Categoria: Ponto e Vírgula

Ponto e Vírgula
02 de maio de 2013 por gabriela

Café da manhã com referências

Post Mágico

O café de hoje contou com referências do núcleo de Trends e do Design! Veja o que rolou:


Resignificando objetos cotidianos: esse novo instrumento musical rotaciona objetos de uso diário para gerar som a partir de suas superfícies.


Ainda no universo das mídias de música: o projeto Re:SoundBottle resignifica não objetos, mas os próprios sons cotidianos.


A cruiser é um modelo de bicicleta conhecido por ser bastante estável e fácil de pedalar, exceto quando ela está a alguns metros do chão.

Vamos recordar um pouco do telejornalismo brasileiro nessa maravilhosa entrevista com Keith Haring.


Global Rich List revela a diferença de seus bens materiais em relação ao resto do mundo.


Malaria demorou 6 meses para ser realizado e usa várias técnicas- de origami à nanquim- para contar a história do mercenário Fabiano, contratado para matar a Morte.


Apesar de seus métodos um tanto obscuros de pesquisa, Trial by Timeline é uma plataforma bem interessante. Ela analisa sua timeline do Facebook para te sentenciar segundo a lei de diferentes países.


A marca de marcadores Molotow chamou o russo Pokras Lampas para caligrafar no corpo de quatro modelos. O trabalho de Pokras é impressionante, no entanto, lamentamos a estética Playboy das fotos finais.


O próximo filme de Lars von Trier, Nymphomaniac, nem foi lançado e já criou polêmica após o diretor declarar que as cenas de sexo não seriam simuladas. Vamos esperar o lançamento para comentar mais, mas enquanto isso podemos criar previsões a partir do cartaz.


Tiger in a Jar é um projeto do casal Matt e Julie Walker. Eles fazem filmes baseados em experiências cotidianas, mas os vídeos mais legais são os de receita!

A barbearia holandesa Barber conseguiu aumentar muito o número de clientes após a campanha Tame the Beast (“dome a fera”).

 

The Gospel according to Givenchy é o nome da nova coleção de primavera/verão 2013 da Givenchy. Polêmico.

Felipe Carrelli transforma carros abandonados em instalações urbanas.

 

O projeto Seis Músicas faz playlists para cada momento do seu dia.

 


Iceber.gs é uma plataforma interessante que ainda está na fase beta, mas de tempos em tempos eles mandam convites para novos usuários.

 

Michelle Wang explorou a ideia de ilusão versus realidade para criar uma série de posters inspirado em três obras de Shakespeare: Hamlet, A Midsummer Night’s Dream e Macbeth.

 

Katie Shelly ensina receitas com infográficos ilustrados. Nada de textos, nem medidas exatas.

 


Run! é um curta animado sobre associações. Cuidado epiléticos.

 

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Ponto e Vírgula
25 de abril de 2013 por gabriela

Café da manhã com referências

Post Mágico

De bonecos barbudos seminus a aplicativo infantil, o café de hoje contou com muitas referências incríveis:

 

Mary Design | Incomuns | Parte 01 – Infância from Mary Design on Vimeo.

A série Incomuns, produzida pela marca Mary Design, explora a auto-descoberta de mulheres que sempre se sentiram originais. Nessa parte, cada uma conta sobre sua infância e como alguns episódios moldaram seus sonhos e aspirações.

 

When I Grow Up from The Academy on Vimeo.

Ainda falando sobre como a infância molda nossos sonhos, When I Grow Up explora a imaginação de um menino.

 

De família indiana, o artista Aakash Nihalani se inspira na arquitetura urbana. Suas esculturas e intervenções mostram a cidade como uma rede infinita de cubos.

 

Matthew Lyons é bastante citado em blogs de referência, mas vale a pena rever seu portifólio.

 

Pesquisas mostraram que o ambiente perfeito para a produtividade requer um nível de barulho moderado. Pra criar um ambiente controlado de criatividade, Coffitivity traz o som de um café para o desktop.

 

Chickpea é uma publicação sobre gastronomia vegan que encoraja um estilo de vida baseado na alimentação saudável.

’030′ by The Good The Bad (UNCUT) from The Good The Bad on Vimeo.

O clipe sexy da banda The Good The Bad.

 

Sébastien Tellier – Look from Record Makers on Vimeo.

E outro clipe sexy de Sébastien Tellier. Vale a pena ver de novo.

 

Drawnimal é um aplicativo infantil (mas adultos também vão querer baixar) para incentivar o desenho e a alfabetização.

Brasuca from Animatorio on Vimeo.

O programa Brasuca do Cartoon Network ganhou uma abertura maravilhosa toda feita a mão pelo estúdio Animatório.

 

Impossível não se impressionar com o portifólio do italiano Matteo Meta.

 

My Cooking Diary é o diário de receitas da designer Sharon Hwang.

 

El Clásico – [5-0] [illustration] from likethatstuff on Vimeo.

Até quem não gosta de futebol vai amar o clássico Barcelona x Real Madrid animado por Richard Swarbrick.

 


Ao ver Mimi Kirchner é difícil imaginar que ela produz bonecos de homens peludos e seminus.

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Arte, Moda, Ponto e Vírgula
18 de abril de 2013 por Eduardo Biz

Sobre a estética da imortalidade e o choque contemporâneo

Post Mágico

Phillip Toledano é um grande artista. Entre sua rica produção, o projeto que mais se destaca é uma trilogia (ainda inacabada) sobre a mortalidade.

