Arquivos de: Carla Mayumi

Comportamento, Ponto e Vírgula, Tops
16 de maio de 2014 por Carla Mayumi

Jovens + Política + Sonhos

Post Mágico

Quais são os sentimentos que vêm à sua cabeça quando você ouve a palavra “política”? É isso que a gente também quer saber.

Desde 2011 estamos aprofundando olhar sobre o jovem brasileiro e sua relação com o Brasil, buscando entender o jovem como um ser social e como o “espírito do tempo” que estamos vivendo. Quando aconteceram as manifestações na maior parte do Brasil em junho do ano passado, um sentimento novo se manifestou e nós ficamos inquietos com os pontos de interrogação que pipocaram por aí e também nas nossas cabeças. O que tudo isso quis dizer? O que a juventude brasileira quer dizer quando levanta cartazes dizendo que “saiu do Facebook” ou que “isso não me representa”? Qual o legado das manifestações nas mentes jovens que lá estiveram?

A geração protagonista, do “vai lá e faz”, deu sinais de que é, sim, um ser político. Mas o que mais está por trás dessa era onde o mundo todo está se expressando a favor de mudanças?

Acreditamos que está mais do que na hora de se falar sobre Jovens + Política + Sonhos. Motivados pela inquietude e pela responsabilidade que sentimos como empresa que se propõe a entender o jovem, lançamos o Sonho Brasileiro da Política. Uma pesquisa que tem suas origens em 2011, com o primeiro estudo Sonho Brasileiro.

Desde outubro trabalhamos no desenho do novo projeto e na captação de recursos para que o projeto seja bancado 100% por pessoas físicas. Colocamos o time em campo em janeiro para a realização desse novo projeto, mesmo sem ter levantado todo o dinheiro que precisamos para a realização do projeto.

Uma pesquisa nacional, suprapartidária e sem fins lucrativos, o Sonho Brasileiro da Política terá todo o seu resultado disponível publicamente e acessível de forma simples e direta. Nosso objetivo é contribuir para o debate político, disseminando as ideias e ações dos jovens. Nossa fase qualitativa já passou por Belém, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Você já pode ter um gostinho de nossas viagens no blog sonhobrasileirodapolitica.com.br.

Ainda temos muita estrada e trabalho pela frente. Se você, como a gente, deseja ver uma nova pesquisa no ar ainda em setembro desse ano, faça parte desse movimento. Qualquer pessoa pode colaborar – os valores vão de R$ 10,00 a R$ 5.000,00 – e receber algo em troca além da pesquisa.

Nossa campanha de financiamento coletivo está no Catarse e quer arrecadar R$ 200 mil reais (a maior meta da plataforma até hoje!). O projeto todo custa R$ 800 mil e até agora conseguimos captar aproximadamente R$ 550 mil, apenas com doações de pessoas físicas. Sabemos que é um valor alto, e mesmo assim não estamos tendo lucro algum! Tudo isso serve para custear a pesquisa. Os R$ 200 mil servem para darmos mais corpo à fase quantitativa, lançarmos uma plataforma online para disseminação dos resultados e ajudar com os custos da pesquisa qualitativa. Destes R$ 200 mil, parte tem uma destinação para os custos financeiros do Catarse e parte vai para pagar a produção e envio das contrapartidas dos apoios.

 

Para tratar de política, precisamos de uma isenção que só é possível com um financiamento independente. Além disso, o Catarse é mais do que uma ferramenta de viabilização de projeto, é um reflexo do que acreditamos: participação, transparência e colaboração. Apoie, compartilhe, faça parte do Sonho Brasileiro da Política. A gente conta com o envolvimento do jovem brasileiro nessa causa que é de todos: a ressignificação da nossa política.

Outras leituras:

Acompanhe nosso blog para saber das histórias que colhemos em campo. Algumas já estão lá:

Hacker Lab: paredes rabiscadas, post-its  e a cultura hacker quebram a monotonia dentro da Câmara dos Deputados.

Meu Rio: cidadãos conectados fazendo a diferença em políticas públicas locais com alguns cliques e muita mobilização.

 

Comente
Comportamento, Tecnologia
25 de março de 2014 por Carla Mayumi

A Internet que queremos — você já pensou nisso?

Os 25 anos da World Wide Web e a relevância deste aniversário

Em 12 de março de 1989 nascia esta que é a ferramenta mais importante da Internet – nada menos que o www que você digita antes de qualquer coisa que coloca em um browser.

