Arquivos de: andre

Comportamento, Comunicação, Design
07 de maio de 2013 por andre

Brand Thinking: por que nos definimos através das coisas?

“A versão moderna da introspecção é a soma total de escolhas altamente individualizadas que fazemos sobre o conteúdo material de nossas vidas.”

Na semana passada a escritora, educadora e designer Debbie Millman relançou um livro que vale a pena comentar. Brand Thinking and Other Noble Pursuits é um ensaio provocador sobre a íntima relação do sujeito contemporâneo com os bens materiais, uma dinâmica segundo a qual o sentido da vida está psicologicamente ligado ao que consumimos, das roupas aos livros.

Em um primeiro nível, a proposta do livro é interessante porque o tema é extremamente atual. Apesar de tantas discussões sobre propósito, elevação e até o começo de uma era pós-consumismo, também nunca vimos tantas marcas se associando à felicidade e à realização. A obra traz alguns conceitos pertinentes para a discussão, como:

“A razão pela qual continuamos a reatualizar a imagem de tantas coisas é o fato de que somos uma espécie com um incessante apetite por reafirmar os sentimentos de segurança e nostalgia que objetos antigos nos trazem. Ao mesmo tempo, também possuímos um desejo eterno de injetar uma novidade que nos seduza a um engajamento contínuo com a experiência.”

Debbie fez um extenso trabalho investigativo sobre a relação do homem com produtos e o surgimento da cultura da marca. Para isso, entrevistou especialistas de diferentes áreas do pensamento para gerar uma análise crítica mais profunda e heterogênea. Os nomes entrevistados por ela são a segunda razão para prestar atenção no livro: o escritor e crítico cultural Daniel Pink – autor do sensacional A Whole New Mind, do qual já falamos aqui; o blogueiro, autor e guru da tecnologia Seth Godin; o jornalista e autor de best-sellers Malcolm Gladwell; e Dori Tunstall, antropóloga e designer conhecida por sua lucidez no estudo da criatividade e na visão do design como ferramenta da democracia.

Para encerrar, um quote provocador do Malcolm Gladwell sobre escolhas materiais como sinônimos de atos políticos:

Nossas escolhas materiais não são mais algo trivial. Elas estão entre as escolhas mais importantes que fazemos. E elas possuem consequências que vão muito além dos nossos próprios sujeitos – elas possuem consequências globais. Consequências na nossa economia, na comunidade em que vivemos. Quando você come um hamburger do McDonald’s, você está dando um voto para um certo tipo de agricultura e para um determinado cenário climático. De certa forma, tudo que fazemos representam escolhas de um certo tipo de mundo. 

[...]

As coisas que as pessoas decidem mostrar inevitavelmente geram um tipo de inércia. Em um mundo no qual dispomos de recursos extraordinariamente eficientes de comunicar e exibir, a pergunta ‘quem é você?’ torna-se incrivelmente complicada. Acredito que marcas sejam parte disso. Quando você se cerca de determinados tipos de objetos, eles se tornam uma declaração pública de quem você é. 

via brainpickings

5 Comentários
Comportamento, Design
23 de abril de 2013 por andre

O HOMEM IDEAL?

A designer holandesa Noortje de Keijzer criou o MY KNITTED BOYFRIEND, um travesseiro em formato [e tamanho] de uma pessoa. A ideia da artista foi criar um homem que está sempre feliz e é perfeitamente flexível: pode ser customizado com um bigode ou óculos, ficar deitado no chão ou simplesmente te acolher em uma noite fria. A promessa é que você nunca mais se sentirá sozinho[a], afinal ele nunca lhe abandonará. O vídeo é demais – e levemente assutador:

MY KNITTED BOYFRIEND from Noortje de Keijzer on Vimeo.