A primeira parte deste projeto, “Days With My Father”, ficou muito famosa quando foi lançada em 2010. Trata-se de uma série de fotografias que Toledano fez de seu pai em seus últimos anos de vida, sofrendo de perda de memória. São imagens emocionantes, acompanhadas de textos extremamente sensíveis, que resultam em pura emoção e enchem os olhos de lágrimas.

A sequência da trilogia — sobre a qual quero me aprofundar nesse texto — é “A New Kind of Beauty”, que traz imagens desta vez focadas na questão da imortalidade. Aqui, os protagonistas das fotografias são pessoas que passaram por cirurgias plásticas radicais, em busca da perfeição estética e da eterna juventude.

Com efeito chiaroscuro, estes retratos quase remetem a uma beleza clássica, não fossem pelas modificações faciais, implantes, lifts, injeções de colágeno, e todas as suas possíveis combinações. A inspiração de Toledano é o alemão Hans Holbein the Younger, conhecido por pintar os retratos mais realistas do século 16.

As reações a essas imagens são diversas: susto, surpresa, nojo, piedade, risos, repulsa, admiração, desdém… Seja o que for, é inegável que o primeiro instinto ao se deparar com seres tão familiares — e, ao mesmo tempo, tão distantes daquilo que estamos acostumados a conhecer — é uma espécie de choque.

E temos de admitir: hoje em dia, é rara a estética capaz de chocar. Como pode a sociedade contemporânea olhar torto para essas imagens? Logo ela que se diz tão moderna e aberta ao novo; que já viu de tudo e aprendeu a admirar as vanguardas da arte; que se assume plural e confortável com a diversidade?

Ao longo da história da humanidade, cada época se escandalizou com alguma manifestação estética, seja vindo da moda, das artes plásticas ou da subcultura. Ao longo dos anos, porém, a evolução do pensamento sempre passou a assimilar e incorporar essas novidades.

Pense na estética punk, por exemplo, e como ela foi agressiva para os anos 1970. Hoje, é um movimento totalmente agregado à cultura pop. Aliás, um breve olhar histórico já revela diversos outros momentos de choque e escândalo que hoje não assustam nem ao Papa Francisco:

Mulheres tatuadas causando tumulto no final do século 19

No seriado Downton Abbey, Lady Sybil é recriminada por usar calças em pleno 1912

Leila Diniz afrontando o Brasil nos anos 1960. “Transo de manhã, de tarde e de noite.”

O grafite, antes visto como arte marginal, hoje no interior de luxuosas propriedades

São tabus que foram digeridos pela sociedade. Na cultura pop, a tríade “sexo, religião e morte” sempre foi (e sempre será?) sinônimo de falatório. Madonna sabia bem disso quando simulou masturbação no palco, queimou cruzes e sensualizou com santos negros nos anos 1980. Mas a sexualização dos videoclipes daquela época parece bem inofensiva hoje em dia.

O inaceitável de ontem é o bem aceito de hoje. Em “História da Feiura”, o semiólogo Umberto Eco avalia que os conceitos de belo e feio são relativos aos vários períodos históricos e às várias culturas:

“Observamos incrédulos as fotos das atrizes dos filmes mudos sem entender como seus contemporâneos podiam considerá-las fascinantes e não poderíamos, por outro lado, incluir uma mulher rubenesca em um desfile de moda de atualmente. Mas não é apenas o passado que resulta incompreensível: no mais das vezes, os contemporâneos mostram-se incapazes de apreciar o futuro, ou seja, as propostas muitas vezes provocativas apresentadas pelos artistas.”

E é exatamente disso que falam as fotografias de Toledano. Segundo o artista, sua intenção foi representar um lado bastante particular da beleza dos nossos tempos, que mistura métodos cirúrgicos, arte e cultura pop. Seria esta a vanguarda da evolução estética humana? O feio de hoje passará a ser belo daqui a 20, 50, 100 anos?

A russa Valeria Lukyanova e o americano Justin Jedlica, conhecidos como “Barbie” e “Ken” da vida real.

Nietzsche aborda essa questão em “Crepúsculo dos Ídolos”:

“No belo, o ser humano se coloca como medida da perfeição; adora nele a si mesmo. No fundo, o homem se espelha nas coisas, considera belo tudo que lhe devolve a sua imagem. O feio é entedido como sinal e sintoma de degenerescência. Cada indício de esgotamento, de peso, de senilidade, de cansaço, toda espécie de falta de liberdade, como a convulsão, como a paralisia, sobretudo o cheiro, a cor, a forma da dissolução, da decomposição… tudo provoca a mesma reação: o juízo de valor ‘feio’. O que odeia aí o ser humano? Não há dúvida: o declínio de seu tipo.”

A polêmica que o trabalho de Toledano causa não é pouca, vide os comentários dos leitores deste blog argentino que postou sobre o assunto. É uma obra que coloca em pauta nossa noção de realidade. Outra artista muito conhecida pelas modificações corporais — porém com outra pegada — é ORLAN, que no início dos anos 1990 começou a fazer procedimentos cirúrgicos a fim de usar o próprio corpo como plataforma de sua produção artística.

