Comportamento Tecnologia
18 de março de 2013 por Carla Mayumi

Imprevisibilidade é bom e eu gosto

Flickr de Luca Pedrotti

Conheci uma pessoa ontem. Hoje, ela sabe como são meus amigos, todos os lugares que visitei nos últimos anos, onde e quanto corro durante a semana e nos finais de semana. Sabe onde passei meus últimos anos novos, meus Natais, minhas férias. Sabe que tipo de roupa eu uso em cada ocasião e quais todos meus assuntos preferidos. Sabe o tipo de frase e o tipo de foto que me chama a atenção.

Ainda bem que essa história é parcialmente fictícia. Não conheci alguém ontem. Mas muitas pessoas que conheço muito pouco ou quase nada sabem tudo isso, mesmo.

Recentemente passei a refletir sobre o que significa estar tão presente nas redes sociais. Isso aconteceu porque conheci uma pessoa interessante que não era minha amiga no Facebook nem no Instagram. Fiquei curiosa. Como a pessoa é? Do que gosta? Que tipo de fotos ela posta? No que dá likes? E no meio desse processo de ficar curiosa veio junto uma sensação de como era bom não saber tudo isso sobre a pessoa assim quase num segundo. E nessa linha de pensamento, continuo a reflexão: será que é legal esse novo tempo das coisas, onde instantaneamente a gente já sabe tanto?

Não era legal conhecer uma pessoa nova e ir lhe descobrindo devagarinho, aos poucos? Bater um papo num almoço, ou em vários almoços, jantares e tudo ir sendo revelado como boas surpresas e com muitas conversas? “Nossa, gostamos do mesmo filme, que legal!”. Observar uma estante, quando se visita uma casa pela primeira vez, e passear os dedos pelos livros que a pessoa tem. Ter revelações sobre detalhes do seu jeito de ser, contínua e gradualmente?

Ainda nos anos 2000, uma das belas formas de se descobrir alguém novo era começar a ter acesso aos seus álbuns de foto. Fotos de família, de amigos, de férias. Hoje, os álbuns estão ali, o tempo todo, sendo alimentados dia-a-dia relatando o que a gente fez, com quem esteve, onde e contando inclusive nossos pensamentos.

Já me vi numa conversa com um amigo novo e falei “já fui para o lugar X” e a pessoa, sem pensar, respondeu “sim, eu vi uma foto”. Fui bisbilhotar meus próprios álbuns e fotos e cheguei à conclusão de que para chegar naquela foto, que era bem antiga, a pessoa tinha passado praticamente por todas as fotos que eu tinha postado nos últimos anos. Bem, e estou longe de dizer que nunca fiz isso. Certamente já fui “stalker” várias vezes.

Quem me conhece sabe muito bem que adoro tecnologia. Sou daquelas pessoas que pergunta “qual seu modelo de telefone?”. Baixo aplicativos compulsivamente. Compro tanto online que tenho até um blog sobre isso. Viajo para participar de eventos sobre tecnologia. De forma alguma esse texto quer ser contra essa maravilha – a tecnologia – que nos transforma tanto. A transparência tem seu lado bom. Só questiono o quanto não estamos nos deixando levar sem limites por essas ferramentas.

Fui um pouco além da reflexão e comecei a mudar alguns comportamentos. Meu primeiro movimento foi não adicionar a tal pessoa interessante em nenhuma rede. Não sei quem são seus amigos, onde estudou, que lugares do mundo conhece. E estou gostando dessa sensação de não saber.

O segundo movimento foi “desfazer amizades” com pessoas que eu não conheço pessoalmente. Ficava olhando alguns nomes e me perguntando “quem é essa pessoa mesmo? e onde eu estava com a cabeça quando adicionei alguém com quem não tenho nenhum amigo em comum?”. Minha quantidade de “amigos” foi reduzida em mais de cem. Ufa. Nada contra, devem ser pessoas maravilhosas, mas elas não precisam me conhecer tanto assim.

Também desinstalei o app do facebook do meu smart phone. Sem pensar muito. Dois toques, foi-se. Tem sido um alívio acordar de manhã sem ter que resistir ao impulso de, sem levantar da cama, começar a ver o feed de notícias.