Noortie também criou ilustrações belíssimas sobre a relação dela com o homem-travesseiro:

Pode parecer assustador, fofo ou meio deprê. Mas me lembrou bastante de Chobits, clássico mangá da Kodansha de 2002. A trama gira em torno de Hideki, jovem estudante de Tóquio, que acaba de apaixonando por Chii, sua Persocom. Persocons [Personal Computers] são o ápice da tecnologia, robos de formato humanóide capazes de realizar tarefas cotidianas que, na maioria das vezes, acabam se transformando em entes queridos de seus donos.

Homens máquina e a capacidade de sentir emoções humanas são um tema que o cinema já explorou à exaustão: desde O Mágico de Oz até A.I. Artificial Intelligence ou O Homem Bicentenário. Enfim, tudo reflexo da solidão que tanto nos apavora. Mas reflexões de mesa de bar à parte, fico curioso para saber o que as feministas teriam a dizer sobre isso. Fica a provocação para a Nina. :P

1 Comentário
Moda, Ponto e Vírgula, Tecnologia
16 de abril de 2013 por andre

Habitat Espacial: por que o planeta não é mais o bastante?

Post Mágico

Exploração espacial é um tema que habita nossos imaginários há muito tempo, de Julio Verne à Star Trek e 2001: Uma Odisseia no Espaço, obras que, além das viagens ao espaço, refletem temas fundantes da cultura ocidental: a nossa relação com o tempo, a solidão da condição de espécie inteligente, a expectativa de transcendência e imortalidade até temas contemporâneos como o esgotamento dos recursos e a obsessão pela tecnologia.

The Afronauts, série fotográfica da jornalista Cristina De Middel sobre um projeto de esacalada espacial da Zambia criado pelo professor Edward Makuka Nkoloso em 1964.

O projeto era uma tentativa de levar o primeiro africano à Lua e diminuir o gap tecnológico-científico do país em relação ao restante do mundo.

Se a corrida espacial foi potencializada em 1969 quando Neil Armstrong pisou na lua, o fim da guerra fria e sucessivas tentativas frustradas diminuíram o interesse por esse tema. Em outubro de 2012 publicamos a capa da MIT Technology Review que nos perguntava por qual motivo deixamos de investir na exploração do espaço infinito ou mesmo em  grandes problemas como a cura do câncer ou a massificação de energias renováveis, para trabalhar em criações que contribuem tão pouco para a humanidade. Como o cientista Jeff Hammerbacher bem colocou: “as melhores mentes da minha geração estão pensando em como fazer as pessoas clicarem em propaganda”.

 Buzz Aldrin’s footprint in the moon’s gray, powdery surface.
.

No entanto, nos últimos anos a escalada espacial voltou a fazer parte o espírito do nosso tempo. Em 2012 o Kickstarter possibilitou o Edge and Back, projeto dos alunos da 6a série de uma escola de Kentucky nos EUA que enviaram uma câmera ao espaço; a Redbull promoveu a primeira queda livre da estratosfera até o solo; a NASA ultrapassou 3.5 milhões de seguidores no twitter; e Elon Musk, milionário sul-africano fundador do Pay-Pal, anunciou a SpaceX, empresa que presente mandar famílias para passear no espaço em 2025.

O Cinema é sempre um reflexo do inconsciente coletivo, vide a quantidade de filmes que têm explorado o assunto, de Avatar à Prometheus. Importante ressaltar que os filmes de ficção não têm retratado a escalada espacial como um sonho, mas como um destino inevitável e a poucas décadas de distância. Vale lembrar que o TED Talk ficcional de Peter Wayland, dono da maligna corporação de Prometheus que leva a raça humana a investigar suas origens através do espaço, acontece em 2023.