Você já parou pra pensar que a Internet ainda é o espaço mais aberto, neutro e democrático que temos? Aqui na Web, essa que você está usando para ler esse post e fazer tantas outras coisas, a informação gerada e lida pelas pessoas se organiza de forma espontânea e orgânica. Eu escrevo, tenho esse endereço, você lê e faz o que quiser com isso. Dá um like, compartilha, manda pra alguém, guarda pra ler depois, assiste aos vídeos, não assiste, copia e cola um pedaço do texto, enfim… são muitas as possibilidades.

Esse é o nosso canal e pertence às pessoas; é seu e meu. A World Wide Web talvez seja a única tecnologia que já nasceu popular e dando poder às pessoas. Outras tecnologias que transformaram a sociedade nasceram inacessíveis para o cidadão comum. Algumas começaram como “luxos”, só a elite podia comprar e apenas depois isso chegava em todas as classes sociais – é o caso do carro. Algumas começaram no universo acadêmico, no governo, em instituições com poder econômico – como o próprio computador.

Minha querida World Wide Web nasceu distribuída e sendo “de graça”. Mesmo lá no comecinho quando isso tudo ainda era um bebê, você acessava o endereço de um portal e tinha acesso a notícias. Clicava em um site de uma loja e tinha informações sobre seus produtos. Mesmo com apenas 25% da população global tendo acesso à Internet, ela está lá e teoricamente pode ser usada por qualquer um.

Quem criou a World Wide Web foi o cientista britânico Sir Tim Berners-Lee. Como fã dele que sempre fui, nem acreditei quando vi que teria a oportunidade de vê-lo falando ao vivo, dois dias antes do “aniversário”. Isso aconteceu no evento de tecnologia onde eu estava, o SXSW. Em sua palestra, que foi — claro — sobre o aniversário do “filhote”, ele fez alguns pedidos para todos. Sim, para todos: para mim e para você que me lê.

Antes de entrar no pedido do “pai da Internet”, vale saber um pouco mais sobre ele: Berners-Lee podia facilmente ter sido um dos milionários da grande rede. Podia ter criado algo que tivéssemos que pagar para usar. Mas ele nos presenteou com a tecnologia que nos abre um universo incrível de informações a um clique.

“No coração da Web está o link, representado por uma sequência banal de letras, aquelas que começam com http://. Quando linkamos a informação na Web, temos a capacidade de descobrir fatos, ter ideias, comprar e vender, e criar relacionamentos em uma velocidade e escala inimagináveis na era analógica. Estas conexões transformam eleições presidenciais, derrubam governos autoritários, dão força a grandes negócios e enriquecem nossas redes sociais.” (Tim Berners-Lee)

Na chegada da World Wide Web à vida adulta, o pedido de Sir Tim Berners-Lee me tocou fortemente. Me sinto na responsabilidade de reproduzi-lo aqui e pedir que todo mundo que eu conheço faça o mesmo, pelo futuro da Internet:

O alerta faz referência à forma como poderes estabelecidos estão tentando manter e expandir seus territórios de dominação a partir da Web. Ele fala para lutarmos pela Internet que queremos e propõe algumas visões do que pode defini-la como o que queremos para seu futuro: como forma de livre expressão (sem censura), acessível, universal, aberta, neutra (sem controles comerciais), com a privacidade controlada pelo indivíduo e inovadora. Segundo ele, sem estas características a Internet deixa de estar nas nossas mãos e passa a ser ainda mais controlada por poderes políticos e econômicos, de tal forma que pode mudar sua neutralidade e participação, afetando diretamente a relação das pessoas com a Web. Isso é sério, muito sério. Se essa relação mudar, vai ser muito mais difícil termos transparência de dados, evoluir a democracia, ter acesso rápido a evoluções científicas, viver conectados em comunidades e incentivar a diversidade cultural.

O idioma inglês tem uma expressão intraduzível que exprime muito bem a forma como vemos a Internet: to take for granted. Vemos a Internet como algo garantido, que está ali e sempre estará. A advertência que está no ar é que a coisa não é bem assim – pois talvez amanhã ela não esteja. Sinceramente, me arrepia pensar nisso.

