Ponto e Vírgula
14 de março de 2013 por marimessias

Feliz dia da Poesia

No dia da poesia perguntamos para quatro jovens e talentosos poetas quais seus poemas brasileiros favoritos. Se deleitem:

BRUNA BEBER:

(Paulo Leminski)

a árvore é um poema
não está ali
para que valha a pena
está lá
ao vento porque trema
ao sol porque crema
à lua porque diadema
está apenas

Quando eu era meninote, uma página límpida, um pedaço de fralda, o Leminski foi o primeiro poeta que falou comigo. Tinha uma mangueira no quintal da minha casa praonde eu sempre ia. Subia até o topo e passava a tarde lá em cima vigiando as lagartas, me purificando, descobrindo a poesia de abrir meu coração para o verde. Aí, a primeira vez que eu li esse poema eu não fui mais a mesma pessoa, acho que virei uma árvore e me senti melhor assim. Tem uma música, que acho que é a minha música brasileira favorita, que faz uma dupla perfeita com esse poema. Talvez ela já tenha sido poema, mas pra mim ela é um hino: As árvores

(A Bruna nasceu em 1984 em Duque de Caxias e seu próximo livro sai em Maio pela Record)

VICTOR HERINGER:

Poema só para Jayme Ovalle (Manuel Bandeira)

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.

Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei.
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

Manuel Bandeira pediu perdão por ser poeta menor em seu “Testamento”. O poeta menor é aquele que não guerreia alto, que não faz versos federais. É o poeta sem castelo, o nômade que afirma o templo que é o si próprio, o cantor de pequenezes tremendas. O poeta menor é atento à superfície e ao fundo, raramente interpreta o mapa-múndi ou as cartas celestes. É capaz de chegar às estrelas, mas só num golpe de banalidade, como uma cama elástica no lugar errado ou um foguete tomado por engano.

O mito do poeta menor é importantíssimo para nós, gente sem deus, sem pátria e perdida no cosmo. Gente pequena no melhor dos sentidos. Hoje, o poema menor talvez seja o único possível. Se assim for, é no “Poema só para Jayme Ovalle” que encontramos sua forma mais luminosa. Por muito tempo, Bandeira não soube o que faria com ele. Quase o destruiu. Não sabia se “prestava”, se era um poema de verdade. Curiosamente, é esse poema, duvidoso para o próprio poeta, aquele que mais nos tem a dizer hoje. Quase impuro, quase um não-poema, o “Poema só…” é um dos poucos que tem a humildade de atravessar as décadas.

(o Victor nasceu em 1988 no RJ e lançou o livro Automatógrafo em 2011 pela Editora 7 Letras. Seu outro poema favorito,  Testamento, pode ser lido inteiro no link)

ANA GUADALUPE: 

Emílio ou da Educação (Waly Salomão)

Garoto
Você é meu
Garoto
Você mora no meu coração
Garoto
Quando tiver condições
Quero morar com você
Garoto.

Esse é um dos meus poemas preferidos em língua portuguesa por vários motivos: fica bem em voz alta ou em silêncio, você lê uma vez e talvez já decore tudo, são versos que podem ser muito divertidos e também muito sérios (depende da leitura), a repetição de “garoto” faz com que a palavra “garoto” pareça outra coisa, é uma boa declaração de amor/amizade um pouco assustadora, atinge todas as idades e crenças, prova que um poema de apenas 8 versos tem condições de ser maravilhoso.

(A Ana nasceu em 1985 em Londrina e lançou seu livro Relógio de Pulso em 2011 pela Editora 7 Letras)

ALICE SANT’ANNA:

(Ana Cristina Cesar)

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas

Difícil escolher o poema brasileiro preferido. Difícil até dizer se esse é meu preferido da Ana Cristina Cesar. Mas foi o primeiro que li dela, e o que desencadeou a vontade de escrever poesia. É um poema torto, curto, com um apelo visual poderoso. Tanto no sentido quanto na forma, ele míngua até virar um filete.

(A Alice nasceu em 1988 no RJ e lançou seu livro Dobradura também pela Editora 7 Letras)

Um comentário para Feliz dia da Poesia

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