Obras de arte que provocam reações avessas aos nossos padrões de belo são muito definidoras na história da humanidade, e são até capazes de gerar efeitos psicossomáticos como vertigens, falta de ar e alucinações.

Mas são elas as principais responsáveis por colocar em discussão os próximos passos do nosso tempo, ainda assombreados por preconceitos de quem teme a evolução.

“Esta beleza universal que a Antiguidade derramava solenemente sobre tudo não deixava de ser monótona; a mesma impressão, sempre repetida, pode fatigar com o tempo. O sublime sobre o sublime dificilmente produz um contraste, e tem-se necessidade de descansar de tudo, até do belo. Parece, ao contrário, que o grotesco é um tempo de parada, um termo de comparação, um ponto de partida, de onde nos elevamos para o belo com uma percepção mais fresca e mais excitada.” (Victor Hugo em “Cromwell”)

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Ponto e Vírgula
18 de abril de 2013 por gabriela

Café da manhã com referências

Post Mágico

O café de hoje foi cheio de referências interessantes. Vejam o que rolou:

Good Books é uma livraria online da Nova Zelândia com uma proposta bastante interessante: direcionar 100% do que recebem para projetos sociais da Oxfam.

 

The Reconstrutionists é um projeto da ilustradora Lisa Congdon e da escritora Maria Popova. Toda segunda-feira, por todo ano de 2013, elas publicam uma ilustração e um texto sobre mulheres que impactaram nossa cultura e como vivemos nossa vida- independente do gênero!

 

The Periodic Table of Jazz é uma tabela periódica diferente. Sem compostos químicos, com Louis Armstrong, Charlie Parker e Count Basie (OBS: precisou-se criar uma categoria completamente nova para Miles Davis)!

 

Dys4ia poderia ser só mais um jogo online, mas seu caráter autobiográfico explica um tema que muitas pessoas ainda não entendem completamente: a transsexualidade. Criado por Anna Anthropy, o jogo relata de maneira divertida a época em que ela começou sua terapia de reposição de hormônios.

Evolution of Music mostra a evolução da música desde o século XI até os dias de hoje.

MōVI BTS from Vincent Laforet on Vimeo.

Com produção 100% independente, MōVI é uma câmera digital com um estabilizador que permite todo tipo de movimento sem deixar o filme tremer. Imagine quanto dinheiro se economizará em travelling!

 

E para finalizar, um mix de duas coisas que o núcleo do design aguarda ANSIOSAMENTE: Bling Ring – o novo da Sofia Coppola com a Emma Watson + Get Lucky, do novo CD do Daft Punk – que tocou em loop durante semana no núcleo aqui na Box.

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Moda, Ponto e Vírgula, Tecnologia
16 de abril de 2013 por andre

Habitat Espacial: por que o planeta não é mais o bastante?

Post Mágico

Exploração espacial é um tema que habita nossos imaginários há muito tempo, de Julio Verne à Star Trek e 2001: Uma Odisseia no Espaço, obras que, além das viagens ao espaço, refletem temas fundantes da cultura ocidental: a nossa relação com o tempo, a solidão da condição de espécie inteligente, a expectativa de transcendência e imortalidade até temas contemporâneos como o esgotamento dos recursos e a obsessão pela tecnologia.

The Afronauts, série fotográfica da jornalista Cristina De Middel sobre um projeto de esacalada espacial da Zambia criado pelo professor Edward Makuka Nkoloso em 1964.

O projeto era uma tentativa de levar o primeiro africano à Lua e diminuir o gap tecnológico-científico do país em relação ao restante do mundo.

Se a corrida espacial foi potencializada em 1969 quando Neil Armstrong pisou na lua, o fim da guerra fria e sucessivas tentativas frustradas diminuíram o interesse por esse tema. Em outubro de 2012 publicamos a capa da MIT Technology Review que nos perguntava por qual motivo deixamos de investir na exploração do espaço infinito ou mesmo em  grandes problemas como a cura do câncer ou a massificação de energias renováveis, para trabalhar em criações que contribuem tão pouco para a humanidade. Como o cientista Jeff Hammerbacher bem colocou: “as melhores mentes da minha geração estão pensando em como fazer as pessoas clicarem em propaganda”.

 Buzz Aldrin’s footprint in the moon’s gray, powdery surface.
.

No entanto, nos últimos anos a escalada espacial voltou a fazer parte o espírito do nosso tempo. Em 2012 o Kickstarter possibilitou o Edge and Back, projeto dos alunos da 6a série de uma escola de Kentucky nos EUA que enviaram uma câmera ao espaço; a Redbull promoveu a primeira queda livre da estratosfera até o solo; a NASA ultrapassou 3.5 milhões de seguidores no twitter; e Elon Musk, milionário sul-africano fundador do Pay-Pal, anunciou a SpaceX, empresa que presente mandar famílias para passear no espaço em 2025.

O Cinema é sempre um reflexo do inconsciente coletivo, vide a quantidade de filmes que têm explorado o assunto, de Avatar à Prometheus. Importante ressaltar que os filmes de ficção não têm retratado a escalada espacial como um sonho, mas como um destino inevitável e a poucas décadas de distância. Vale lembrar que o TED Talk ficcional de Peter Wayland, dono da maligna corporação de Prometheus que leva a raça humana a investigar suas origens através do espaço, acontece em 2023.

