Ponto e Vírgula
10 de julho de 2013 por pontoeletronico

Lição aos Silvas do Brasil

Estes últimos sete dias foram péssimos para o Brasil.

O maior culpado disso tudo? O “brasileiro”. Não falo do brasileiro cidadão. Dos milhares que foram às ruas motivados por suas insatisfações. Falo do arquétipo do “brasileiro”. Este “brasileiro” que vive um pouco em cada um de nós e que se fez vivo em duas figuras emblemáticas. Falo do “brasileiro” que também vive em Eike Batista e Anderson Silva.

Muito distantes em suas atuações, ambos são símbolos criados nesta última década. São produtos de um “novo” Brasil que erradicou a miséria e que já sonhava em participar da elite global. Pelo menos na elite do petróleo e da pancadaria. Mas o que vimos neste curto tempo de uma semana foi a queda, na lama e na lona, destes dois “brasileiros” de marca maior. A queda de Anderson Silva na lona em Vegas talvez seja ainda mais emblemática do que a derrocada de Eike. Filmada por inúmeras câmeras de alta definição e em todos os ângulos possíveis, a queda e seu motivo se desenrolaram em menos de sete minutos. O espírito malandro do “brasileiro” está ali, claro e cristalino para quem quiser ver e rever.

Depois de anos invictos no UFC, Anderson Silva estava no topo do seu jogo – mitificado, em plena forma física e, talvez, demasiadamente confiante. O que, aliás, parece ser uma grande contradição com o quieto pai de família de voz fina que aparece aos nossos olhos nos programas de televisão. De qualquer modo, ver aquele campeão “brincando” em frente ao seu adversário parecia grandioso, parecia realmente a lição de um grande atleta frente a um desafio menor. Lembrou em muito o mito Muhammed Ali e sua confiante dança. Além de tudo, tratava-se de um brasileiro. Alguém com a dança no sangue.

A vitória da alegria parecia estar sendo desenhada na luta, até que um dos inúmeros socos que Anderson já havia recebido na cara o tonteou. Tão logo o dançarino tupiniquim cambaleou, a raiva concentrada de Chris Weidman avançou como uma locomotiva em uma série de socos, como uma arma automática. Quando Anderson ainda estava no chão, Weidman deu mais um ou dois socos de misericórdia. Ou para ter a certeza de que a preza estava realmente “morta”, ou para desovar a sua vingança em um último tiro de satisfação vingativa ao melhor estilo tarantinesco. Entre as palavras proferidas pelo inspirado narrador da luta, ouvimos uma esclarecedora nota: “brincou demais o brasileiro”.

“Brincou demais o brasileiro” resume o que aconteceu com Anderson Silva, ao mesmo tempo que explica o que também ocorre com frequencia com o brasileiro em geral. Num lapso de falta de humildade, Silva brincou. Deixou subir o samba à cabeça e não teve maestria suficiente para bancar a ousadia. Afinal de contas, esporte não é dança. Afinal de contas, a luta tem elementos de seriedade e disciplina que os festejos passam ao largo. A tradição das artes marciais, assim como a tradição das guerras, não perdoam a desatenção, o esnobismo ou a algazarra. Mesmo os americanos, senhores da guerra, tomaram essa lição no Vietnam. O Brasil, que nada entende de guerra, confia demais ao mínimo sinal de vitória. Canta vitória antes da hora. Brinca demais antes do apito final. Esse é o veneno de nossa positividade superficial. A positividade do povo sorridente e dançarino que, sim, muito tem a ensinar ao mundo, mas pouco tem a ensinar a si mesmo.

Brincou Silva e brincou Batista. Brincaram com os seus gestos e com suas palavras. Brincaram na hora errada. Uma grande Nação se constrói honrando com a sua palavra, com uma vitoria após a outra. A conquista é um compromisso. A excelência nasce da disciplina e da humildade e não do delírio infantil de quem quer só brincar mais um pouco.

Cai o mito, levanta-se uma lição. Dançar na frente do adversário é um ideal a ser conquistado, mas o caminho para isso precisa de minério de verdade, treino exaustivo e a boa e velha humildade. Pois quando a humildade acaba, quem caminha em direção ao topo cai por terra.

*O texto é uma colaboração do João Mognon

Um comentário para Lição aos Silvas do Brasil

  1. Muito bom o texto. Colocações pertinentes e redação impecável.

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