Outro dia me peguei pensando em ex-namorados ou amigos antigos, daqueles que não se sabe sobre ou vê há muitos e muitos anos. Imaginei estas pessoas – agora quase estranhos novamente – entrando na minha casa hoje, olhando minhas estantes, abrindo meu guarda-roupa, vendo como mudei meus gostos, meus objetos, a decoração da minha casa.

Aos poucos é isso que vai acontecendo, sem nos darmos conta. O que nos levou a isso, do ponto de vista psicológico, sinceramente, ainda não estudei sobre. Imagino que seja algo relacionado a um desejo de se mostrar, algo remotamente da mesma família do exibicionismo de alguém que participa do BBB. Termino postando esse vídeo, que já rodou bastante por aí, sobre a internet e segurança de informações. Me divido entre achar o vídeo um pouco sensacionalista (tipo teoria da conspiração) e ao mesmo tempo recear que possam existir intenções não tão nobres para quem está ali nos observando o tempo todo.

4 comentários para Imprevisibilidade é bom e eu gosto

  1. sean disse:

    Oi Camila.

    Conhecer alguém devagarinho pode ser gostoso, mas tem hora pra isso.

    No resto do tempo, ter esse acesso rápido é uma evolução, acho que você está sendo saudosista.

    O problema é que você pinta que ‘conhecer devagarinho’ como MELHOR que conhecer ráipdo.

    Não é. (#imo)

    Ver o álbum da pessoa é fazer a mesma coisa, invadir as informações dela e conhecê-la sem conhecê-la.

    Só é mais romântico. Você era fotologer, né? rs (eu tbm!)

    Mas me parece hipócrita dizer que fuçar nas fotos e comentários é legal, mas ir nos likes dela é rápido demais.

    Não incluir pessoas que você não conheceu de conversar bastante parece uma boa idéia.

    ‘Desincluir’ me parece melhor ainda: não pra não dar acesso, mas pq caralho, a pessoa NÃO É sua amiga!

    A solução não é desinstalar o App feed, é aprender a usá-lo. Isso é fugir do problema de maneira preguiçosa, vc vai resintalá-lo em breve e o vício volta.

    Em vez de desinstalar esse, instalar o App do TED, da BBC, Wikipedia… e aprender a dividir a atenção.

    Isso parece solução, não fuga.

    Por que o acesso às suas coisas te incomoda tanto? vc não tem nada a esconder e, se tiver, devia mudar isso.

    Tudo parpite meu, joga fora ou pega o que servir.

    Bjo-ôtro!

    Sean

  2. sean disse:

    Carla, perdoa, tava falando com uma Camila e ficou o nome na cabeça.

    #mawaê!

  3. Leticia disse:

    Eu concordo, sinto falta de conhecer as pessoas aos poucos. De me surpreender em conversas em vez de ler a ficha toda, interesses, antigos relacionamentos num stalk de 15 minutos da internet.

  4. Julhana Mendes disse:

    Boas considerações, Carla! Quando passa a ser rotina, a gente reflete mesmo. Uma das coisas que tenho pensado, que seu texto parece reafirmar, é mais ou menos o seguinte: a lista de pessoas que temos na rede social não se chama “lista de pessoas da minha vida”, e sim Amigos. Porque, entre eu e meus amigos, faz todo o sentido compartilhar coisas bacanas do dia-a-dia com quem não podemos estar com a frequência que gostaríamos. E compartilhar coisas bacanas inclusive com o intuito de status pessoal – afinal, aquela caixa de mensagens no topo do perfil não indica “atualizar a-vida-como-ela-é” e sim Atualizar status. Rede sociais, assim desse jeito que é hoje, não faz muito sentido com a família, ou com o namorado. Pelo menos pra mim. Ou mesmo com o cara interessante que vc quer conhecer (gostei desse seu exemplo, já passou pela minha cabeça o mesmo pensamento). Acho que, com reflexão e bom senso, a gente não fica refém e nem à margem de nada.

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