A Moda também é um campo em que é possível enxergar inúmeras referências desse movimento. Um bom exemplo é o Haute Joaillerie,  curta belíssimo criado pelo diretor Jérémie Rozan para Louis Vuitton em 2012 que nos leva a uma incrível jornada pelo planeta vermelho:

A grande mudança que estamos vivendo é que no lugar de exploração espacial, passamos a tratar o tema como expansão espacial. Ou seja, ao invés de descobrir vida em outros planetas, fala-se em habitação interplanetária. Além disso, se os programas governamentais financiaram a exploração do universo no passado, hoje a habitação espacial também passou a ser promovida por iniciativas privadas que falam em turismo e até colônias espaciais. Por um lado a NASA anunciou o Transiting Exoplanet Survey Satellite (TESS), projeto que será lançado em 2017 para buscar novos planetas, enviará astronautas a Marte em 2030; além de produzir o “We are the Explorers”, vídeo que será passado nos cinemas antes do novo filme da saga Star Trek sobre as novas empreitadas da organização:

Por outro lado a iniciativa privada Mars One tem a ambição de estabelecer uma colônia humana em Marte em 2023 [sim, você realmente leu 2023]. Criado pelo empresário holandês Bas Lansdorp, o projeto conta com o apoio e financiamento de cientistas, engenheiros e companhias aéreas de diversos países, além de um curioso time de embaixadores, do físico vencedor do prêmio Nobel Prof. Dr. Gerard ‘t Hooft a Paul Römer, criador da série de reality shows Big Brother. A participação de Paul Römer não é pura coincidência, uma vez que o planejamento, seleção dos astronautas até o pouso e construção da colônia no planeta vermelho serão transformados em um grande reality show. A ideia é que o público escolha aqueles que darão o próximo grande passo da humanidade:

Parece absurdo? O recrutamento da missão ainda não começou e Mars One já recebeu mais de mil candidatos. Também vale lembrar que o astronauta canadense Chris Hadfield virou uma celebridade depois que passou a documentar sua vida na Expedição 35. Só o vídeo em que ele mostra como seria chorar no espaço já acumula mais de 1.5 milhões de views.

Nos próximos anos, a Habitação Espacial será um tema cada vez mais reincidente na cultura de massa. Comunicadores, produtores de conteúdo e inovadores devem buscar inspiração neste assunto e enxergar os valores que estão por tras desta microtendência.

No cinema dizem que a viagem – ou a jornada – é a grande metáfora da cultura ocidental para a transformação do sujeito. Nesse sentido, o interesse crescente por viagens espaciais é reflexo de transformações que pairam no ar, como a valorização da racionalidade que transformou cientistas nos novos rockstars ou mesmo o [crescente?] desejo de escapismo em meio a crises econômicas e problemas mundiais que são aparentemente insolúveis. Se por um lado a tecnologia nos trouxe o sabor da onipresença através do encurtamento do tempo e do espaço, flertamos com a habitação espacial e suas extensas jornadas como um resgate da longa temporalidade. Arriscaria ainda dizer que, sendo este um lugar onde o som não se propaga, o espaço seria enfim uma possibilidade de silêncio, contemplação e recomeço. Em outras palavras, a promessa de um novo paraíso.

imagens do ensaio da revista Select em que artistas criaram imagens de Marte como o paraíso humano do século 21. Acima, José Resende

Greg Bousquet, arquiteto da Tryptique

 

UPDATE: pra você que cansou desse planeta, a seleção da Mars One de candidatos para morar em Marte irá começar em Julho. Serão 24 selecionados até 2015 e, em seguida, 7 anos de treinamento até a partida da primeira tripulação em 2023. Ah sim, vale lembrar que a viagem é só de ida. Segundo o CEO da organização, Bas Lansdorp, eles esperam um milhão de inscrições no formato de vídeos de um minuto. Se interessou?

 

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Ponto e Vírgula
11 de abril de 2013 por gabriela

Café da manhã com Referências

Post Mágico

O café de hoje foi cheio de referências legais! Vejam o que rolou:

Pra quem está acostumado com projeções em video mapping com estéticas realistas ou geométricas, vale a pena conferir trabalhos que fogem deste padrão, como Run e Homeless da dupla Vjsuave (Ygor Marotta e Ceci Soloaga).

 

Incidental Comics exibe os quadrinhos do cartunista e ilustrador Grant Snider.

O escritório japonês Torafu Architects criou vasos de papel baseados na Bauhaus, que podem ser modelados de vários jeitos. Estão disponíveis na Upon a Fold. 

 

Para os tímidos: In Between é um trabalho incrível da escola Gobelins sobre uma mulher perseguida por um crocodilo, que representa sua timidez.

 

 

N é o aplicativo criado por Jorge Drexler que possibilita o usuário de interagir com a música, criando novas composições.

 

Candy Chang é uma artista que mescla sua subjetividade com o espaço público. Após a morte de uma pessoa querida, Chang repensou diversas questões que a fizeram criar Before I Die: um painel sob o muro de uma casa abandonada onde as pessoas podem escrever o que querem fazer antes de morrer.

 

A Hyper Island é uma espécie de Harvard digital na Suécia que oferece vários cursos interessantes. Este site, criado por alunos do curso Digital Data Strategist, mostra os conteúdos de cada programa e como evoluir através deles (detalhe: scroll num sentido nada usual – de baixo pra cima).