A Moda também é um campo em que é possível enxergar inúmeras referências desse movimento. Um bom exemplo é o Haute Joaillerie,  curta belíssimo criado pelo diretor Jérémie Rozan para Louis Vuitton em 2012 que nos leva a uma incrível jornada pelo planeta vermelho:

A grande mudança que estamos vivendo é que no lugar de exploração espacial, passamos a tratar o tema como expansão espacial. Ou seja, ao invés de descobrir vida em outros planetas, fala-se em habitação interplanetária. Além disso, se os programas governamentais financiaram a exploração do universo no passado, hoje a habitação espacial também passou a ser promovida por iniciativas privadas que falam em turismo e até colônias espaciais. Por um lado a NASA anunciou o Transiting Exoplanet Survey Satellite (TESS), projeto que será lançado em 2017 para buscar novos planetas, enviará astronautas a Marte em 2030; além de produzir o “We are the Explorers”, vídeo que será passado nos cinemas antes do novo filme da saga Star Trek sobre as novas empreitadas da organização:

Por outro lado a iniciativa privada Mars One tem a ambição de estabelecer uma colônia humana em Marte em 2023 [sim, você realmente leu 2023]. Criado pelo empresário holandês Bas Lansdorp, o projeto conta com o apoio e financiamento de cientistas, engenheiros e companhias aéreas de diversos países, além de um curioso time de embaixadores, do físico vencedor do prêmio Nobel Prof. Dr. Gerard ‘t Hooft a Paul Römer, criador da série de reality shows Big Brother. A participação de Paul Römer não é pura coincidência, uma vez que o planejamento, seleção dos astronautas até o pouso e construção da colônia no planeta vermelho serão transformados em um grande reality show. A ideia é que o público escolha aqueles que darão o próximo grande passo da humanidade:

Parece absurdo? O recrutamento da missão ainda não começou e Mars One já recebeu mais de mil candidatos. Também vale lembrar que o astronauta canadense Chris Hadfield virou uma celebridade depois que passou a documentar sua vida na Expedição 35. Só o vídeo em que ele mostra como seria chorar no espaço já acumula mais de 1.5 milhões de views.

Nos próximos anos, a Habitação Espacial será um tema cada vez mais reincidente na cultura de massa. Comunicadores, produtores de conteúdo e inovadores devem buscar inspiração neste assunto e enxergar os valores que estão por tras desta microtendência.

No cinema dizem que a viagem – ou a jornada – é a grande metáfora da cultura ocidental para a transformação do sujeito. Nesse sentido, o interesse crescente por viagens espaciais é reflexo de transformações que pairam no ar, como a valorização da racionalidade que transformou cientistas nos novos rockstars ou mesmo o [crescente?] desejo de escapismo em meio a crises econômicas e problemas mundiais que são aparentemente insolúveis. Se por um lado a tecnologia nos trouxe o sabor da onipresença através do encurtamento do tempo e do espaço, flertamos com a habitação espacial e suas extensas jornadas como um resgate da longa temporalidade. Arriscaria ainda dizer que, sendo este um lugar onde o som não se propaga, o espaço seria enfim uma possibilidade de silêncio, contemplação e recomeço. Em outras palavras, a promessa de um novo paraíso.

imagens do ensaio da revista Select em que artistas criaram imagens de Marte como o paraíso humano do século 21. Acima, José Resende

Greg Bousquet, arquiteto da Tryptique

 

UPDATE: pra você que cansou desse planeta, a seleção da Mars One de candidatos para morar em Marte irá começar em Julho. Serão 24 selecionados até 2015 e, em seguida, 7 anos de treinamento até a partida da primeira tripulação em 2023. Ah sim, vale lembrar que a viagem é só de ida. Segundo o CEO da organização, Bas Lansdorp, eles esperam um milhão de inscrições no formato de vídeos de um minuto. Se interessou?

 

Comente
Arte
08 de abril de 2013 por andre

Um Projeto Monumental

Essa semana a Trunk Magazine – a revista de viagens mais legal do mundo -, publicou algumas fotos do  Thomas Kellner, fotógrafo alemão que compõe imagens de monumentos icônicos através da desconstrução. Seu trabalho é uma provocação sobre nossa capacidade de perceber detalhes e combiná-los em visões panorâmicas.

O Coliseu, Itália

Em uma era marcada pela manipulação da realidade através de ferramentas digitais, onde tudo pode ser alterado ou renderizado, o trabalho de Kellner é feito na raça. Em algumas destas imagens ele chegou a clicar e usar mais de 600 frames [!]. A série BRASILIA, THE ARCHITECTURE OF OSCAR NIEMEYER – A MODERN UTOPIA desenvolvida para o aniversário de 50 anos da capital brasileira é especialmente emocionante.