Depois de ver Tim Berners-Lee, saí da sala emocionada, pensando nisso tudo e com a cabeça a mil em função de outras duas personalidades que falaram no SXSW: Julian Assange e Edward Snowden. Ambos falaram ao vivo dos lugares onde estão — Assange exilado no Equador, Snowden na Rússia. O vídeo de uma hora da entrevista virtual com Snowden pode ser assistida neste vídeo. O blog Inside fez a incrível tarefa de transcrever toda a entrevista (em inglês — quem sabe algum brasileiro ajuda a transcrever para o português, hein?).

Mas as reflexões não pararam aí. Ainda no SXSW, fui assistir ao filme sobre a vida de Aaron Swartz (The Internet’s Own Boy — The Story of Aaron Swartz), que foi financiado coletivamente e produzido em uma velocidade incrível após a sua morte.

Aaron Swartz suicidou-se aos 26 anos, em janeiro de 2013. Estava sendo julgado e corria o risco de ser condenado a mais de 30 anos de prisão e ter de pagar até 4 milhões de dólares. Seu crime: baixar arquivos de artigos acadêmicos que eram comercializados por uma empresa privada.

Mas quem foi Aaron Swartz? Considerado um gênio hacker, ativista político e defensor de dados abertos, a trajetória dele começou cedo. Com 14 anos, colaborou com um projeto que criou a especificação do RSS, que permite uma atualização automática de informações. Ele participava do grupo de forma virtual e ninguém sabia que tinha apenas 14 anos. Quando revelou-se, foi difícil para o grupo acreditar que toda a contribuição na programação daquele código tinha sido feita por um menino. A partir daí, o garoto-prodígio alçou grande vôos, como era para ser: ajudou Lawrence Lessig com a arquitetura do seu então projeto Creative Commons, que atualmente pauta a forma como se encara o direito autoral na Internet. Além disso, trabalhou com o próprio Tim Berners-Lee no World Web Consortium e no MIT.

A jornada de Aaron seguiu com a dedicação ao projeto The Info, que facilita a busca de arquivos disponíveis mas muito difíceis de acessar, como documentos arquivados de processos judiciais. Foi um dos fundadores do Reddit, uma rede social onde as pessoas publicam notícias que estão lendo na Web. Em 2012, foi um grande ativista nos protestos contra o SOPA/PIPA. Ou seja, tudo que ele construiu está ligado à forma como consumimos informação – sua luta em diferentes frentes era para que dados fossem abertos e livres. Aqui tem um trechinho do filme que fala dessa parte da vida de Aaron:

É a partir daí que a história começa a complicar. Aaron revoltou-se quando descobriu que muito do conteúdo valioso sendo produzido nas universidades era comercializado e as pessoas não podiam ter acesso a ele sem gastar uma quantia considerável de dinheiro. Para ele isso não podia ser assim. No seu Guerilla Open Access Manifesto, já havia declarado:

“There is no justice in following unjust laws. It’s time to come into the light and, in the grand tradition of civil disobedience, declare our opposition to this private theft of public culture.” (Não há justiça em se seguir leis injustas. É hora de fazer vir a luz e na grande tradição da desobediência civil, declarar nossa oposição a este roubo privado da cultura pública)

Ele resolveu hackear o sistema do JSTOR, um site que comercializa artigos acadêmicos. Não conseguia aceitar que aquele tipo de conteúdo fosse pago. Baixou milhares de arquivos, mas o sistema de segurança da Jstor detectou o download dos arquivos e bloqueou o IP, e então Aaron mudou sua tática. Ligou seu computador diretamente na rede do MIT (universidade dedicada à pesquisa ligada a tecnologia) durante alguns dias e o deixou ali, baixando os arquivos. A universidade encontrou o laptop e instalou uma câmera na salinha para flagrar quem estava por trás da ação hacker. Alguns dias depois, Aaron foi preso. Os arquivos nunca saíram do seu computador e foram devolvidos ao MIT.

O filme conta toda a história com uma visão bem crítica. Aaron Swartz é considerado pela maioria dos pensadores da Internet – alguns bem importantes como o próprio Lessig e Berners-Lee – um grande herói do ativismo da Web e dos dados abertos. Muitas questões são abordadas no filme: por que o MIT não imediatamente capturou o laptop de Aaron mas esperou alguns dias até ele aparecer e ser flagrado pela câmera? Por que o governo americano, através do FBI, deu tanta atenção ao caso, já que Aaron não chegou a fazer uso dos dados que estava baixando? Por que o caso seguiu mesmo depois da Jstor ter retirado suas queixas e o MIT nunca ter solicitado que houvesse uma investigacão criminal? Por que o MIT nunca se pronunciou durante o processo, ainda mais por ser uma instituição que prega a favor dos dados abertos?

