Comportamento Moda
20 de março de 2013 por Eduardo Biz

A registrabilidade no São Paulo Fashion Week

Ontem começou o São Paulo Fashion Week. Entre as inúmeras – e cada vez mais indetectáveis – tendências das passarelas, há um movimento comportamental altamente expressivo e democrático, que está na moda há alguns anos: a registrabilidade.

Registrabilidade é a necessidade de capturar e compartilhar todas as experiências que se vive em fotos, vídeos, áudio, dados e posts. Trackear tudo, o tempo todo, gera um poder controlador nas pessoas, uma garantia de que o momento – ou, neste caso, o look – foi eternizado.

Nas salas de desfiles, o batalhão de fotógrafos que fica na ponta da passarela parece não ser suficiente para garantir a todos que os looks serão, sim, devidamente fotografados. Convidados da fila A à E se armam com seus smartphones e iPads, que funcionam como um terceiro olho; uma extensão da memória.

Esse movimento reflete como as pessoas estão mais complexas e plurais, uma vez que passam a interagir (e viver!) em diferentes planos e interfaces simultaneamente. Assistir ao desfile ao mesmo tempo em que se conversa com uma amiga pelo chat do Facebook e checa o feed do instagram é como viver realidades diferentes, múltiplos “agoras”, ou um gosto de onipresença.

Para os próximos anos, enxergamos dois grandes desdobramentos para a Registrabilidade como movimento. Em primeiro lugar, esse comportamento será intensificado graças às novas tecnologias, mais rápidas em lidar com a imensidão de conteúdo gerado por cada indivíduo. Um exemplo quase assustador é Eyeborg, o olho-câmera do documentarista canadense Rob Spence que registra tudo que é vivido. Ou mesmo o Google Glass, que a estilista Diane von Furstenberg desfilou na semana de moda de Nova Iorque no ano passado.

O curta futurístico “Sight”, dos estudantes Eran May-raz e Daniel Lazo, vislumbra o ápice de onde podemos chegar neste futuro não tão distante:

Por outro lado, é importante lembrar que todo movimento possui sua contra-corrente. A massificação de ferramentas e contextos que valorizem a impermanência sugere uma revalorização do presente, e reafirma sua capacidade de se desintegrar. São situações que enaltecem o não-registro, a contemplação, o digital-detox e o monotasking, inclusive como nova expressão de luxo.

A loja de departamento Selfridges, em Londres, construiu uma Silence Room em seu último andar. Antes de entrar, além de tirar os sapatos, o visitante precisa abandonar todos os seus gadgets. “É uma chance de abaixar o volume de Londres… É um experimento para ver como as pessoas reagem quando são forçadas a ficar em silêncio, sem nenhum eletrônico por perto”, conta Annette Cremin, spokeswoman da loja.

Em Nova York, o restaurante Momofuku Ko proibiu que os pratos sejam fotografados, o que acabou gerando uma discussão sobre os novos tabus da etiqueta moderna.

Na moda, quem vetou os flashes foi  Tom Ford, em 2010. Quando voltou ao prêt-à-porter após um intervalo de 6 anos, o estilista realizou um desfile para 100 convidados bastante exclusivos, que tiveram de deixar seus celulares e câmeras na entrada do evento. O único fotógrafo presente foi Terry Richardson, que transformou o desfile em um livro posteriormente. “Quero que a moda se torne divertida de novo, como era nos anos 60, e as pessoas não viam a hora de ter as roupas e vesti-las. Acho que perdemos isso”, comentou Ford.

O desafio para os próximos anos, tanto para a Moda quanto para o mercado em geral, é saber lidar com a Registrabilidade e com a Impermanência, e fazer bom uso de seus desdobramentos. São comportamentos que possibilitam (e exigem!) novas formas de apresentação de coleções, comercialização e divulgação.

A cobertura do SPFW está sendo feita por Eduardo Biz, Nina e André. 

Um comentário para A registrabilidade no São Paulo Fashion Week

  1. Scheila disse:

    Muito bem observado. Essa contra-corrente da registrabilidade vem numa crescente. Há tempos que venho percebendo uma certa inversão ao frenético mundo da comunicabilidade.

    http://hiperhype.wordpress.com/2013/01/09/no-noise-no-logo/

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