Catedral Metropolitana, Brasilia

Santuario Dom Bosco, Brasilia

No site da Trunk tem a entrevista completa.

Comente
Moda
05 de abril de 2013 por andre

MODA E CROWDFUNDING

Moda é uma indústria em crise. Além das polêmicas em torno da mão de obra ou das criações dos estilistas, muito se fala sobre um grande sentimento de esgotamento dos profissionais gerado, entre outros motivos, pela dinâmica acelerada que o fast fashion instituiu. Há algum tempo falamos aqui no Ponto Eletrônico sobre a Hipersazonalidade, movimento que intensifica ainda mais esse ritmo, aceleração essa que afeta em especial criadores que sentem sua arte massacrada por prazos e cifrões. Por um lado, alguns especialistas apontam o fim do fast-fashion, mas por outro prefiro refletir sobre as transformações que a cultura digital ainda pode trazer para a moda.

Na última década a dinâmica do universo fashion foi virada de cabeça para baixo à medida que a crítica, a opinião e o conhecimento foram descentralizados pela lógica de rede. Ainda que as “blogueiras de moda” sejam odiadas por muitos, é inegável sua representatividade de empoderamento das pessoas e novas possibilidades de curadoria. Não se tratou de uma escolha entre críticos e amadores, mas sim na ampliação do debate e certa democratização do tema.

No entanto, se a lógica de rede transformou o conhecimento sobre o assunto moda, a cadeia de criação e produção ainda parece muito tímida ao aproveitar-se desse poder das massas. Novos modelos como o crowdfunding subverteram indústrias poderosas como cinema, games e música. Vale assistir ao TED Talk da Amanda Palmer, cantora norte-americana com um dos projetos mais bem-sucedidos da história do Kickstarter. Amanda conta que perdeu o contrato com sua gravadora porque vendeu “apenas” 25 mil cópias de seu CD. Em contrapartida, exatamente esse número de apoiadores permitiu que ela arrecadasse mais de 1 milhão de dólares para a criação de seu novo trabalho.

Amanda Palmer tem razão ao afirmar que perguntar é uma arte. E precisamos lembrar que também pode ser uma grande oportunidade de novos negócios, uma ótima notícia para um setor que enfrenta tantas crises. Se pararmos pra pensar no uso do crowdfunding na moda, é a mesma lógica que já existe na engrenagem das relação com os varejistas: o estilista faz um show room onde recolhe os pedidos de seus revendedores, e só então as peças são confeccionadas. A diferença é que com a lógica de rede esse poder de influência passa para a mão do consumidor final. Ao incorporar a lógica do crowfunding o próprio consumidor tem o poder de decidir o que vai ser “tendência”.

Além disso, estilistas também podem se dedicar a projetos paralelos e até mais conceituais, direcionados a um público de menor escala e que esteja disposto a consumir propostas mais ousadas. Modelo que tem pouco espaço em grandes conglomerados hoje. Sem falar na possibilidade de tornar a produção mais sustentável e transparente, uma vez que as marcas vão parar de produzir toneladas de roupas que podem encalhar nos estoques e até se dedicar à cadeias produtivas mais justas e éticas. Transparência é um movimento que tem cercado o mundo fashion nos últimos anos, como a Honest By, marca belga que propõe uma cadeia de produção 100% transparente mostrando todos os custos envolvidos nos materiais e mão-de-obra no preço final de cada peça.

Para encerrar essa provocação, tenho muito orgulho e admiração em compartilhar o projeto do Eduardo Biz e a sua marca Alguns Tormentos. O Edu postou seu projeto no Catarse para que a próxima coleção seja vendida antes que seja produzida, ou crowdfunded para os mais íntimos. Grande iniciativa e uma nova voz para uma indústria que clama por ressignificação.