Assim, fascinada e um pouco em choque com toda essa informação é que me foi caindo a ficha. Acredito que estamos vivendo uma revolução silenciosa de proporções gigantescas, que se dá em lugares fechados em frente aos computadores. Com diz uma amiga, me senti “vivendo a história ao vivo”, pois quando olhei à minha volta percebi o que estava presenciando: um evento com o clamor de um dos inventores da Internet mais Snowden, Assange, Swartz. Os três últimos são mártires dessa revolução silenciosa. Cada um do seu jeito e em diferentes cenários, contextos e dimensões, eles estão a favor de uma mesma causa, a da Internet livre, aberta, transparante, não-comercial e sem censura. A mesma causa de Sir Tim Berners-Lee. Temos algo grande aí, não?

Por acreditar que essa causa deveria ser de todos é que escrevo este post e compartilho o pedido de Berners-Lee, e faço questão de deixar a versão original em inglês:

“Millions of people together have made the Web great. So, during the Web’s 25th birthday year in 2014, millions of people can secure the Web’s future. We must not let anybody – governments, companies or individuals – take away or try to control the precious space we’ve gained on the Web to create, communicate, and collaborate freely.” (Milhões de pessoas juntas fizeram uma grande Web. Então, durante seu aniversário de 25 anos em 2014, milhões de pessoas precisam assegurar o futuro da Web.)

Novas questões estruturais começam a surgir: será que não é hora de uma declaração universal de direito à Internet? Nossos políticos e advogados nasceram na era pré-Internet ou na transição do analógico para o digital. Será que eles têm consciência e conhecimento do que é de fato a Internet para estarem decidindo e julgando sobre ela? Termino com mais essa frase:

“Precisamos que nossos advogados e políticos entendam de programação, entendam o que se pode fazer com um computador. Também precisamos revisitar muito da estrutura legal, leis de direito autoral – as leis que colocam as pessoas na prisão que foram criadas para proteger os produtores de filmes… Nada disso foi criado para preservar o debate entre indivíduos nem a democracia que precisamos para governar o país.” (Tim Berners-Lee)

Outras leituras e referências:

O livro Hacking Politics fala sobre como ativistas conseguiram fazer com que o projeto da SOPA não fosse aprovado

Guerilla Open Access Manifesto, de Aaron Swartz

Carta endereçada ao Presidente do MIT por um grupo de trabalho da universidade que estudou a participação do MIT durante o processo criminal conduzido contra Swartz

Matéria sobre a caminhada que Lawrence Lessig realizou em janeiro de 2014. Foram 120 quilômetros enfrentando mais de 20 dias de chuva e neve em memória de Aaron e pela transparência de dados e reforma política nos Estados Unidos. “The only way we’re ever going to get fundamental reform is if we can inspire presidential candidates to make this a central — maybe the central issue — that they want to talk about” disse ele em entrevista ao Huffington Post.

Texto de 2012 do Baixa Cultura que já levantava a questão da internet livre.

2 Comentários
Comportamento, Tecnologia
18 de março de 2013 por Carla Mayumi

Imprevisibilidade é bom e eu gosto

Flickr de Luca Pedrotti

Conheci uma pessoa ontem. Hoje, ela sabe como são meus amigos, todos os lugares que visitei nos últimos anos, onde e quanto corro durante a semana e nos finais de semana. Sabe onde passei meus últimos anos novos, meus Natais, minhas férias. Sabe que tipo de roupa eu uso em cada ocasião e quais todos meus assuntos preferidos. Sabe o tipo de frase e o tipo de foto que me chama a atenção.

Ainda bem que essa história é parcialmente fictícia. Não conheci alguém ontem. Mas muitas pessoas que conheço muito pouco ou quase nada sabem tudo isso, mesmo.

Recentemente passei a refletir sobre o que significa estar tão presente nas redes sociais. Isso aconteceu porque conheci uma pessoa interessante que não era minha amiga no Facebook nem no Instagram. Fiquei curiosa. Como a pessoa é? Do que gosta? Que tipo de fotos ela posta? No que dá likes? E no meio desse processo de ficar curiosa veio junto uma sensação de como era bom não saber tudo isso sobre a pessoa assim quase num segundo. E nessa linha de pensamento, continuo a reflexão: será que é legal esse novo tempo das coisas, onde instantaneamente a gente já sabe tanto?

