Comportamento
26 de junho de 2013 por Firpo

Aprendiz de Buda: Compaixão de ativista

É fácil passar do ativismo para o fundamentalismo: o ego sempre dá um empurrãozinho.

As manifestações têm sido o grande tema do país nas últimas semanas. A grosso modo, começaram pacíficas, foram recebidas com violência policial, ganharam corpo justamente pela indignação gerada e então chegaram numa espécie de encruzilhada moral: quanto mais cresciam, mais atraíam oportunistas, gente disposta a depredar e saquear só pelos atos em si.

Descontando as pessoas que buscaram o caminho da violência como revide ou só porque perderam o controle em meio ao caos, queria escrever aqui sobre aquelas que já entram na coisa toda com a disposição errada. Para isso, o meu instrumento vai ser um troço de 2.500 anos chamado budismo*.

É preciso endurecer sem perder a ternura, dizia o outro. Não sei até que ponto a vida dele realmente espelhou essa frase, mas ela é muito boa. Endurecer é não se dobrar, é resistir, é denunciar e lutar contra a injustiça, sempre. Mas é preciso também não perder a ternura, que vou interpretar aqui como outra palavra: compaixão. Compaixão, na acepção budista, é querer que a outra pessoa supere o sofrimento e seja feliz.

A paixão da luta aqui se transforma em uma compaixão, uma paixão compartilhada que percebe e respeita o outro.

O outro? O policial que joga bombas e dispara tiros de borracha? Esse facínora, esse psicopata, esse criminoso? Sim, claro. No budismo não existe a ideia de um mal absoluto e independente. O que existe é ignorância. Em relação a quê? Em relação à realidade absoluta. E no que ela consiste? Sei que é difícil explicar isso num texto rápido como esse. Desconfio que nem tenho capacidade pra tanto, mas isso não me impediria de tentar: a derradeira verdade é que, neste universo que se dissolve e se recria a cada segundo, não existe separação entre eu e você.

O que existe é a noção equivocada de que somos separados, estanques, permanentes e independentes. É aquela vozinha que está sempre nos dizendo que somos diferentes – melhores ou piores, não importa – de todo o resto. Não somos, mas achamos que somos. O budismo dispensa a ideia de diabo justamente porque o ego cumpre com folga essa função.

Isso nos leva de volta ao nosso policial.

Vai por mim: todo mundo só quer evitar o sofrimento e ser feliz. Todo mundo. Isso vale tanto para o Dalai Lama quanto para o pior dos assassinos em série. O que acontece é que provavelmente o Dalai Lama tem uma visão um pouco mais clara das coisas e por isso age de acordo. O policial que comete abusos no protesto é, segundo essa linha de raciocínio, apenas mais uma pessoa deludida. Não estou sugerindo que ninguém se coloque na trajetória de uma bala de borracha, mas que mantenha a consciência de que quem aperta o gatilho também é uma pessoa. Seria mais fácil odiá-lo se fosse um monstro malvado, mas não é. É uma pessoa mesmo, tão confusa, tão perdida e tão amedrontada quanto qualquer um de nós.

Somos feitos da mesma essência do que aqueles que julgamos serem nossos piores inimigos.

Manifestar-se de forma compassiva é, portanto, simplesmente mais eficiente. É endurecer sem perder a ternura. Ao entender que estamos todos no mesmo barco, praticamos a verdadeira revolução: aquela interna, que nos liberta da pior escravidão de todas, a ilusão sobre a natureza última da realidade. Quando alcançamos e cultivamos essa visão, resolver todo o resto fica bem mais fácil.

*Não sou um professor autorizado do dharma. O objetivo desse texto é apenas chamar a sua atenção para o assunto, para que você pesquise e encontre verdadeiros mestres.

Marcelo Firpo é um aprendiz de Buda.

Um comentário para Aprendiz de Buda: Compaixão de ativista

  1. Camila P disse:

    Caraca que texto perfeito! Muito bom!

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