Alguns Tormentos – Catarse from Alguns Tormentos on Vimeo.

 

5 Comentários
Comportamento, Comunicação, Tecnologia
26 de março de 2013 por andre

5 LIVROS QUE VOCÊ PRECISA LER

Cultura digital, cognição, curadoria, excesso de informação, design thinking são temas cada vez mais presentes no nosso cotidiano. Parece que sempre que começamos a falar sobre qualquer assunto, de alimentação à tecnologia, esbarramos nas transformações que tais assuntos representam. Pensando nisso, resolvi fazer um compilado de 5 livros atuais que: 1, nos ajudam a entender melhor tais temas e as transformações que provocam; 2, nutrir a cabeça e o coração; 3, entender que diabos está acontecendo com o mundo. Em meio a tantas abas e níveis do candy crush, é fato que fica cada vez mais difícil lermos livros. Infelizmente este post não é uma receita milagrosa para que você consiga ler mais, mas uma promessa de que se você ler ao menos um livro destes, se sentirá mais consciente sobre as mudanças que estamos vivendo.

1. THIS WILL MAKE YOU SMARTER, John Brockman

Há mais de 30 anos o editor e escritor John Brockman fundou um clube chamado Reality Club. O objetivo era trocar inspirações com pessoas de diferentes áreas do conhecimento, basicamente aprender. Em 1997 esse club evoluiu para o Edge.org, o blog mais inteligente da internet segundo o The Guardian e Brockman passou a ser mais conhecido como “empresário cultural” ou “enzima intelectual”. Em 2011, Brockman provocou mais de 100 pensadores a responderem à pergunta: “Qual conceito científico melhoraria as habilidades cognitivas de todo mundo?”. Importante resaltar que “conceito científico deve ser compreendido como um termo amplo, relativo à ideias e aprendizados de qualquer disciplina. O resultado disso é o This Will Make You Smarter, livro que bateu a marca de best seller #1 na Amazon. Em 2012 Brockman lançou This Explains Everything, livro com um princípio semelhante em que 192 pensadores apresentam teorias profundas [e elegantes] para explicar como o mundo funciona.

Por que você precisa ler? Porque o livro reúne temas e pontos de vista que ajudam a sofisticar o pensamento e inclusive a apreciar o contexto líquido em que vivemos hoje. Textos como o do Daniel Kahneman sobre “A ilusão do foco”, Nicholas Carr e “Como gerenciar o excesso cognitivo” e mesmo Jason Zweig sobre “Serendipidade Estruturada” são a prova disso. Mas dentro de um mosaico tão heterogêneo de ideias e pensadores, o que me parece mais forte é a importância do olhar plural, do cruzamento de disciplinas, da nossa capacidade de combinar arte e ciência.

Um trecho incrível: Em seu texto “To Curate” [algo como "curar", ato de desenvolver uma curadoria], Hans Urich Obrist, curador da Serpentine Gallery em Londres, também conhecido como HUO, fala da importância de enxergar esse conceito de maneira mais ampla em tempos de excesso e até certa banalização do termo. Apesar de breve, é muito elucidativo: “o curador não é mais entendido como a pessoa que simplesmente preenche um espaço com objetos, mas também como a pessoa que coloca diferentes esferas culturais em contato, cria novas formas de exibição e faz junções que resultam em encontros inesperados. [...]  este tipo de ligação é uma parte essencial do significado de curadoria, uma vez que dissemina um novo conhecimento, um novo pensamento e novas obras de arte que podem semear futuras inspirações multi-disciplinares.”

