Arte Comportamento
15 de maio de 2013 por Eduardo Biz

Retrato da arte urbana contemporânea em São Paulo

A artista francesa Gasediel reinterpreta obras importantes da história da arte, misturando elementos da arte urbana presentes na capital paulista

Conhecida por muitos anos como a “cidade cinza”, São Paulo vem passando por um intenso processo de coloração desde os anos 1980 até hoje. A arte urbana passou a ser um dos principais ícones desta metrópole, mesmo em meio a constantes controvérsias.

O grafite evoluiu e abriu espaço para diversas manifestações artísticas na cidade. Mas afinal, qual é a cara da arte urbana paulistana em pleno 2013? A resposta é mais ampla do que se pensa. Abaixo, vou pincelar alguns caminhos que vem sendo observados. Os comentários estão abertos para você ajudar a construir esse mapeamento. ;)

Arte urbana é atração turística

Quem visita São Paulo em busca dos melhores museus e galerias do país, inevitavelmente coloca as ruas no mapa das artes. Muitos hotéis promovem city tours especializados em grafite, que passam por locais como o Beco do Batman. Alguns chegam a cobrar quase R$400 pelo passeio de 3 horas.

Arte urbana ainda é assunto confuso para os políticos

Apesar de iniciativas muito positivas, como a criação do MAAU-SP (Museu Aberto de Arte Urbana de São Paulo) e a legalização das manifestações artísticas em locais públicos sem necessidade de licença, a prefeitura continua apagando muita street art por aí, como aconteceu recentemente com uma obra dos Gêmeos.

Arte urbana é feita na própria estrutura

O uso da própria estrutura como matéria-prima para a obra é a técnica utilizada por muitos dos nomes mais promissores da arte urbana dos últimos anos.

Alexandre Farto, também conhecido como Vhils, esculpe rostos em muros, portas e paredes através da escavação destas superfícies.

Outro exemplo é Alexandre Orion, que usa a poluição e a fuligem dos carros para dar vida aos seus desenhos.

Arte urbana vai além da parede

Não é por falta de parede que a arte urbana deixará de acontecer. Artistas exploram outras plataformas e superfícies, como é o caso de Mark Jenkins. Fita adesiva é o material usado em suas esculturas, espalhadas por diversas cidades do mundo além de São Paulo.

Os bueiros pintados pela dupla 6eMeia ganharam fama mundial e já viraram exposição na Choque Cultural.

Arte urbana é intervenção no cotidiano

Eduardo Srur é um dos artistas mais conceituados atuantes no território urbano paulistano. Garrafas PETs gigantes no rio Tietê, barracas de camping penduradas em edifícios, caiaques sobre as águas poluídas do rio Pinheiros… Difícil alguém que ainda não tenha esbarrado em alguma de suas obras pela cidade. A carruagem na Ponte Estaiada da Marginal Pinheiros compara a velocidade média de deslocamento de um carro e a velocidade de uma carruagem nos tempos do Império: ambos movimentam-se a 20 quilômetros por hora.

O coletivo Aqui Bate um Coração colocou corações em mais de quarenta estátuas de São Paulo, com a intenção de trazer mais amor e reflexão sobre o comportamento nos centros urbanos. Este mesmo grupo adesivou mais de 200 relógios da cidade com cartazes dizendo “aqui o tempo parou”.

Arte urbana reconhece seus pioneiros

A arte de rua se vê cada vez mais dentro das galerias. Alex Vallauri, um dos pioneiros no Brasil, está em exposição atualmente no MAM. Seus grafites foram espalhados em diversos locais de São Paulo nos anos 1970 e 1980.

A galeria virtual do Google, que possibilita um super zoom em obras célebres da história da arte, conta com quase 200 grafites de São Paulo em seu “acervo”.

Galerias paulistanas de arte urbana, como a A7MA, são presença obrigatória em feiras importantes no exterior.

O mural com o rosto de Oscar Niemeyer, realizado por Eduardo Kobra, repercutiu no mundo todo e foi amplamente divulgado nas redes sociais, desde sua construção até a finalização da obra.

Arte urbana inspira “sobrearte”

A exposição “Novo Olhar Urbano”, na A7MA, reúne artistas que registram a arte urbana  através da fotografia. É uma prática que vem assumindo um segundo caráter de arte, uma espécie de “sobrearte”: imagens que vão além do papel de documentar, e carregam uma alta dose de expressão pessoal.

A artista americana Jessica Hess se inspira na arte de rua de São Paulo e de outras cidades para reproduzir obras urbanas em suas telas. Realistas, as pinturas são feitas com tinta óleo ou guache.

O britânico INSA criou gifs animados de street art. A ideia era promover o álbum de Atoms for Peace, banda de Thom Yorke.

Arte urbana é catalogada coletivamente

Instagrafite é um projeto no Instagram que funciona como uma grande galeria virtual de street art. O conteúdo é gerado pelos usuários: seguidores são convidados a utilizar a hashtag #instagrafite em seus achados pelas ruas.

A Folha de São Paulo convoca seus leitores a enviar imagens de arte urbana para ilustrar edições da revista sãopaulo, que acompanha o jornal aos sábados.

Lançado recentemente, o Color+City é uma plataforma online na qual o dono de um muro livre pode oferecer o espaço para um artista pintar. No site, são catalogadas as obras já executadas.

A marca de papel higiênico Personal desenvolveu a campanha Movimento Papel do Cidadão, uma campanha onde os paulistanos puderam sugerir locais feios da cidade que poderiam ganhar o trato de um time de grafiteiros.

Arte urbana está cheia de amor pra dar

Desde sua origem, a arte urbana sempre esteve muito associada à revolta. De uns anos pra cá, o protesto rancoroso deu espaço a manifestações de amor e de humor, sem nunca perder seu tom provocador.

Nas eleições do ano passado, o Cavalete Parade tirou um sarro da propaganda política irregular nas ruas. A ideia foi “pegar emprestado” um cavalete e fazer uma intervenção artística por cima. Uma semana antes da eleição, rolou uma exposição na avenida Paulista.

O Coletivo Oitentaedois espalhou letras do alfabeto pelos muros de São Paulo, em forma de movimentos de break-dance. ”Surgiu a ideia de criar uma espécie de jogo, onde a descoberta de algumas letras leve à procura e interação com as outras, chamando atenção para a dança de rua”, diz Caio Yuzo, autor do projeto.

O vjsuave, duo composto por Ygor Marotta e Cecilia Soloaga, explora recursos como video mapping, live painting e moving projection para disseminar mensagens de amor pelas ruas.

O projeto As Ruas Falam reúne frases e desabafos fotografados em espaços urbanos de São Paulo e outras cidades. Todos podem enviar contribuições usando a hashtag #asruasfalam no Instagram.

Um comentário para Retrato da arte urbana contemporânea em São Paulo

  1. FLAVIO MELO disse:

    Muito bacana observar esse movimento gigantesco de disseminação da arte, seja ela qual for e em qual plataforme estiver. Movimento esse preconizado por Hélio Oiticica e sua turma décadas atrás. ”Museu é o mundo” e hoje isso é real!

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