Comportamento Tecnologia
25 de março de 2014 por Carla Mayumi

A Internet que queremos — você já pensou nisso?

Os 25 anos da World Wide Web e a relevância deste aniversário

Em 12 de março de 1989 nascia esta que é a ferramenta mais importante da Internet – nada menos que o www que você digita antes de qualquer coisa que coloca em um browser.

Você já parou pra pensar que a Internet ainda é o espaço mais aberto, neutro e democrático que temos? Aqui na Web, essa que você está usando para ler esse post e fazer tantas outras coisas, a informação gerada e lida pelas pessoas se organiza de forma espontânea e orgânica. Eu escrevo, tenho esse endereço, você lê e faz o que quiser com isso. Dá um like, compartilha, manda pra alguém, guarda pra ler depois, assiste aos vídeos, não assiste, copia e cola um pedaço do texto, enfim… são muitas as possibilidades.

Esse é o nosso canal e pertence às pessoas; é seu e meu. A World Wide Web talvez seja a única tecnologia que já nasceu popular e dando poder às pessoas. Outras tecnologias que transformaram a sociedade nasceram inacessíveis para o cidadão comum. Algumas começaram como “luxos”, só a elite podia comprar e apenas depois isso chegava em todas as classes sociais – é o caso do carro. Algumas começaram no universo acadêmico, no governo, em instituições com poder econômico – como o próprio computador.

Minha querida World Wide Web nasceu distribuída e sendo “de graça”. Mesmo lá no comecinho quando isso tudo ainda era um bebê, você acessava o endereço de um portal e tinha acesso a notícias. Clicava em um site de uma loja e tinha informações sobre seus produtos. Mesmo com apenas 25% da população global tendo acesso à Internet, ela está lá e teoricamente pode ser usada por qualquer um.

Quem criou a World Wide Web foi o cientista britânico Sir Tim Berners-Lee. Como fã dele que sempre fui, nem acreditei quando vi que teria a oportunidade de vê-lo falando ao vivo, dois dias antes do “aniversário”. Isso aconteceu no evento de tecnologia onde eu estava, o SXSW. Em sua palestra, que foi — claro — sobre o aniversário do “filhote”, ele fez alguns pedidos para todos. Sim, para todos: para mim e para você que me lê.

Antes de entrar no pedido do “pai da Internet”, vale saber um pouco mais sobre ele: Berners-Lee podia facilmente ter sido um dos milionários da grande rede. Podia ter criado algo que tivéssemos que pagar para usar. Mas ele nos presenteou com a tecnologia que nos abre um universo incrível de informações a um clique.

“No coração da Web está o link, representado por uma sequência banal de letras, aquelas que começam com http://. Quando linkamos a informação na Web, temos a capacidade de descobrir fatos, ter ideias, comprar e vender, e criar relacionamentos em uma velocidade e escala inimagináveis na era analógica. Estas conexões transformam eleições presidenciais, derrubam governos autoritários, dão força a grandes negócios e enriquecem nossas redes sociais.” (Tim Berners-Lee)

Na chegada da World Wide Web à vida adulta, o pedido de Sir Tim Berners-Lee me tocou fortemente. Me sinto na responsabilidade de reproduzi-lo aqui e pedir que todo mundo que eu conheço faça o mesmo, pelo futuro da Internet:

O alerta faz referência à forma como poderes estabelecidos estão tentando manter e expandir seus territórios de dominação a partir da Web. Ele fala para lutarmos pela Internet que queremos e propõe algumas visões do que pode defini-la como o que queremos para seu futuro: como forma de livre expressão (sem censura), acessível, universal, aberta, neutra (sem controles comerciais), com a privacidade controlada pelo indivíduo e inovadora. Segundo ele, sem estas características a Internet deixa de estar nas nossas mãos e passa a ser ainda mais controlada por poderes políticos e econômicos, de tal forma que pode mudar sua neutralidade e participação, afetando diretamente a relação das pessoas com a Web. Isso é sério, muito sério. Se essa relação mudar, vai ser muito mais difícil termos transparência de dados, evoluir a democracia, ter acesso rápido a evoluções científicas, viver conectados em comunidades e incentivar a diversidade cultural.

O idioma inglês tem uma expressão intraduzível que exprime muito bem a forma como vemos a Internet: to take for granted. Vemos a Internet como algo garantido, que está ali e sempre estará. A advertência que está no ar é que a coisa não é bem assim – pois talvez amanhã ela não esteja. Sinceramente, me arrepia pensar nisso.