 

E pra terminar o post e deixar o dia de todo mundo lindo: Fight For Everyone da banda Leisure Society. Babem por este clipe maravilhoso!

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Ponto e Vírgula
05 de abril de 2013 por gabriela

Café da manhã com referências

Post Mágico

Toda quinta-feira de manhã, o núcleo de Design da Box 1824 organiza um café da manhã para compartilhamento de referências. Vale tudo: coisa velha, coisa nova, coletivos, organizações, iniciativas, portifólios ou vídeos interessantes. E agora decidimos compartilhar tudo isso aqui no Ponto!

Vejam o que rolou:

Celestial Dynamics do designer Kim Taylor explora a estética de diagramas antigos de astronomia.

30 things at 30 trata da auto-análise do designer Fabricio Lima, mais exatamente de 30 conclusões sobre si mesmo feitas aos 30 anos. Dá vontade de fazer um também!

Back to Me é uma música linda do Joel Compass (e o clipe não poderia deixar de ser ridiculamente lindo).

Cinemetrics cria uma espécie de “impressão digital” para filmes, a partir de suas cores, estrutura, falas e movimentação. Gerou bastante buzz há um tempo atrás, mas vale a pena relembrar!

O mexicano Gabriel Dawe  largou seu emprego como designer gráfico para se dedicar à arte. Suas instalações costumam explorar questões de gênero e identidade nacional. Seu projeto mais recente, Plexus, vale a pena de ser visto e pensado.

Life Drawing at The Book Club dá vida múltipla à modelo nua.

Koloman Moser foi um grande artista da Art Nouveau, que se dedicava tanto às artes plásticas, quanto ao design de materiais diversos.

Bolacha de Chopp Magnética é uma maravilhosa iniciativa de SouBH para conscientizar a galera de que beber e dirigir são duas atitudes que não (nãaaaaaaaaooooo) combinam!

Rios e Ruas é uma iniciativa que conscientiza e explora in loco as cidades, redescobrindo os rios já invisíveis e soterrados por concreto. Dessa forma, cria a discussão sobre problemas urbanos e aproxima a sociedade civil do próprio ambiente.

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Comportamento, Ponto e Vírgula
28 de março de 2013 por marimessias

Ativismo Pornô

Post Mágico

Esperei anos para poder dizer isso, lá vai: pornografia ta em alta.

Atores-galãs como Matthew McConaughey e James Franco estrelam homenagens ao gênero, enquanto do lado de lá atrizes/atores como Stoya, Sasha Grey e James Deen se tornam tão mainstream que até teus pais conhecem (e curtem).

Uma galera tem se perguntado o que gerou essa mudança e a primeira conclusão é que foram os próprios profissionais da área, que mudaram muito. Sasha Grey, que sempre teve um discurso mega feminista, por exemplo, dizia que seu sonho era fazer pornô. Entrou pra carreira assim que a lei permitiu, aos 18 anos, e aos 21 se aposentou. Lançou livros, fez filmes e tem uma banda. E aqui tu pode ler um texto da Stoya falando sobre heteronormatividade e monogamia.

Coroando tudo isso, no final do ano passado um estudo desmitificou a ideia de que o universo pornô só tem maluco.  A teoria que as atrizes seriam um grupo com problemas psicológicos, abuso de drogas ou com histórico de abuso sexual é pura balela. Na verdade, não só elas não sofrem mais abusos que os atores homens como, comparado com o resto do mundo, elas também tem auto-estima mais alta, são mais otimistas, tem uma rede de amizade e apoio maior, uma espiritualidade mais desenvolvida e gostam mais de sexo.

E pra quem ainda insiste naquele papo vintage de que pornografia nunca é bom para as mulheres (ignorando que esse é um dos únicos mercados onde elas ganham mais que eles), eu apresento o Feminist Porn Awards. A premiação valoriza produções que mostrem prazer feminino real, que rompam com os estereótipos bizarros da indústria pornô e que tenham mulheres em outras funções, além da atuação.

Provando que essa galera sabe o que quer não tem vergonha de assumir, uma nova geração de atores, atrizes e casais do universo pornográfico quer ajudar a salvar o mundo. Fazendo sexo, claro.

Um bom exemplo disso são os noruegueses do Fuck for Forest. O FFF é uma ONG ambientalista que recolhe fundos para salvar as florestas fazendo filmes pornográficos e shows de sexo explícito.

Eles realmente acreditam que sexo pode salvar o mundo e deixam bem claro, no site, que menores de idade e pessoas que se ofendem com demonstração de amor ou exposição de verdades não são bem vindas.

http://youtu.be/PorAFEakwv4

O trailer aí de cima é de um documentário, dirigido pelo  Michal Marczak, que acompanha os grupo em manifestações e ações em florestas e que acabou de ser lançado no SXSW desse ano.

Outra coisa que foi lançada no SXSW desse ano foi o PSIgasm, sobre o qual já falamos aqui. PSIgasm é um projeto/gadget/sextoy criado por um casal do queerporn. Com ele, os dois pretendem entender melhor as reações fisiológicas do corpo ao sexo e, disseminando informações, diminuir os tabus e aumentar o prazer (especialmente o feminino, já que cerca de 70% das mulheres afirma não ter orgasmos!).

