Moda
05 de abril de 2013 por andre

MODA E CROWDFUNDING

Moda é uma indústria em crise. Além das polêmicas em torno da mão de obra ou das criações dos estilistas, muito se fala sobre um grande sentimento de esgotamento dos profissionais gerado, entre outros motivos, pela dinâmica acelerada que o fast fashion instituiu. Há algum tempo falamos aqui no Ponto Eletrônico sobre a Hipersazonalidade, movimento que intensifica ainda mais esse ritmo, aceleração essa que afeta em especial criadores que sentem sua arte massacrada por prazos e cifrões. Por um lado, alguns especialistas apontam o fim do fast-fashion, mas por outro prefiro refletir sobre as transformações que a cultura digital ainda pode trazer para a moda.

Na última década a dinâmica do universo fashion foi virada de cabeça para baixo à medida que a crítica, a opinião e o conhecimento foram descentralizados pela lógica de rede. Ainda que as “blogueiras de moda” sejam odiadas por muitos, é inegável sua representatividade de empoderamento das pessoas e novas possibilidades de curadoria. Não se tratou de uma escolha entre críticos e amadores, mas sim na ampliação do debate e certa democratização do tema.

No entanto, se a lógica de rede transformou o conhecimento sobre o assunto moda, a cadeia de criação e produção ainda parece muito tímida ao aproveitar-se desse poder das massas. Novos modelos como o crowdfunding subverteram indústrias poderosas como cinema, games e música. Vale assistir ao TED Talk da Amanda Palmer, cantora norte-americana com um dos projetos mais bem-sucedidos da história do Kickstarter. Amanda conta que perdeu o contrato com sua gravadora porque vendeu “apenas” 25 mil cópias de seu CD. Em contrapartida, exatamente esse número de apoiadores permitiu que ela arrecadasse mais de 1 milhão de dólares para a criação de seu novo trabalho.

Amanda Palmer tem razão ao afirmar que perguntar é uma arte. E precisamos lembrar que também pode ser uma grande oportunidade de novos negócios, uma ótima notícia para um setor que enfrenta tantas crises. Se pararmos pra pensar no uso do crowdfunding na moda, é a mesma lógica que já existe na engrenagem das relação com os varejistas: o estilista faz um show room onde recolhe os pedidos de seus revendedores, e só então as peças são confeccionadas. A diferença é que com a lógica de rede esse poder de influência passa para a mão do consumidor final. Ao incorporar a lógica do crowfunding o próprio consumidor tem o poder de decidir o que vai ser “tendência”.

Além disso, estilistas também podem se dedicar a projetos paralelos e até mais conceituais, direcionados a um público de menor escala e que esteja disposto a consumir propostas mais ousadas. Modelo que tem pouco espaço em grandes conglomerados hoje. Sem falar na possibilidade de tornar a produção mais sustentável e transparente, uma vez que as marcas vão parar de produzir toneladas de roupas que podem encalhar nos estoques e até se dedicar à cadeias produtivas mais justas e éticas. Transparência é um movimento que tem cercado o mundo fashion nos últimos anos, como a Honest By, marca belga que propõe uma cadeia de produção 100% transparente mostrando todos os custos envolvidos nos materiais e mão-de-obra no preço final de cada peça.

Para encerrar essa provocação, tenho muito orgulho e admiração em compartilhar o projeto do Eduardo Biz e a sua marca Alguns Tormentos. O Edu postou seu projeto no Catarse para que a próxima coleção seja vendida antes que seja produzida, ou crowdfunded para os mais íntimos. Grande iniciativa e uma nova voz para uma indústria que clama por ressignificação.

Alguns Tormentos – Catarse from Alguns Tormentos on Vimeo.

 

5 comentários para MODA E CROWDFUNDING

  1. Nina disse:

    PRIMEIRA! \o/

  2. Amei e concordo!

  3. Cecilia Graca Aranha disse:

    Muito bom, acredito que seja uma forma de se criar um novo formato, principalmente para novos estilistas, de poder mostrar e ganhar apoio para seu trabalho!!

  4. marcio alek disse:

    Olá, gostaria apenas de fazer uma correção. A marca Honest by. não é londrina. Ela pertence ao Bruno Pieters que é belga.

    • marimessias disse:

      Obrigada, Márcio!

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