2. BORN DIGITAL, John Palfrey and Urs Gasser

O livro dos professores John Palfrey e Urs Gasser traça uma perspectiva sociológica sobre quem é a primeira geração que nasceu em um contexto 100% digital [nascidos pós 1990] e quais os impactos deste fenômeno para a nossa cultura, política e até valores familiares. Os autores também desenvolveram o Digital Natives Project, iniciativa em parceria com o Berkman Center for Internet & Society na Universidade de Harvard para entender e dar suporte à pais, professores e aos próprios nativos digitais. O projeto produz diversos materiais como o Digital Dossiers, vídeo que circulou há um tempo atrás sobre a quantidade de dados públicos que já existe sobre pessoas que ainda nem atingiram a maioridade:

Por que você precisa ler? Porque o livro vai muito além do embate analógicos VS digitais ao propor questionamentos relevantes para o desenvolvimento desta geração hoje e seus impactos no amanhã. Por exemplo: qual o significado de IDENTIDADE para uma geração que possui diversos avatares? PRIVACIDADE é uma questão relevante? Qual o conceito de SEGURANÇA em um mundo 100% on? Qual o impacto da linguagem dos games e da internet nas tarefas cotidianas, no aprendizado e na criatividade? Qual o futuro profissional, social e psicológico dessa geração?

Um trecho incrível: “Nativos digitais estão vivendo mais em redes públicas. A consequência é que as versões da identidade de uma garota nativa digital serão compartilhadas em um contexto – talvez um contexto semi-particular como um grupo fechado em uma rede social ou uma ilha no Second Life – são possivelmente combinadas com outras versões de sua identidade em outros contextos. [...] Quando ela troca uma plataforma por outra, sua identidade antiga não morre, mas se torna parte da sua complexa noção de sujeito, ao menos a que é percebida pelo outro.”

3. THE INFORMATION DIET, Clay A. Johnson

Após alguns anos trabalhando com política em mídias sociais – Clay Johnson é mais conhecido como estrategista central da campanha online de Barack Obama em 2008 -, e tentando diferentes dietas para perder peso, o autor chegou a uma associação muito lúcida: estamos lidando com a informação da mesma forma que os obesos re relacionam alimentos. Somos consumistas, escolhemos o saboroso ao nutritivo e, além de tudo, culpamos a própria comida, ou melhor, a informação.  Por isso, Johson propõe que o nosso problema não é excesso de informação (“information overload”) mas sim um consumo excessivo e pouco consciente da informação (“information overconsumption”). O vídeo-trailer do livro dá uma ideia bem deste ponto de vista:

Por que você precisa ler? Porque o livro trata o consumo de informação de maneira lúcida e menos extremista que o Nicholas Carr em “O que a Internet está fazendo com os nossos cérebros – Geração Supercifial”. Além disso, The Information Diet traz ainda algumas propostas e ferramentas para ajudar a melhorar o consumo diário de conteúdo, bem como nossa própria produtividade.

Um trecho incrível: “É bom desconectar – todo mundo precisa de boas férias. Mas desconectar-se , “sabáticos da internet”, “férias das mídias sociais” e “faléncias dos emails” são formas de evitar o verdadeiro problema: nossos hábitos ruins. Pergunte a qualquer nutricionista e eles lhe responderão que uma dieta não se trata de parar de comer, mas de mudar seus hábitos de consumo.”  “Vamos começar devagar. Tente trabalhar em períodos de cinco minutos com intervalos de um minuto ao longo dos quais você pode fazer qualquer coisa – abrir o Facebook, olhar o twitter ou checar mensagens no celular – tudo, menos ver seus emails. Ao longo de uma hora, tente trabalhar nesses ciclos cinco vezes e então pause seu cronômetro. Levante-se e alongue suas pernas, vá ao toalete. Lembre-se: ficar sentado está lhe matando.”

4. A WHOLE NEW MIND: WHY RIGHT-BRAINERS WILL RULE THE FUTURE, Daniel Pink

O livro do Daniel Pink é o mais antigo da lista [2006], mas acredito que continue sendo muito inspirador para  entender um mundo que valorizará, cada vez mais, a capacidade criativa do indivíduo. Ao longo de suas pesquisas sobre a chamada “Era Conceitual”, o autor destaca as 6 habilidades fundamentais para o sucesso profissional e satisfação pessoal em um contexto de liquidez e incertezas: Design, Narrativa, Sinfonia, Empatia, Lúdico e Significado.

