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16 de abril de 2013 por andre

Habitat Espacial: por que o planeta não é mais o bastante?

Exploração espacial é um tema que habita nossos imaginários há muito tempo, de Julio Verne à Star Trek e 2001: Uma Odisseia no Espaço, obras que, além das viagens ao espaço, refletem temas fundantes da cultura ocidental: a nossa relação com o tempo, a solidão da condição de espécie inteligente, a expectativa de transcendência e imortalidade até temas contemporâneos como o esgotamento dos recursos e a obsessão pela tecnologia.

The Afronauts, série fotográfica da jornalista Cristina De Middel sobre um projeto de esacalada espacial da Zambia criado pelo professor Edward Makuka Nkoloso em 1964.

O projeto era uma tentativa de levar o primeiro africano à Lua e diminuir o gap tecnológico-científico do país em relação ao restante do mundo.

Se a corrida espacial foi potencializada em 1969 quando Neil Armstrong pisou na lua, o fim da guerra fria e sucessivas tentativas frustradas diminuíram o interesse por esse tema. Em outubro de 2012 publicamos a capa da MIT Technology Review que nos perguntava por qual motivo deixamos de investir na exploração do espaço infinito ou mesmo em  grandes problemas como a cura do câncer ou a massificação de energias renováveis, para trabalhar em criações que contribuem tão pouco para a humanidade. Como o cientista Jeff Hammerbacher bem colocou: “as melhores mentes da minha geração estão pensando em como fazer as pessoas clicarem em propaganda”.

 Buzz Aldrin’s footprint in the moon’s gray, powdery surface.
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No entanto, nos últimos anos a escalada espacial voltou a fazer parte o espírito do nosso tempo. Em 2012 o Kickstarter possibilitou o Edge and Back, projeto dos alunos da 6a série de uma escola de Kentucky nos EUA que enviaram uma câmera ao espaço; a Redbull promoveu a primeira queda livre da estratosfera até o solo; a NASA ultrapassou 3.5 milhões de seguidores no twitter; e Elon Musk, milionário sul-africano fundador do Pay-Pal, anunciou a SpaceX, empresa que presente mandar famílias para passear no espaço em 2025.

O Cinema é sempre um reflexo do inconsciente coletivo, vide a quantidade de filmes que têm explorado o assunto, de Avatar à Prometheus. Importante ressaltar que os filmes de ficção não têm retratado a escalada espacial como um sonho, mas como um destino inevitável e a poucas décadas de distância. Vale lembrar que o TED Talk ficcional de Peter Wayland, dono da maligna corporação de Prometheus que leva a raça humana a investigar suas origens através do espaço, acontece em 2023.

A Moda também é um campo em que é possível enxergar inúmeras referências desse movimento. Um bom exemplo é o Haute Joaillerie,  curta belíssimo criado pelo diretor Jérémie Rozan para Louis Vuitton em 2012 que nos leva a uma incrível jornada pelo planeta vermelho:

A grande mudança que estamos vivendo é que no lugar de exploração espacial, passamos a tratar o tema como expansão espacial. Ou seja, ao invés de descobrir vida em outros planetas, fala-se em habitação interplanetária. Além disso, se os programas governamentais financiaram a exploração do universo no passado, hoje a habitação espacial também passou a ser promovida por iniciativas privadas que falam em turismo e até colônias espaciais. Por um lado a NASA anunciou o Transiting Exoplanet Survey Satellite (TESS), projeto que será lançado em 2017 para buscar novos planetas, enviará astronautas a Marte em 2030; além de produzir o “We are the Explorers”, vídeo que será passado nos cinemas antes do novo filme da saga Star Trek sobre as novas empreitadas da organização:

Por outro lado a iniciativa privada Mars One tem a ambição de estabelecer uma colônia humana em Marte em 2023 [sim, você realmente leu 2023]. Criado pelo empresário holandês Bas Lansdorp, o projeto conta com o apoio e financiamento de cientistas, engenheiros e companhias aéreas de diversos países, além de um curioso time de embaixadores, do físico vencedor do prêmio Nobel Prof. Dr. Gerard ‘t Hooft a Paul Römer, criador da série de reality shows Big Brother. A participação de Paul Römer não é pura coincidência, uma vez que o planejamento, seleção dos astronautas até o pouso e construção da colônia no planeta vermelho serão transformados em um grande reality show. A ideia é que o público escolha aqueles que darão o próximo grande passo da humanidade:

Parece absurdo? O recrutamento da missão ainda não começou e Mars One já recebeu mais de mil candidatos. Também vale lembrar que o astronauta canadense Chris Hadfield virou uma celebridade depois que passou a documentar sua vida na Expedição 35. Só o vídeo em que ele mostra como seria chorar no espaço já acumula mais de 1.5 milhões de views.

Nos próximos anos, a Habitação Espacial será um tema cada vez mais reincidente na cultura de massa. Comunicadores, produtores de conteúdo e inovadores devem buscar inspiração neste assunto e enxergar os valores que estão por tras desta microtendência.

No cinema dizem que a viagem – ou a jornada – é a grande metáfora da cultura ocidental para a transformação do sujeito. Nesse sentido, o interesse crescente por viagens espaciais é reflexo de transformações que pairam no ar, como a valorização da racionalidade que transformou cientistas nos novos rockstars ou mesmo o [crescente?] desejo de escapismo em meio a crises econômicas e problemas mundiais que são aparentemente insolúveis. Se por um lado a tecnologia nos trouxe o sabor da onipresença através do encurtamento do tempo e do espaço, flertamos com a habitação espacial e suas extensas jornadas como um resgate da longa temporalidade. Arriscaria ainda dizer que, sendo este um lugar onde o som não se propaga, o espaço seria enfim uma possibilidade de silêncio, contemplação e recomeço. Em outras palavras, a promessa de um novo paraíso.

imagens do ensaio da revista Select em que artistas criaram imagens de Marte como o paraíso humano do século 21. Acima, José Resende

Greg Bousquet, arquiteto da Tryptique

 

UPDATE: pra você que cansou desse planeta, a seleção da Mars One de candidatos para morar em Marte irá começar em Julho. Serão 24 selecionados até 2015 e, em seguida, 7 anos de treinamento até a partida da primeira tripulação em 2023. Ah sim, vale lembrar que a viagem é só de ida. Segundo o CEO da organização, Bas Lansdorp, eles esperam um milhão de inscrições no formato de vídeos de um minuto. Se interessou?

 

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