Aliás, queerporn pode ser considerado um tipo de ativismo per se. Diferente da pornografia que a maioria de nós conhece, que é direcionada para uma preferência sexual (seja hetero ou gay), o queerporn mistura pessoas com diversas identidades de gênero (desde transgêneros até cisgêneros, que são aqueles cujo gênero concorda com o seu sexo). E o que isso faz? Esse tipo de porn é conhecido por ser mais ousado e romper com tudo: barreira de gênero, padrão de beleza, enfim. Aqui tem um texto bem massa sobre o tema, pra quem se interessou.

Pra terminar não podia deixar de citar o Zak Sabbath (1/2 de um dos mais doces casais do porn). Antes mesmos de entrar para o universo pornográfico, Zak já tinha uma carreira bastante conhecida como artista (ele já expôs no MoMA e no Whitney Museum e ja ilustrou Pynchon), onde atende por Zak Smith. E, segundo algumas fontes, essa é a carreira que o sustenta até os dias de hoje, já que grande parte do dinheiro que ele faz com porn é doado para ONGS como a Food Not Bombs.

Além disso, Zak foi um dos precursores dessa vibe de desmitificação dos astros pornô. Por exemplo, o desenho aí de cima é a Mandy Morbid, sua namorada, e faz parte do livro We Did Porn, onde ele reuniu seus retratos de atrizes pornô. Em 2010 ele também dirigiu o programa I Hit It With My Axe, onde uma galera (tipo de Kimberly Kane, Sasha Grey, Justine Joli) jogava D&D. Sim, isso mesmo.

Então era isso, né. E não esqueça: faça sexo, não faça guerra.

 

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Ponto e Vírgula
14 de março de 2013 por marimessias

Feliz dia da Poesia

Post Mágico

No dia da poesia perguntamos para quatro jovens e talentosos poetas quais seus poemas brasileiros favoritos. Se deleitem:

BRUNA BEBER:

(Paulo Leminski)

a árvore é um poema
não está ali
para que valha a pena
está lá
ao vento porque trema
ao sol porque crema
à lua porque diadema
está apenas

Quando eu era meninote, uma página límpida, um pedaço de fralda, o Leminski foi o primeiro poeta que falou comigo. Tinha uma mangueira no quintal da minha casa praonde eu sempre ia. Subia até o topo e passava a tarde lá em cima vigiando as lagartas, me purificando, descobrindo a poesia de abrir meu coração para o verde. Aí, a primeira vez que eu li esse poema eu não fui mais a mesma pessoa, acho que virei uma árvore e me senti melhor assim. Tem uma música, que acho que é a minha música brasileira favorita, que faz uma dupla perfeita com esse poema. Talvez ela já tenha sido poema, mas pra mim ela é um hino: As árvores

(A Bruna nasceu em 1984 em Duque de Caxias e seu próximo livro sai em Maio pela Record)

VICTOR HERINGER:

Poema só para Jayme Ovalle (Manuel Bandeira)

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.

Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei.
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

Manuel Bandeira pediu perdão por ser poeta menor em seu “Testamento”. O poeta menor é aquele que não guerreia alto, que não faz versos federais. É o poeta sem castelo, o nômade que afirma o templo que é o si próprio, o cantor de pequenezes tremendas. O poeta menor é atento à superfície e ao fundo, raramente interpreta o mapa-múndi ou as cartas celestes. É capaz de chegar às estrelas, mas só num golpe de banalidade, como uma cama elástica no lugar errado ou um foguete tomado por engano.

O mito do poeta menor é importantíssimo para nós, gente sem deus, sem pátria e perdida no cosmo. Gente pequena no melhor dos sentidos. Hoje, o poema menor talvez seja o único possível. Se assim for, é no “Poema só para Jayme Ovalle” que encontramos sua forma mais luminosa. Por muito tempo, Bandeira não soube o que faria com ele. Quase o destruiu. Não sabia se “prestava”, se era um poema de verdade. Curiosamente, é esse poema, duvidoso para o próprio poeta, aquele que mais nos tem a dizer hoje. Quase impuro, quase um não-poema, o “Poema só…” é um dos poucos que tem a humildade de atravessar as décadas.

(o Victor nasceu em 1988 no RJ e lançou o livro Automatógrafo em 2011 pela Editora 7 Letras. Seu outro poema favorito,  Testamento, pode ser lido inteiro no link)

ANA GUADALUPE: 

Emílio ou da Educação (Waly Salomão)

Garoto
Você é meu
Garoto
Você mora no meu coração
Garoto
Quando tiver condições
Quero morar com você
Garoto.

Esse é um dos meus poemas preferidos em língua portuguesa por vários motivos: fica bem em voz alta ou em silêncio, você lê uma vez e talvez já decore tudo, são versos que podem ser muito divertidos e também muito sérios (depende da leitura), a repetição de “garoto” faz com que a palavra “garoto” pareça outra coisa, é uma boa declaração de amor/amizade um pouco assustadora, atinge todas as idades e crenças, prova que um poema de apenas 8 versos tem condições de ser maravilhoso.

(A Ana nasceu em 1985 em Londrina e lançou seu livro Relógio de Pulso em 2011 pela Editora 7 Letras)

ALICE SANT’ANNA:

(Ana Cristina Cesar)

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas

Difícil escolher o poema brasileiro preferido. Difícil até dizer se esse é meu preferido da Ana Cristina Cesar. Mas foi o primeiro que li dela, e o que desencadeou a vontade de escrever poesia. É um poema torto, curto, com um apelo visual poderoso. Tanto no sentido quanto na forma, ele míngua até virar um filete.