Por que você precisa ler?Porque o entendimento das habilidades criativas apresentadas por Daniel Pink te ajudam a entender a importância de conceitos como transmedia, intuitividade, imagetelling, design thinking e até o famigerado storytelling. Abaixo um mindmap muito simpático sobre os conceitos do livro:

fonte: Austin Kleon

Se você não viu, também vale assistir a visão do autor sobre motivação, pesquisa que ele explora em seu livro Drive. Aqui o mapa visual ilustrado pela Cognitive Media:

Um trecho incrível: “Três forças estão inclinando as estatísticas a favor do pensamento com o lado direito do cérebro. Abundância atendeu às necessidades materiais – e até as ultrapassou -, de milhões, aumentando o significado da beleza e acelerando a busca individual por significado. A Asia passou a desempenhar grandes quantidades de trabalho rotineiro, de colarinho branco, direcionado pelo lado esquerdo do cérebro através de custos cada vez mais baixos, forçando ‘trabalhadores do pensamento’ a dominar habilidades que não podem ser entregues por aqueles que estão do outro lado do oceano. A Automação passou a afetar o trabalhadores de colarinho branco da mesma forma que afetou trabalhadores de colarinho azul, forçando profissionais guiados pelo lado esquerdo do cérebro a desenvolver aptidões que computadores não possam  fazer melhor, mais rápido ou mais barato.”

5. O PODER DO HÁBITO, Charles Duhigg

Injustamente classificado como auto-ajuda no Brasil, o livro do jornalista Charles Duhigg traz um profundo trabalho investigativo sobre pesquisas e estudos científicos sobre a formação dos hábitos. Além disso, Duhigg também reuniu exemplos inspiradores de instituições e empresas que foram capazes de transformar hábitos individuais para aumentar sua relevância.

Por que você precia ler?  Porque o autor conseguiu simplificar a formação de um hábito em um esquema simples e direto, que pode inclusive ser adaptado a diferentes situações, sem ser simplista. Enquanto discute-se força de vontade e ideais de felicidade, Duhigg argumenta que o coração dos sucessos e fracassos é o entendimento científico e psicológico dos hábitos. O trailer do livro explica isso de forma mais didática:

Um trecho incrível:“Economistas e administradores estão acostumados a enxergar empresas como lugares idílicos em que todos são comprometidos com um objetivo comum: gerar a maior quantidade de dinheiro possível. No mundo real, não é assim que as coisas funcionam. Em- presas não são grandes famílias nas quais todos colaboram juntos e felizes. Na verdade, a maioria dos locais de trabalho são feudos em que executivos competem por poder e crédito, geralmente através de táticas secretas para fazer com que suas performances pareçam superiores às dos seus rivais. Departamentos competem por recursos e sabotam outros departamentos para roubar sua glória. Chefes colocam seus subordinados uns contra os outros para que ninguém seja capaz de arquitetar um golpe de estado. Empresas não são famílias. São campos de batalha em guerra civil. Mas apesar dessa capacidade de gerar estados de guerra, a maioria das empresas são relativamente pacíficas, ano após ano, porque elas possuem rotinas – hábitos – que geram tréguas capazes de isolar rivalidades durante tempo o bastante para que o trabalho seja feito.”

This Will Make you Smarter, Born Digital, The Information Diet, A Whole New Mind e O Poder do Hábito. Em uma primeira camada, esses 5 livros são investigações  que nos ajudam inclusive a entender – e conceituar – o que está acontecendo no mundo ao nosso redor, principalmente no que diz respeito ao contexto digital. Mas também são livros que nos fazem refletir sobre o futuro do sujeito, das relações, do pensamento, do consumo de conteúdo, da tecnologia, das dinâmicas com marcas e produtos, das cidades e de diversos outros temas. Espero que você tenha uma boa leitura! Ah sim, se tiver um livro incrível para compartilhar, os comentários estão ai para isso.