Não era legal conhecer uma pessoa nova e ir lhe descobrindo devagarinho, aos poucos? Bater um papo num almoço, ou em vários almoços, jantares e tudo ir sendo revelado como boas surpresas e com muitas conversas? “Nossa, gostamos do mesmo filme, que legal!”. Observar uma estante, quando se visita uma casa pela primeira vez, e passear os dedos pelos livros que a pessoa tem. Ter revelações sobre detalhes do seu jeito de ser, contínua e gradualmente?

Ainda nos anos 2000, uma das belas formas de se descobrir alguém novo era começar a ter acesso aos seus álbuns de foto. Fotos de família, de amigos, de férias. Hoje, os álbuns estão ali, o tempo todo, sendo alimentados dia-a-dia relatando o que a gente fez, com quem esteve, onde e contando inclusive nossos pensamentos.

Já me vi numa conversa com um amigo novo e falei “já fui para o lugar X” e a pessoa, sem pensar, respondeu “sim, eu vi uma foto”. Fui bisbilhotar meus próprios álbuns e fotos e cheguei à conclusão de que para chegar naquela foto, que era bem antiga, a pessoa tinha passado praticamente por todas as fotos que eu tinha postado nos últimos anos. Bem, e estou longe de dizer que nunca fiz isso. Certamente já fui “stalker” várias vezes.

Quem me conhece sabe muito bem que adoro tecnologia. Sou daquelas pessoas que pergunta “qual seu modelo de telefone?”. Baixo aplicativos compulsivamente. Compro tanto online que tenho até um blog sobre isso. Viajo para participar de eventos sobre tecnologia. De forma alguma esse texto quer ser contra essa maravilha – a tecnologia – que nos transforma tanto. A transparência tem seu lado bom. Só questiono o quanto não estamos nos deixando levar sem limites por essas ferramentas.

Fui um pouco além da reflexão e comecei a mudar alguns comportamentos. Meu primeiro movimento foi não adicionar a tal pessoa interessante em nenhuma rede. Não sei quem são seus amigos, onde estudou, que lugares do mundo conhece. E estou gostando dessa sensação de não saber.

O segundo movimento foi “desfazer amizades” com pessoas que eu não conheço pessoalmente. Ficava olhando alguns nomes e me perguntando “quem é essa pessoa mesmo? e onde eu estava com a cabeça quando adicionei alguém com quem não tenho nenhum amigo em comum?”. Minha quantidade de “amigos” foi reduzida em mais de cem. Ufa. Nada contra, devem ser pessoas maravilhosas, mas elas não precisam me conhecer tanto assim.

Também desinstalei o app do facebook do meu smart phone. Sem pensar muito. Dois toques, foi-se. Tem sido um alívio acordar de manhã sem ter que resistir ao impulso de, sem levantar da cama, começar a ver o feed de notícias.

Outro dia me peguei pensando em ex-namorados ou amigos antigos, daqueles que não se sabe sobre ou vê há muitos e muitos anos. Imaginei estas pessoas – agora quase estranhos novamente – entrando na minha casa hoje, olhando minhas estantes, abrindo meu guarda-roupa, vendo como mudei meus gostos, meus objetos, a decoração da minha casa.

Aos poucos é isso que vai acontecendo, sem nos darmos conta. O que nos levou a isso, do ponto de vista psicológico, sinceramente, ainda não estudei sobre. Imagino que seja algo relacionado a um desejo de se mostrar, algo remotamente da mesma família do exibicionismo de alguém que participa do BBB. Termino postando esse vídeo, que já rodou bastante por aí, sobre a internet e segurança de informações. Me divido entre achar o vídeo um pouco sensacionalista (tipo teoria da conspiração) e ao mesmo tempo recear que possam existir intenções não tão nobres para quem está ali nos observando o tempo todo.

4 Comentários
Educação
19 de outubro de 2012 por Carla Mayumi

Uma das magias da Green School

Eu e a professora Mona, da segunda série

Passei uma semana em uma escola chamada Green School que fica em Bali, na Indonesia. Vim até aqui em uma busca por novos modelos de educação, que depois de uma jornada por 12 escolas, em parceria com mais três amigos, vai virar um livro. A ideia deste livro nasceu de um sonho e tem um propósito claro nas nossas cabeças: inspirar quem está, como a gente, em busca de novas respostas – e talvez novas perguntas – sobre educação.