Depois de ver Tim Berners-Lee, saí da sala emocionada, pensando nisso tudo e com a cabeça a mil em função de outras duas personalidades que falaram no SXSW: Julian Assange e Edward Snowden. Ambos falaram ao vivo dos lugares onde estão — Assange exilado no Equador, Snowden na Rússia. O vídeo de uma hora da entrevista virtual com Snowden pode ser assistida neste vídeo. O blog Inside fez a incrível tarefa de transcrever toda a entrevista (em inglês — quem sabe algum brasileiro ajuda a transcrever para o português, hein?).

Mas as reflexões não pararam aí. Ainda no SXSW, fui assistir ao filme sobre a vida de Aaron Swartz (The Internet’s Own Boy — The Story of Aaron Swartz), que foi financiado coletivamente e produzido em uma velocidade incrível após a sua morte.

Aaron Swartz suicidou-se aos 26 anos, em janeiro de 2013. Estava sendo julgado e corria o risco de ser condenado a mais de 30 anos de prisão e ter de pagar até 4 milhões de dólares. Seu crime: baixar arquivos de artigos acadêmicos que eram comercializados por uma empresa privada.

Mas quem foi Aaron Swartz? Considerado um gênio hacker, ativista político e defensor de dados abertos, a trajetória dele começou cedo. Com 14 anos, colaborou com um projeto que criou a especificação do RSS, que permite uma atualização automática de informações. Ele participava do grupo de forma virtual e ninguém sabia que tinha apenas 14 anos. Quando revelou-se, foi difícil para o grupo acreditar que toda a contribuição na programação daquele código tinha sido feita por um menino. A partir daí, o garoto-prodígio alçou grande vôos, como era para ser: ajudou Lawrence Lessig com a arquitetura do seu então projeto Creative Commons, que atualmente pauta a forma como se encara o direito autoral na Internet. Além disso, trabalhou com o próprio Tim Berners-Lee no World Web Consortium e no MIT.

A jornada de Aaron seguiu com a dedicação ao projeto The Info, que facilita a busca de arquivos disponíveis mas muito difíceis de acessar, como documentos arquivados de processos judiciais. Foi um dos fundadores do Reddit, uma rede social onde as pessoas publicam notícias que estão lendo na Web. Em 2012, foi um grande ativista nos protestos contra o SOPA/PIPA. Ou seja, tudo que ele construiu está ligado à forma como consumimos informação – sua luta em diferentes frentes era para que dados fossem abertos e livres. Aqui tem um trechinho do filme que fala dessa parte da vida de Aaron:

É a partir daí que a história começa a complicar. Aaron revoltou-se quando descobriu que muito do conteúdo valioso sendo produzido nas universidades era comercializado e as pessoas não podiam ter acesso a ele sem gastar uma quantia considerável de dinheiro. Para ele isso não podia ser assim. No seu Guerilla Open Access Manifesto, já havia declarado:

“There is no justice in following unjust laws. It’s time to come into the light and, in the grand tradition of civil disobedience, declare our opposition to this private theft of public culture.” (Não há justiça em se seguir leis injustas. É hora de fazer vir a luz e na grande tradição da desobediência civil, declarar nossa oposição a este roubo privado da cultura pública)

Ele resolveu hackear o sistema do JSTOR, um site que comercializa artigos acadêmicos. Não conseguia aceitar que aquele tipo de conteúdo fosse pago. Baixou milhares de arquivos, mas o sistema de segurança da Jstor detectou o download dos arquivos e bloqueou o IP, e então Aaron mudou sua tática. Ligou seu computador diretamente na rede do MIT (universidade dedicada à pesquisa ligada a tecnologia) durante alguns dias e o deixou ali, baixando os arquivos. A universidade encontrou o laptop e instalou uma câmera na salinha para flagrar quem estava por trás da ação hacker. Alguns dias depois, Aaron foi preso. Os arquivos nunca saíram do seu computador e foram devolvidos ao MIT.