(A Alice nasceu em 1988 no RJ e lançou seu livro Dobradura também pela Editora 7 Letras)

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Comportamento, Ponto e Vírgula
08 de março de 2013 por marimessias

Dia Internacional da Mulher

Post Mágico

Se tem uma coisa que parece que já virou tradição no dia 8 de março nas minhas redes sociais, são comportamentos bizarros.

Pude traçar três grandes correntes: de um lado tem a galera que eu convencionei chamar “Amor de Chocolate”, que vê o Dia Internacional da Mulher como uma maneira de enaltecer a sensualidade e afins. Do outro tem aquela galera que eu convencionei chamar de “Até tenho um amigo gay”, que diz que esse dia é só mais um dia como qualquer outro.

E no meião é sempre possível notar mulheres se debatendo de constrangimento e/ou falta de paciência.

Parece imaginável que, como pessoas normais que somos, achemos melhor falar de conquistas e coisas boas do que de dados horríveis, como o de que mais de 88 mil casos de agressão contra a mulher foram relatados em 2012 (ou que as denúncias aumentaram 600%).

Por outro lado, assim como no Dia do Orgulho LGBT nosso papel não deve ser apenas comemorar conquistas (pessoais e universais), mas também cobrar mudanças. No dia 8 de março temos muito para pensar e desejar. Ou não?

Foi no meio desse turbilhão de dúvidas, afirmações e questionamentos que decidimos pedir para seis mulheres incríveis dizerem se acham que o dia 8 de março ainda faz sentido e, caso ainda faça, por qual motivo.

Bora aprender, então:

Para mim, o 8 de Março é não só o dia das mulheres, mas é um dia de luta das e para as mulheres. E quem são as mulheres? Certamente, não somos todas a mesma – branca, magra, cabelos longos e levemente cacheados, com luzes, filhos a tira colo, emprego bem sucedido, casa sempre limpa e lingerie sexy por baixo de uma roupa da moda – como tentam nos fazer crer as propagandas que homenageiam nosso dia.

Somos muitas, de muitos lugares, realidades, trajetórias, crenças. Somos pluralidade e diversidade. Mas todas temos uma marca, um carimbo imaginário e cultural que diz “mulher”, e que, ao invés de ser valorizado, foi e continua sendo motivo de exclusão, de violência, de assédio, de chacota, de submissão. E é no 8 de Março que devemos gritar mais alto o quanto toda essa discriminação é inadmissível. Especialmente em tempos tão sombrios, em que e os direitos humanos no Brasil estão ameaçados pela preponderância da religião sobre o Estado laico.

Maíra Kubík Mano é jornalista, doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp, professora do Bacharelado em Gênero e Diversidade da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e está terminando sua tese de Doutorado sobre os discursos das mulheres na política institucional.

 

O Dia 8 de Março é importante pelo simples motivo de que a mulher ainda é oprimida. O dia em que formos realmente iguais, poderemos transformar o dia em uma comemoração, mas, por enquanto, ainda é um dia para abrir os olhos da galera que prefere não saber, por exemplo, que sete de cada dez mulheres serão agredidas ao longo da vida – este é um dado da ONU – e que essas mulheres não estão longe. A violência acontece no seu prédio. Na sua rua. Pode ser que aconteça na sua família, com a sua sobrinha, sua vizinha, sua colega de trabalho, sua chefe, a chefe de sua chefe, uma juíza, enfim. Violência contra a mulher não escolhe classe social. E a violência acontece porque ainda vivemos sob uma ideologia patriarcal, onde a mulher está abaixo do homem. 2013, sabe, chega disso. Sim, conquistamos muitas coisas, mas ainda não chegamos nem perto de realmente reestruturar o funcionamento da sociedade para que seja igualitária e justa.

Clara Averbuck é escritora e acaba de lançar o livro Cidade Grande No Escuro.

 

Essa é uma data extremamente relevante não apenas para as mulheres mas também para toda a sociedade. É uma oportunidade para refletirmos sobre diversos acontecimentos históricos que, parafraseando a escritora Toni Morrison, precisam ser esquecidos (superados) para que se possa seguir adiante, mas também constantemente lembrados de forma a impedir a repetição e exigir a reparação das injustiças sofridas no passado. A luta por justiça é uma luta que depende diretamente desse trabalho de memória e que demanda reflexão, individual e coletiva.

Vivi Nickel é doutora em Letras, professora da UFSM e se dedica aos estudos de gênero há quase uma década.

 

As origens do 8 de março são um pouco confusas. A versão historicamente mais aceita é que, apesar de existir alguns anos antes, o Dia da Mulher se firmou na Rússia, durante uma greve de trabalhadoras. A tal greve, ocorrida no ano de 1917, teria sido o estopim da Revolução Socialista. E é por esse motivo que o Dia Internacional da Mulher é antes de tudo um dia de luta contra a opressão classicista e de gênero. Então, eu me pergunto: como uma data tão importante se tornou um dia para receber flores, elogios machistas, presentinhos, bombons e lingeries? Como podemos achar que o Dia Internacional da Mulher é um dia para presentear e não para refletir? A primeira resposta que tenho em mente é o termo “backlash”, usado em livro homônimo pela jornalista Susan Faludi. “Backlash” designa como se desenvolve a luta anti-feminista, que tenta torcer nossas visões para dentro e invisibilizar a luta feminista, como se ela não fosse mais necessária, não fosse importante.