Depois de 5 dias na Green School entrevistando toda a comunidade que faz parte do ambiente escolar (o diretor, os coordenadores pedagógicos, pais, alunos e professores), posso dizer que esta não é apenas uma escola viva, mas uma experiência educacional em pleno movimento. Ela vem passando por mudanças desde que começou sua trajetória em 2008. Além de ensinar os alunos a aprender fazendo, também aprende ao se transformar. De uma forma geral, percebo que a escola, essa entidade viva que muda ao perceber o que poderia ser melhor, parece muito consciente de seus movimentos.

Quando perguntei ao diretor da escola, Andy, qual seu sonho para a Green School, me emocionei ao escutar um sonho que alguns poderiam até achar pouco ambicioso para a escola que recebeu o prêmio de “Greenest School in the World” (Escola Mais Verde do Mundo) e que atrai pessoas do mundo inteiro que se mudam para Bali só para ter seus filhos estudando aqui – quem pode pagar os U$ 1,000/mês que a escola cobra. O sonho não é conquistar o mundo, mudar o sistema educacional do planeta ou espalhar suas ideias pelos cinco continentes. Andrew me respondeu simplesmente “eu quero fazer com que isso aqui fique cada vez melhor e melhor” (better and better, disse-me ele).

A magia do espaço feito de bambu
A magia do bambu

É muito difícil definir a “fórmula” da Green School.  E aí está parte de sua beleza – indefinível, cheia de segredos que se relevam aos poucos, muito aos poucos, como as estruturas de bambu que a cercam. São tantas experiências, tantos espaços, tanto movimento que parece difícil entender como esse organismo funciona.

Uma das coisas que percebi nas conversas é que aqui existe uma convivência muito pacífica da estrutura com a liberdade. Alguns dos grandes pensadores/fazedores de educação que eu admiro, como o A. S. Neill e o Rudolf Steiner, baseiam muito de seus pensamentos e práticas nessa questão.

Bamboo Freedom ?
Estrutura com liberdade

Ouvi relatos de alunos falando que “os professores fazem o que quiserem” – esta é a percepção deles. Assim como professores falando que “os alunos escolhem as disciplinas que querem estudar”. As aulas na high school, nosso ensino médio, pela primeira vez esse anos são modulares. Ou seja, cada aluno escolhe de um leque enorme as 7 matérias que vai querer estudar pelas próximas 5 semanas. Uau! Uma liberdade controlada que dá a sensação, para o aluno, de que ele está construindo seu conhecimento. Os alunos falam maravilhados da experiência, e têm um professor que escolhem como seu mentor que possui a responsabilidade de orientá-lo para que faça as melhores escolhas dependendo do que ele quer aprender. Tão simples e ao mesmo tempo tão complexo: como saber o que você quer aprender se você não tiver uma ideia do que quer na vida?

Me deu um click quando aprendi que por trás dessa liberdade existem algumas garantias de que as coisas vão acontecer. A liberdade é absolutamente verdadeira, mas conta com algumas estruturas de pensamento e ferramentas de trabalho que oferecem segurança para que tudo não fique aberto ou democrático demais. Os professores se referem a essa combinação de forma positiva. A Mona, nossa professora em um artigo anterior  nos disse: “seria mais difícil se fosse completamente aberto, que alguém falasse: você pode fazer qualquer coisa que quiser.”

As palavras “livre” e “liberdade” foram faladas por quase todo mundo muitas e muitas vezes. O ambiente aberto faz com que alguns dos alunos e professores apontem para as paredes de bambu quando falam estas palavras. Pensando em tudo isso e lembrando do cenário da Green School penso que aí está parte da fórmula mágica. John Hardy, quando teve a visão da escola, encontrou aqui em Bali o material que dá o corpo para essa mentalidade: o bambu. Um material local, claro e iluminado, perfeito para criar a estética que traduz perfeitamente a ética da escola. Quando eu perguntava para as crianças menores do que elas mais gostavam, sendo muito menos racionais e mais intuitivas, me respondiam de pronto que o bambu e a atmosfera aberta eram a coisa mais legal da escola. Para mim, uma pessoa adulta e com as referências que vêm do mundo de concreto, urbano e corporativo, a sensação física que se tem estando na Green School é de que os buracos e passagens de luz e ar das estruturas de bambu criam espaço para a liberdade que se precisa sem que a estrutura aprisione.

