Moda
25 de abril de 2013 por Eduardo Biz

Lições belgas para a moda brasileira

Nas duas últimas semanas, o Brasil recebeu a visita de Karen Van Godtsenhoven, curadora do MoMu, o Museu da Moda de Antuérpia, na Bélgica.

A produção de moda na Bélgica é muito instigante para quem estuda e cria vestuário no mundo todo. Na Antuérpia especialmente, há uma certa mítica que mexe com o imaginário de todo interessado em moda: é uma mistura do exostismo que se supõe existir em uma localidade longínqua com o talento bruto que improváveis cidades costumam originar.

Trazida ao país pelos gaúchos da Radar Consultoria, a moça passou por Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo. Durante esse tour, tomou um banho de moda brasileira e gostou de muito do que viu. Percebeu a força e o tamanho da nossa indústria e se admirou com as peças em couro criadas por aqui.

Entretanto, não conseguiu chegar a uma conclusão sobre qual seria a verdadeira identidade cultural da moda tupiniquim.

E de identidade os antuerpienses entendem!

Foi exatamente sobre a construção e a consolidação da “cara” da moda belga que Karen discorreu em suas palestras. Sua visão fornece grandes dicas de como nosso país pode criar uma identidade estética mais perceptível, que nos distingua do resto do mundo, e que seja mais unificada mesmo considerando toda nossa pluralidade.

“O Brasil está com uma imagem muito positiva no mundo, e deve procurar o que define ser brasileiro, que pode ser um mix de coisas”, comenta a curadora.

Antwerp 6: Ann Demeulemeester, Dirk van Saene, Marina Yee, Dries Van Noten, Walter van Beirendonck e Dirk Bikkembergs

Mas afinal, como uma cidade de tão pequenas proporções, com um climão interiorano pairando pelas ruas e um baixíssimo senso de orgulho nacional nunca se deixou influenciar por Londres ou Paris, seus vizinhos tão conhecidos por serem poderosos lançadores de moda?

Graças — quem diria — à educação!

Em 1963, foi criado um Departamento de Moda na universidade local, a Royal Academy Of Fine Arts. Lá, os alunos entram em uma espécie de casulo criativo, onde a exigência disciplinar dos professores encuba fortes personalidades.

De lá, já saíram nomes como Raf Simons, Kris Van Assche, Dries Van Noten, Martin Margiela e Ann Demeulemeester. São grandes estilistas que, desde os tempos de universitários até hoje, mantiveram um “signature style” consistente, que sempre os acompanhou e caracterizou.

Nesta lista estrelada de talentos, também vale citar Walter Van BeirendonckHaider AckermannAF VandevorstVeronique BranquinhoBernhard Willhelm e Peter Pilotto.

"Dream The World Awake", exposição de Walter Van Beirendonck no MoMu

Além da rígida educação, um outro fator — também raríssimo no Brasil — contribuiu bastante para o boom da moda na Antuérpia: a ajuda do governo.

Em 1981, houve um plano da indústria para fortalecer a produção da moda local. Parte deste plano foi a criação do prêmio Golden Spindle, que contempla os melhores estilistas do ano.

Mais do que dinheiro, os ganhadores passavam a ter muita visibilidade no mundo. Quem não ficaria curioso em saber porque uma comunidade tão improvável como aquela teria uma premiação de moda? Sem contar que esse advento acirrou uma espécie de competição interna entre os criadores, o que só fez progredir a busca por originalidade e superação de expectativas.

Martin Margiela

O interesse mundial em relação à Antuérpia passou a crescer especialmente a partir de 1986, com a criação do grupo The Antwerp Six. A cidade e a população incorporaram essa “alma fashion” e a moda tornou-se o grande orgulho da cidade.

Hoje, a Antuérpia é um destino muito procurado por aficcionados pelo assunto, especialmente por causa do MoMu. O museu, que tem apenas dez anos de vida, já conta com 25 mil objetos em seu acervo, dos quais metade são peças históricas, e a outra metade são produções contemporâneas.

A visita de Karen nos deixa a reflexão de como educação e apoio governamental são definidores na construção de uma identidade cultural. Em um país cujo orgulho se dilata principalmente por conta da música e do esporte, a moda ainda parece estar de escanteio, esperando ansiosa sua chance de se tornar um ícone da personalidade brasileira.

_____

UPDATE: vale ler este artigo do The Business Of Fashion sobre a crise de identidade da moda brasileira!

 

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>