E é o backlash que acontece quando ouvimos elogios tão seletivos. As mulheres que merecem ser elogiadas no Dia da Mulher são aquelas que se alinham ao status quo, que não o questionam. São mulheres que se alinham ao pensamento majoritário, são aquelas que aceitam a “jornada tripla” sem reclamar, que não se opõem à monogamia, maternidade, heterossexualidade e etc. As outras, que ousam se opor de alguma maneira ao sistema patriarcal que nos cerca, que não se dobram à ele, são sistematicamente excluídas. Nunca vi material publicitário de uma empresa sobre o dia internacional da mulher em que haja uma mulher trans, ou gorda, lésbica, ou talvez halterofilista, enfim, qualquer mulher que saia dos padrões convencionais. Para as mulheres que não se enquadram, nada de elogios, nada de rosas.

É preciso lembrar que a situação da mulher no mundo não é das melhores. Se a agenda dessa data começou com a luta de classes, hoje podemos estendê-la às mais diversas opressões que a mulher sofre no mundo: Trabalho mal remunerado, violência doméstica, grupos religiosos interferindo nas escolhas que ela faz sobre seu corpo, bullying virtual, assédio moral, assédio sexual, humilhações de diversas naturezas, exploração sexual, estupro, feminicídio e etc. E é exatamente em razão disso que o 8 de março é necessário: Porque não existe igualdade e ainda nos dão rosas em vez de respeito.

Gizelli Sousa é arquiteta e ativista do movimento feminista, ex-colaboradora do Ativismo de Sofá, hoje escreve no Maior digressão do mundo.

 

É uma boa oportunidade pra que a sociedade e, principalmente, as mulheres possam debater sobre essa imagem de feminilidade limitada e limitante que nos vendem, que retrata a realidade da mulher como decorativa e acessória. Quanto mais as diferentes mulheres apontarem o dedo pra essa relação entre a infantilização e a violência — um aparente ponto cego no debate político sobre o tema–, maior será o espaço que a discussão pode ganhar. Existe uma associação inegável entre alimentar a imagem das mulheres como “criaturinhas especiais” (diferentes dos homens, que representam a norma) e a manutenção de um clima de violência contra a mulher. Por isso, o melhor jeito de resgatar o dia da mulher para a contemporaneidade talvez seja fazer aquilo que as tecelãs brutalmente exterminadas em 8 de março estavam fazendo: reclamar seus direitos. É um dia pra pra botar a boca no trombone, para fazer ouvir o que as mulheres silenciadas têm a dizer. Nos outros 364 dias do ano, as reclamações femininas ficam, muitas vezes, relegadas a “bobagens”, “coisa de mulher”, “está naqueles dias”, “nunca está satisfeita” ou coisas do tipo. Mas o dia da mulher pode ser uma suspensão disso, um dia em que o manto se ergue e a sociedade ouve o que elas têm a dizer. Um dia por ano é pouco, sem dúvida, mas que data melhor para começar o debate, se o próprio dia da mulher acabou sendo diluído pelo calendário comercial a ponto de virar uma data antifeminista, em que a regra é o sexismo benevolente e cor-de-rosa (que só serve pra validar o outro sexismo, mais feio e misógino)?

Mariana Bandarra é tradutora e fundadora do Movimento Bambambam.

 

O dia 8 de Março nasceu como um dia de luta, em homenagem às manifestações femininas em busca de melhores condições de trabalho e de vida. Mas o nosso dia tem sido transformado em uma data comercial e seu significado deturpado pela mídia e pela publicidade brasileira. É celebrada com festividade uma suposta conquista feminina dos seus direitos; mas sabemos que o enorme número de assassinatos, estupros e violências cometidas contra a mulher todos os anos evidenciam o contrário.

Enquanto nós, mulheres, sofremos violência doméstica e morremos por femicídios nas mãos de nossos ex-parceiros – casos retratados como “crimes passionais” -, nos exibem propagandas de eletrodomésticos para “facilitar” as nossas vidas. Enquanto somos abusadas sexualmente no ônibus, estupradas em casa e transformadas em objeto sexual para vender carros e cervejas ou nas revistas masculinas, nos oferecerem cosméticos a preços promocionais para nos deixar “mais bonitas”. Enquanto trabalhamos uma jornada tripla, somos barradas de empregos com relevância social, sofremos abuso em ambiente de trabalho e recebemos menos para exercer a mesma função que os homens, nos presenteiam com flores.

Para a sociedade, a sexualidade da mulher não pertence a si mesma: ultrapassar os papéis de servitude traçados pelo machismo significa se submeter às mais diversas formas de violência. Não importa se somos chamadas de vadias ou espancadas até a morte, não podemos nos submeter à banalização de nossa causa. É por isso que precisamos retomar o significado original do dia 8 de Março e dar continuidade à nossa luta.

Jarid Arraes é estudante de Psicologia e feminista. Ela escreve e dá seminários a respeito de sexo, sexualidade, gênero e suas ramificações.

 

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