O filme conta toda a história com uma visão bem crítica. Aaron Swartz é considerado pela maioria dos pensadores da Internet – alguns bem importantes como o próprio Lessig e Berners-Lee – um grande herói do ativismo da Web e dos dados abertos. Muitas questões são abordadas no filme: por que o MIT não imediatamente capturou o laptop de Aaron mas esperou alguns dias até ele aparecer e ser flagrado pela câmera? Por que o governo americano, através do FBI, deu tanta atenção ao caso, já que Aaron não chegou a fazer uso dos dados que estava baixando? Por que o caso seguiu mesmo depois da Jstor ter retirado suas queixas e o MIT nunca ter solicitado que houvesse uma investigacão criminal? Por que o MIT nunca se pronunciou durante o processo, ainda mais por ser uma instituição que prega a favor dos dados abertos?

Assim, fascinada e um pouco em choque com toda essa informação é que me foi caindo a ficha. Acredito que estamos vivendo uma revolução silenciosa de proporções gigantescas, que se dá em lugares fechados em frente aos computadores. Com diz uma amiga, me senti “vivendo a história ao vivo”, pois quando olhei à minha volta percebi o que estava presenciando: um evento com o clamor de um dos inventores da Internet mais Snowden, Assange, Swartz. Os três últimos são mártires dessa revolução silenciosa. Cada um do seu jeito e em diferentes cenários, contextos e dimensões, eles estão a favor de uma mesma causa, a da Internet livre, aberta, transparante, não-comercial e sem censura. A mesma causa de Sir Tim Berners-Lee. Temos algo grande aí, não?

Por acreditar que essa causa deveria ser de todos é que escrevo este post e compartilho o pedido de Berners-Lee, e faço questão de deixar a versão original em inglês:

“Millions of people together have made the Web great. So, during the Web’s 25th birthday year in 2014, millions of people can secure the Web’s future. We must not let anybody – governments, companies or individuals – take away or try to control the precious space we’ve gained on the Web to create, communicate, and collaborate freely.” (Milhões de pessoas juntas fizeram uma grande Web. Então, durante seu aniversário de 25 anos em 2014, milhões de pessoas precisam assegurar o futuro da Web.)

Novas questões estruturais começam a surgir: será que não é hora de uma declaração universal de direito à Internet? Nossos políticos e advogados nasceram na era pré-Internet ou na transição do analógico para o digital. Será que eles têm consciência e conhecimento do que é de fato a Internet para estarem decidindo e julgando sobre ela? Termino com mais essa frase:

“Precisamos que nossos advogados e políticos entendam de programação, entendam o que se pode fazer com um computador. Também precisamos revisitar muito da estrutura legal, leis de direito autoral – as leis que colocam as pessoas na prisão que foram criadas para proteger os produtores de filmes… Nada disso foi criado para preservar o debate entre indivíduos nem a democracia que precisamos para governar o país.” (Tim Berners-Lee)

Outras leituras e referências:

O livro Hacking Politics fala sobre como ativistas conseguiram fazer com que o projeto da SOPA não fosse aprovado

Guerilla Open Access Manifesto, de Aaron Swartz

Carta endereçada ao Presidente do MIT por um grupo de trabalho da universidade que estudou a participação do MIT durante o processo criminal conduzido contra Swartz

Matéria sobre a caminhada que Lawrence Lessig realizou em janeiro de 2014. Foram 120 quilômetros enfrentando mais de 20 dias de chuva e neve em memória de Aaron e pela transparência de dados e reforma política nos Estados Unidos. “The only way we’re ever going to get fundamental reform is if we can inspire presidential candidates to make this a central — maybe the central issue — that they want to talk about” disse ele em entrevista ao Huffington Post.

Texto de 2012 do Baixa Cultura que já levantava a questão da internet livre.

2 comentários para A Internet que queremos — você já pensou nisso?

  1. Maria Juliana Giraldo disse:

    Vejo a internet como a materialização de uma nova consciência colaborativa.
    Estamos vivendo um momento crítico e precisamos acordar e participar ativamente deste momento, para evitar que a ferramenta que pode nos levar a um outro patamar de convivência seja manipulada.

    Assista também o filme The Parrot Bay Away From Keyboard: https://www.youtube.com/watch?v=eTOKXCEwo_8

  2. Cibele disse:

    A rotina, muitas vezes nos cega o contexto macro da vida em todos os sentidos, e assim com a internet!
    Muito elucidativo o texto, num tom emocionado e alarmante ao mesmo tempo. Que bom que uma das lutas em prol da internet que queremos, a livre, foi conquistada no Brasil, embora seja só o começo de uma longa jornada, pois os lobbies tendem a fazer pressão para reverter o quadro a medida que tomam consciência do poder da internet para seus interessses pessoais: o de mobilizar massas e de manipular conteúdo!

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