Falando em estrutura, termino lembrando de uma frase que ganha cada vez mais sentido para mim, do Peter Senge, que diz: “structures of which we are unaware hold us prisoners.”  (tentando traduzir seria algo assim: “as estruturas que não percebemos nos aprisionam”)

Para quem nunca viu, vale uma olhadinha no vídeo do John Hardy onde ele relata a visão de seu sonho.

TED – John Hardy

O projeto do livro, sem fins lucrativos e com distribuição gratuita, está no Catarse.

E temos um blog que vai sendo alimentado enquanto nossa jornada acontece.

Comente
Comunicação, Ponto e Vírgula
23 de junho de 2012 por Carla Mayumi

Uma marca mobilizando com tricô

Post Mágico

Eu sempre gostei dessa marca inglesa de bebidas naturais, a Innocent Drinks. Mas eles me conquistaram de vez quando topei com a campanha que vou contar aqui, chamada The Big Knit.

O vídeo explica tudinho, mas é em inglês. Mas vale a pena dar uma olhadinha, dá pra entender boa parte da coisa.

Pra quem não entendeu tudo, o que acontece é o seguinte: eles convidam pessoas para tricotar touquinhas e chapeuzinhos para as embalagens de seus sucos e smoothies. Recebem esse material (ano passado foram 650.000 peças!!!!!) e “vestem” a bebida em alguns supermercados parceiros. A partir daí, 23 cents (uns R$ 0,80) ca cada garrafinha vendida é revertido para uma ONG que ajuda pessoas idosas a se aquecerem no frio do inverno, que lá na Inglaterra é bem mais enregelante que aqui no Brasil.

Eles começaram a ação em 2003 e levantaram £ 10,000.00. Ano passado (2011) foram £ 1 milhão!!! (para saber em Reais uma conta aproximada é multiplicar esse número por 3). Acho bonita a ação, maravilhoso o envolvimento das pessoas e principalmente gosto da continuidade da ação. Marcas que decidem “fazer o bem” uma vez que outra, e com ações que mudam a cada “campanha” deixam de fazer coisas grandiosas como esta. Adoro a forma como a Innocent Drinks apostou nessa ação e merecidamente viu ela crescendo ano a ano, transformando-se nessa mobilização gigante que envolve a minha paixão, o tricô!

Imagina chegar no supermercado e no meio daquelas gondôlas sem vida e encontrar produtos com touquinhas feitas por milhares e milhares de pessoas – detalhe: uma diferente da outra – na garrafinha. E saber que ao comprá-la ainda está fazendo uma adoção. Cute.

2 Comentários
Comportamento, Educação, Ponto e Vírgula
07 de junho de 2012 por Carla Mayumi

Quando compartilhar espaço vira uma nova ferramenta

Post Mágico

Acho uma bela microrrevolução essa proliferação dos espaços de co-working.

Vou dar uma volta grande num outro assunto e depois volto pro co-working. Li recentemente em um livro uma frase que diz que para mudar uma mentalidade a coisa mais simples a fazer é criar novas ferramentas. Concordo muito com isso, e a primeira associação que fiz foi com o Facebook (ok, ok, foi o Orkut que começou tudo isso).

Imagine se tivesse vindo alguém e dito pra gente: vamos passar a comunicar tudo aquilo que a gente faz e até o que pensamos. Vamos abrir nossa rede de amigos para o mundo, para as marcas, criar um grande Big Brother das nossas relações. Vamos revelar nossos gostos através de imagens, música, vídeos, desenhos. Vamos conversar mais com pessoas que vemos pouco. Vamos nos informar através de pílulas de conteúdo. Assim, seremos mais informados, mais abertos e mais transparentes, valores dos quais a humanidade necessita para evoluir.

É mais ou menos isso o que vejo acontecendo através dos espaços de co-working. Uma baita transformação de mentalidade através de um novo tipo de comportamento – que nasce, também, de uma nova ferramenta.

Estou com esse assunto na cabeça pois recentemente viajei para Londres e Deus quis que eu ficasse sabendo da existência (juro que não procurei) do Google Campus, o novo escritório do Google que tem sete andares, e dentre eles, seis são destinados a co-working. Que tal? Trabalhei numa destas mesas da foto.