19 Comentários
Moda
22 de março de 2013 por andre

HIPERSAZONALIDADE E SPFW

“Achei tudo lindo, mas acho que ele errou a estação”, “ai, mas isso não tem nada a ver com o verão!” foram alguns dos comentários que ouvi quando assistia aos desfiles do João Pimenta e do Alexandre Herchcovitch. Fico me perguntando qual o real impacto do conceito de “estações” na vida das pessoas hoje.

Nos últimos anos as mídias sociais e blogs aceleraram consideravelmente o fluxo de ineditismo em Moda e Beleza (e de todas as demais indústrias). O ritmo de aceleração gera um contexto de HIPERSAZONALIDADE (hiper, de “para além de”), um fluxo de novidades contínuo, como se uma nova season ou tendência surgisse todos os dias – ou a cada minuto. Assim, as definições de primavera/verão ou outono/inverno tornam-se irrelevantes no cotidiano à medida que as pessoas querem o instante já.

Moda é um universo que valoriza a fugacidade por natureza. No entanto, a aceleração da hipersazonalidade provoca a indústria a se reinventar para continuar despertando desejo e encantamento nas pessoas. As marcas de fast-fashion já se beneficiam desse contexto ha muito tempo, por isso o ritmo de lançamento de novas coleções tornou-se muito mais ágil, inclusive para lançar coleções relacionadas a contextos como a H&M Brik Lane Bikes collection:

Em contrapartida, grandes criadores tem sido profundamente impactados por esse aumento de velocidade. Indício disso é a opção de Reinaldo Lourenço e Glória Coelho “pularem” essa edição da semana de moda paulistana para não prejudicar a qualidade criativa de seus trabalhos. O histórico desfile de Jum Nakao no SPFW de 2004 com modelos vestidas com roupas de papel é dos grandes marcos na discussão sobre fugacidade e evanescência. Intitulado “A Costura Invisível”, esse desfile é uma obra de arte que sempre vale assistir novamente:

Por outro lado, outras marcas estão desenvolvendo novos modelos de comercialização para aproveitar tal contexto. Exemplo clássico foi desfile da Burberry coleção de inverno 2013/14 no qual a marca apresentou o serviço “runway made to order”. Enquanto assistiam ao desfile da nova coleção – que também foi transmitido online -, os consumidores puderam escolher e encomendar suas peças favoritas, transformando a velocidade de entrega em uma nova expressão de luxo. Além disso, é importante entender que as pessoas não fazem distinção entre online e offline. A Burberry também lançou casacos e bolsas que possuem chips que podem ser acionados pelo celular, caso sejam perdidos.

Outro exemplo emblemático é a Hointer, loja localizada de Seatle que se define como a reinvenção do varejo. Ao entrar no estabelecimento, os consumidores podem selecionar suas peças favoritas pelo app da marca e elas são enviadas para o provador em 30 segundos. Se gostarem do que experimentarem, basta inserir o cartão de crédito nos próprios provadores e levar as roupas para casa.

O grande desafio para a indústria é pensar na Hipersazonalidade como oportunidade criativa e de negócios. No lugar de duas grandes coleções anuais, talvez seja possível pensar em mais coleções em quantidades menores ou mesmo que se aproveitem de novos modelos de distribuição e comercialização. Grandes players como  Burberry, MAC, ASOS e C&A são exemplos de marcas que já estão aproveitando essa tendência.

A cobertura do SPFW está sendo feita por Eduardo Biz, Nina e André. 

1 Comentário
Arte, Comportamento
06 de março de 2013 por andre

BRASIL POR MASSIMO VITALI

Essa semana a revista do New York Times publicou uma edição especial com fotos Massimo Vitali sobre o Brasil. A série traz belíssimas imagens de diferentes contextos: a poesia desértica dos Lençóis Maranhenses; o embate entre barracos e piscinas de Paraisópolis em São Paulo; o Ceagesp, também em SP e o Vidigal no Rio, um dos endereços mais sublimes do mundo. Especialista em fotografar multidões e belas composições cromáticas, Massimo nos permite uma contemplação visual da imensidão brasileira.

Comente