Um dia por ano é pouco, sem dúvida, mas que data melhor para começar o debate, se o próprio dia da mulher acabou sendo diluído pelo calendário comercial a ponto de virar uma data antifeminista, em que a regra é o sexismo benevolente e cor-de-rosa (que só serve pra validar o outro sexismo, mais feio e misógino)?

Mariana Bandarra é tradutora e fundadora do Movimento Bambambam.

 

O dia 8 de Março nasceu como um dia de luta, em homenagem às manifestações femininas em busca de melhores condições de trabalho e de vida. Mas o nosso dia tem sido transformado em uma data comercial e seu significado deturpado pela mídia e pela publicidade brasileira. É celebrada com festividade uma suposta conquista feminina dos seus direitos; mas sabemos que o enorme número de assassinatos, estupros e violências cometidas contra a mulher todos os anos evidenciam o contrário.

Enquanto nós, mulheres, sofremos violência doméstica e morremos por femicídios nas mãos de nossos ex-parceiros – casos retratados como “crimes passionais” -, nos exibem propagandas de eletrodomésticos para “facilitar” as nossas vidas. Enquanto somos abusadas sexualmente no ônibus, estupradas em casa e transformadas em objeto sexual para vender carros e cervejas ou nas revistas masculinas, nos oferecerem cosméticos a preços promocionais para nos deixar “mais bonitas”. Enquanto trabalhamos uma jornada tripla, somos barradas de empregos com relevância social, sofremos abuso em ambiente de trabalho e recebemos menos para exercer a mesma função que os homens, nos presenteiam com flores.

Para a sociedade, a sexualidade da mulher não pertence a si mesma: ultrapassar os papéis de servitude traçados pelo machismo significa se submeter às mais diversas formas de violência. Não importa se somos chamadas de vadias ou espancadas até a morte, não podemos nos submeter à banalização de nossa causa. É por isso que precisamos retomar o significado original do dia 8 de Março e dar continuidade à nossa luta.

Jarid Arraes é estudante de Psicologia e feminista. Ela escreve e dá seminários a respeito de sexo, sexualidade, gênero e suas ramificações.

 

3 comentários para Dia Internacional da Mulher

  1. Pingback: 8 de março | Cem Homens

  2. tomzé disse:

    O espirito machista que tortura física e socialmente as mulheres de forma ininterrupta, é o mesmo que acha legal dar datas comemorativas a grupos ou situações que não são “homens heterossexuais brancos”.

  3. Pingback: Bruna Venâncio

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