Google Campus / London

O que muda com o co-working: fisicamente caem as paredes e estruturas rígidas, o espaço é mais líquido, como diria Zygmunt Bauman. Ouve-se pedaços de conversas, e elas podem ser ouvidas. As vozes são mais animadas e felizes. As pessoas se cumprimentam mais, mesmo as que não se conhecem. A colaboração nasce de forma espontânea. Os assuntos se misturam. Tudo de forma espontânea, sem alguém precisar dizer “colaborem”. “Sejam mutidisciplinares”.

Aquele espaço (material e imaterial) que não tinha função ganha importância. A intersecção, antes nula, vira um elo. No co-working muito essa valorização dos espaços, sejam eles materiais ou imateriais. Eles passam a ser ressignificados e revalorizados. Quando fica “possível” falar com um desconhecido sobre um assunto que necessariamente não era um tema em comum, os sentidos se agregam. Eu posso virar pra alguém e falo sobre design, a pessoa me responder falando sobre tecnologia e “plim!”, temos uma nova intersecção que ganha um novo sentido para ambos. Ah que maravilha se isso acontecesse nos grandesescritórios das empresas tradicionais…

Gosto destes dois sites: um AirBNB de espaços de co-working, o DeskWanted (tem até lugares no Brasil) e este que é uma revista sobre co-working.

Não me atrevo a querer criar um guia completo de espaços assim no Brasil, mas com uma busca rápida deu pra levantar alguns e ver que esse movimento está num crescendo fantástico. Listo aqui aqui os que achei bacanas, porque a preocupação com a, decoração, luz, som, espaços e conforto é fundamental. Se for pra sair de um escritório convencional, o legal é encontrar um local diferente e com uma cara mais aconchegante, né?

Porto Alegre: Nós Co-Working

Floripa: Vilaj

Curitiba: Aldeia Global / The Hub

Belo Horizonte: The Hub

Rio de Janeiro: Bees Office

São Paulo:

Ponto de Contato (desculpem-me os demais, mas esse é meu preferido em termos de arquitetura)

Ponto de Contato / SP

The Hub (também tem The Hub em Curitiba, BH, e pelo mundo afora)

Plug n Work (estive lá essa semana, fugi do trânsito e da chuva entre uma reunião e outra – fica pertinho da Berrini)

Estudio do Morro (mais voltado para artistas e designers)

Estúdio do Morro / SP

3 Comentários
Comportamento, Comunicação, Design
05 de junho de 2012 por Carla Mayumi

Café com Links

Essa semana nosso café com links transitou por universos tão diversos quanto a nova masculinidade, novos formatos de trabalho e design.

Vamos lá: homem que é homem adora barbearia. Quanto mais marrom, madeira e um toque gentleman, melhor. Exploramos diversos espaços que existem mundo afora com estas características. Esse vídeo da Monocle mostra bem do que estamos falando.

Imagem da Joe&Co, em Londres


Quem já passou por Londres lembrou que lá tem a Murdock, que já virou símbolo desse movimento “manhood “na cidade. O blog deles é legal e chama-se “The Murdock Man”.

Ainda em Londres, desviamos um pouco do assunto e lembramos da loja Labour and Wait, que tem produtos que conseguem combinar com muita classe os aspectos de simplicidade e função.



Um robô que usa restos de geladeira para fazer cadeiras? Sim, alguém já pensou nisso. Esse projeto foi apresentado na feira DMW de 2011, que acontece em Berlim (aliás, a desse ano começa hoje, 06/06). A feira tem um conceito genial: une designers de produto com projetos super avançados ou mesmo em fase experimental e promove  trocas de ideias entre os designers. Super colaborativo, super “open”.


O festival premia – em parceria com ninguém menos que o Bauhaus Archive e Museum of Design de Berlim – produtos inovadores que tiveram seus projetos enviados de mais de 30 países. Alguns dos premiados desse ano têm nomes bem instigantes: tem o “Imagination Playground” (fotinho acima), o “Future Travel” e “Emotional Dialogues”, por exemplo.

Nos encantamos também com a impressão 3D das bonecas Makie. A plataforma online apresenta um jeito bem simples e divertido de se criar uma boneca, e depois você pode encomendar a boneca de verdade, com roupinha e tudo. Ou seja, a boneca é “impressa” em 3D e vai do ambiente virtual diretamente para o ambiente físico. Aliás, essa onda da 3D printer ainda vai dar o que falar.

Semana que vem tem mais.

Comente